SÃOSINHA

Homenagem

Por: Conceição Ferreira Borges | Categoria: Entretenimento | 07-09-2019 09:44 | 481
Abaetê Ary Graziano Machado
Abaetê Ary Graziano Machado Foto de Arquivo

Abaetê Ary Graziano Machado, escritor e poeta, filho de Graziana Graziano Machado e Ary da Costa Machado, ligados a literatura e as artes em São Paulo, onde nasceu.

Seu primeiro contato com a cultura foi na infância, lendo o primeiro livro infantil, e nunca mais deixou de ler. Conhece os clássicos mundiais e tem um grande entusiasmo pelos clássicos brasileiros e escritores atuais.

Conheceu a jovem paraisense Vânia, casaram-se e tiveram filhos queridos. Viúvo, sua companheira é também paraisense, Ana Maria.

É paraisense pelo coração e Câmara Municipal.

Acadêmico da Academia Paraisense de Cultura. Escritor e poeta, seus livros crônicas e poemas, revelam seu talento e sua cultura imensa.

Todo ano, a Academia de Cultura escolhe um pai para ser o representante dos pais acadêmicos. Foi escolhido "Pai Acadêmico 2019" o escritor acadêmico Abaetê Ary Graziano Machado.

A solenidade foi presidida pelo acadêmico André Luiz Mirhib Cruvinel, entregando-lhe o título conquistado pelos seus valores morais.

O homenageado iniciou seu pronunciamento mencionando com muito carinho sua família. Continuou lendo, emocionado, sobre sua infância, adolescência e sonhos.

"Todos os presentes (ou quase todos) conhecem minha posição quanto a este tipo de homenagem que hoje me prestam, mas o dever de gratidão - que penso ser a mais nobre de todas as virtudes, não me permitiria deixar de estar aqui presente com vocês nesta noite.

Por outro lado, todos os pais acadêmicos têm méritos para estar aqui na frente. Qual o critério utilizado para a escolha de meu nome? Quem é este Abaetê, e por que foi ele escolhido entre outros tanto ou mais louváveis?

Sem conhecer as respostas a estas questões, procurei-as num retrospecto de minha vida. E as encontrei ao rememorar as razões e os incentivos que me levaram ao ápice de me tornar membro da APC e de ter meu nome escolhido para estar aqui à sua frente.

Como todo pai, sou também filho. Durante todas as fases de sua vida natural tive por companhia um pai que me acompanhou, me ajudou, me guiou, me orientou, me amou.

Menino mirradinho, feinho, orelhas de abano, meu pai me ensinou na infância que o mundo é hostil, que não aceita os diferentes, embora os proteja os fracos e os encaminha durante seu fado quando dessa hostilidade se tem consciência. Por isso, nunca me senti abandonado.

Não foi diferente durante minha adolescência. Papai conheceu minhas dificuldades, acompanhou meus percalços. Ajudou-me nos entraves. Orientou-me na escolha das alternativas. Incentivou meus progressos. Mostrou o que seria bom para mim. Ensinou-me que melhor é amar o certo e detestar o errado; é ser educado, respeitoso, obediente, leal. Foi sempre meu amigo.

Sua escolha das melhores escolas do bairro para as primordiais noções de educação e cultura, reforçada pela frequência diária à biblioteca infantil municipal da região, possibilitou-me introduzir Monteiro Lobato, Mário Donato, Francisco Marins, Charles Dickens, Walter Scott, Alexandre Dumas, Esopo, La Fonatine e tantos outros em minha vida de menino, construindo o alicerce de minha formação literária. Na biblioteca pessoal de meus pais, entrei em contato com Eça de Queiroz,Stefan Sweig, Érico Veríssimo, Malba Tahan, Dostoievsky ... Sempre com sua direta supervisão, também me fizeram companhia José de Alencar, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Victo Hugo, Tolstói ... A amizade pessoal de papai com Menotti Del Picchia, Joracy Camargo, Cornélio Pires e tantos outros me permitiu aumentar o interesse pela literatura brasileira.

Também devo a meu pai a influência que obtive em minha formação musical. Poeta e compositor de talento, seu nome esteve firmemente introduzido no mundo musical dos anos 1940 e 1950. Parceiro de nomes como Nilo Silva, Erastóstenes Frazão e Adoniran Barbosa, entre outros, ele galgou altos degraus nas rodas de samba paulistas, tendo obtido destaque em diversos concursos e premiações, como cito o segundo lugar no carnaval de 1937, na categoria marchas, com Quero Dar um Beijinho em Você, gravado por Rubens Peniche e o Bando da Lua. Através dele conheci pessoas cujos nomes marcaram minhas preferências na MPB de então, como Mário Zan, Sólon Sales, Lupicínio Rodrigues, Cascatinha e Inhana...

Papai não era versado em música erudita. Mas sabia lhe dar valor. Com a influência de minha mãe nesse campo, a música lírica de Verdi, Puccini, Mascagni e Donizetti, povoou meu imaginário já na adolescência, época em que também Chopin, Tchaikovsky e Strauss fizeram comapnhia aos compositores italianos citados.

Papai era um grande fã dos filmes de cowboy. Quando pequenos, eu e minhas irmãs íamos com ele todas as semanas ao Cine Dom Pedro, no Vale do Anhangabaú, onde assistíamos, em sessão dupla, westerns com o Tom Mix, Roy Rogers, Hopa-long Cassidy, John Wayne, Robert Taylor, Glen Ford (que eu achava que era meu tio Afonso), James Stewart, Gary Cooper e meu favorito, o Randolph Scott. Amei o cinema.

Também graças a meu pai, o teatro entrou em minha vida. No início dos anos 1950, no Rio de Janeiro, tomei contato com a família Cazarré (o velho Cazarré, sua esposa Déa Selva, seus filhos Older, Luís (o único artista plástico) e o Olney, seu cunhado Abel Pera, sua sobrinha Marília Pera - na época apenas com pouco mais de dez anos). O parentesco de papai com Rodolfo Mayer, sua amizade com Rodolfo Arena, Oswaldo de Barros, Eva Todor, Dercy Gonçalves e tantas figuras outras, povoaram as muitas noites que passei nos teatros Natal, Brasileiro de Comédia, Maria Della Costa..., cujas coxias frequentei assiduamente tomando contato físico com os maiores nomes da dramaturgia nacional da época. Tudo graças a ele, repito, que queria que eu me tornasse um homem culto, na acepção inclusiva da palavra.

Como se vê, toda a minha formação cultural eu devo a meu pai. Tudo o que sou culturamente tem laços na orientação pessoal daquele que me deu a vida. Papa é a razão, a fim e ao cabo, de hoje eu ser membro dessa Academia, de estar nesta noite agradecendo a indicação de meus irmãos de alma. É pois com orgulho e emoção coerente com minha forma de encarar esta homenagem que posso concluir minhas palavras.

Papai, era você quem deveria estar sendo homenageado hoje. Muito mais coerente. Muito mais justo! E muito mais merecido!"

Nesse momento de intensas emoções o acadêmico tenor, Alexandre Cavallero interpretou a belíssima canção "Meu Velho", composição do argentino Piero, versão brasileira gravada por Altemar Dutra).

A noite teve a sensibilidade e a grandeza de importantes acontecimentos culturais, artísticos e sociais.