ENTRETANTO

Entretanto

Por: Renato Zupo | Categoria: Justiça | 18-09-2019 13:56 | 63
Renato Zupo
Renato Zupo Foto de Reprodução

Hathers e Maçons
Não sou maçom. Gosto da história deles e tenho inúmeros amigos que pertencem às hostes de Salomão e com isso procuram praticar o bem e dar bons exemplos. A Maçonaria sempre esteve presente na história da humanidade e exerceu importantíssimo papel em episódios cruciais que ditaram os rumos da política moderna: ela regeu a independência americana, a revolução francesa e a declaração da república brasileira. Até já fui convidado para ser maçom, mas meu tempo livre, pouquíssimo, dedico aos meus filhos, e não gosto muito de confrarias. Não possuo turmas, possuo amigos. No entanto, respeito muito a maçonaria e sempre considerei os seus membros pessoas altaneiras, contidas, discretas em fazer o bem. Assistir a alguns maus maçons, agora e através da internet, utilizando sua doutrina para defenestrar políticos com palavras de ordem e ódio é manchar uma história bonita, é um triste sinal de tempos que nos igualam a todos, perigosamente, por baixo. Maçons comportando-se como haters de internet denigrem a imagem de uma ordem mais antiga que a Igreja Católica.

O Efeito Argentina
Nossa economia está umbilicalmente atrelada à dos hermanos argentinos. É até gostoso passear por Buenos Aires com nosso real valendo quatro vezes mais que a moeda deles, mas é péssimo para a balança comercial entre os dois países. A Argentina é uma das principais compradoras de produtos industrializados e matéria-prima brasileira. Se ela anda mal, para de comprar e nós (obviamente) paramos de vender a eles. Estocamos mercadorias e não fazemos dinheiro. Há outro motivo para torcer pela Argentina, ao menos na macroeconomia: o primeiro mundo tende a nos ver, latino americanos, como um mercado só, excetuando-se aí um ou dos “nanicos” avermelhados, como Bolívia e Venezuela, sem peso algum na balança comercial. Se um dos grandes sul americanos quebra, se sua economia derroca, pesa para a imagem comercial do continente inteiro. Portanto, torçamos por Macri. A volta de Cristina Kirshner ao poder é a volta do Peronismo – o petismo argentino, que há cinquenta anos tornou proletário um dos povos mais ricos do mundo.

Censura Gay
Ver o prefeito do Rio, juízes e desembargadores, e por fim o STF, se preocupando em censurar ou não uma revista em quadrinhos, uma HQ dos Vingadores, por conta de um beijo gay entre dois “heróis”, foi um retrocesso de cem anos na história. Lembrou-me Sigmund Freud assistindo impávido aos emergentes nazistas queimando seus livros. Perguntado sobre sua opinião diante daquele gesto absurdo, respondeu ironicamente que via naquilo um progresso, porque antes os ignorantes queimavam os autores dos livros. Mal sabia o pai da psicanálise que a cremação de judeus em câmaras de extermínio seria uma realidade em um par de anos, e que várias décadas depois veríamos uma inusitada cena de moralismo ridículo em plena Bienal do Livro da libertária cidade do Rio de Janeiro em pleno Século 21. Tudo por conta de uma cena de beijo gay que estava perdida em uma página esquecida no meio de um calhamaço que ninguém folheava. Proibido o Gibi (dos Vingadores), a cena foi parar no Fantástico e em todos os sites e programas de TV. A revista que custava vinte pratas está hoje custando mais de cem e esgotou, aliás. O tiro saiu pela culatra. Em um país que atura vídeos pornográficos, Sex Shop e motéis, bordéis e cenas de sexo na sessão da tarde, é ridículo acautelar-se com um “selinho” afrescalhado em um gibi de super heróis. E mobilizar uma força tarefa de juristas e servidores públicos para cuidar do caso é desprezar as inúmeras mazelas e problemas muito mais prementes que o Brasil e, principalmente, o Rio de Janeiro, tem como prioridade resolver. O gesto de censura inoportuna não é somente desnecessário, é emblemático de um país cada vez mais burro e que desperdiça dinheiro e tempo cevando a ignorância.

Mulher de verdade
Sou contra o feminismo porque é o machismo ao contrário, e os extremos nunca são bons. Pessoas e atitudes devem ser equilibradas e é com isto que se angaria respeito. Minha família sofreu a triste perda recente da nossa matriarca, minha Tia Gema, a mais equilibrada das mulheres que conheci. Nunca precisou falar alto para ser respeitada. Suas atitudes e exemplos delimitavam seu território e conquistavam a admiração de todos aqueles ao seu redor. Professora verdadeiramente vocacionada para o magistério, nos educou a todos que com ela convivemos. Falando baixo, educadamente, convencia. Sua autoridade moral era-lhe imanente, tão natural quanto respirar. Dama a moda antiga, incomparável se alinhada hoje às dondocas etéreas e empoderadas, que procuram ganhar no berro o que lhes falta em perspicácia, elegância e estilo – qualidades que as senhoras educadas de outrora, como a minha tia, possuíam de sobra. Tia Gema ensinava até através de seus silêncios e nos deixa a todos encantados pelo privilégio de desfrutar de sua existência linda e amorosa. Ela foi um pouco mãe de nós todos.
RENATO ZUPO, Magistrado, Escritor