LÍNGUA SOLTA

E aí!? Sextou!?

Por: Michelle Aparecida Pereira Lopes | Categoria: Cultura | 10-09-2019 13:36 | 279
Michelle Aparecida Pereira Lopes
Michelle Aparecida Pereira Lopes Foto de Reprodução

Não é de hoje que podemos observar como a língua que circula nas redes sociais é mais fluida, ou menos sisuda. Esta língua que, muitas vezes, nem parece ser a língua portuguesa, está sempre produzindo novidades, criando termos e se renovando. Para aqueles que conhecem pouco dos estudos linguísticos e possuem a compreensão de que língua é apenas norma padrão, ou ainda somente a gramática, as variantes que circulam não passam de erros. É sempre bom lembrarmos que as aparências enganam e, em língua, isso não é diferente. Neste texto, vamos falar um pouco desses processos que permitem que a língua produza novas palavras.

As palavras de nossa língua são constituídas por unidades menores, bastante significativas, chamadas de morfemas. Os morfemas são “partes” de um vocábulo, capazes de armazenar e transferir o significado. O morfema mais significativo é o radical, que vai passando de uma palavra primitiva para as derivadas. Por exemplo, se pensarmos na palavra pedra, bem como em uma lista de outras palavras criadas a partir dela – pedreira, pedrisco, pedregulho, pedraria, pedrinha, e tantas outras – reconheceremos facilmente o radical “pedr-”, responsável por transferir o sentido armazenado em pedra para todas as demais palavras derivadas dela. Por isso, mesmo que não saibamos exatamente o que é um pedrisco, por reconhecermos nela o radical “pedr-”, inferimos que tem alguma coisa a ver com pedra.

Além do radical, a língua possui outros morfemas: prefixos, sufixos, desinências, vogais temáticas, vogais e consoantes de ligação. São esses morfemas que, ao se unirem aos radicais, acabam formando novas palavras. Então, se toda palavra possui radical, e se há uma série de outros morfemas à disposição dos falantes, podemos deduzir que o radical da palavra pode sempre ser usado de um modo novo, produzindo novas palavras.

É esse movimento, que na verdade é um processo morfológico bastante comum na língua, que vem originando tantos novos termos que vemos por aí, a cada momento. Ainda que nos pareça estranho ver em uma postagem “Sextou”, pois até a bem pouco tempo essa palavra não fazia parte de nosso vocabulário, dentro da morfologia da língua, a criação desse termo é totalmente possível. Explicamos. O final “–ou” é uma desinência verbal, ou seja, aparece na conjugação dos verbos, na terceira pessoa do singular, do pretérito perfeito do indicativo. Ora, basta nos lembrarmos do “acabou”, “amou”, e muitos outros verbos terminados em “–ar”.

Como na língua, há ainda, a possiblidade de um substantivo derivar para criar um verbo, usando para isso, a desinência de infinitivo “-ar”, é fácil explicarmos o processo de formação da palavra “sextou”: do substantivo “sexta” (de sexta-feira) deriva o verbo “sextar” que, ao ser conjugado na terceira pessoa do singular, no pretérito perfeito do indicativo, produz “sextou” – o radical “sext-” unido à desinência “-ou”. Pelo mesmo processo, tantos outros verbos derivaram de substantivos e são conjugados com as mesmas desinências.

Para nós, linguistas, não há nada de novo; ao contrário, se a morfologia da língua possibilita, ocorrerá. Uma boa pergunta seria “por que não ocorreu antes?”. Ah, não sabemos dizer ao certo, contudo arriscamos mencionar que, para uma sociedade que parece buscar cada vez mais, motivos para celebrar tudo e fazer disso uma grande comemoração, a chegada da sexta-feira, por marcar o início do tão esperado final de semana, não poderia passar despercebida... Logo, o “sextou” cumpre bem seu papel de lembrar a todos que os dias de descanso, ou de festa, chegaram. Só não dá para esquecer que depois do fim de semana todos precisam segundar. E segundar, convenhamos, nem sempre é fácil depois de sextar tanto!

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MICHELLE  APARECIDA PEREIRA LOPES:

Doutora em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos e pesquisadora da constituição discursiva do corpo feminino ao longo da história. É docente e coordenadora do curso de Letras da Universidade do Estado de Minas Gerais - Unidade de Passos.