ELY VIEITEZ LISBOA

Recriminação

Por: Ely VIeitez Lisboa | Categoria: Cultura | 24-09-2019 14:35 | 276
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Um dia a parente querida, tão inteligente, ralhou comigo: Não gosto de sua mania de conversar com a gente, ouvir com paciência, mas sempre observando, analisando... Parentes e amigos são para conversar, interagir, mas nunca analisar! Não somos cobaias, nem pacientes!  Fiquei quieta, sem argumentos, porque era verdade. Mas confesso meu pecado: não mudei minha maneira de agir.

Autodefesa: acho os seres humanos muito complexos, estranhos (características da receita divina?!) e me fascina observá-los em sua maneira de ser, às vezes contraditória, inesperada, mas sempre inaudita. Vou mais além na minha confissão:  Mea culpa, mea culpa! É defeito de longa data, acho que desde a adolescência. Como não perceber, atraída, que homens e mulheres, de raça ou países vários têm características bizarras?

Todos com gostos diferentes, preferências, pontos de vista, cosmovisões várias e o mais notável: cada um vê a realidade de modo diverso. Amo aquela historinha dos poetas e filósofos que visitaram a primeira vez uma fazenda. Às dezoito horas, alguns foram ver o pôr do sol. O empregado, homem do campo, simples, prático, foi junto. Quando o sol começou a se pôr, todos se encantaram e fizeram comentários:

Hora da Ave Maria!  Os Anjos vão adormecer? Metáfora diária da morte e renascimento após! Milagre de Deus oferecido na Natureza!... Crepúsculo do mundo ou dos Homens? Ocaso dourado! Poente, belo poema! De lado, o empregado também falou: É, o sol foi embora, logo a noite taí...

Um episódio enriquecedor: as três jovens, entusiasmadas, ao redor da mesa, após o jantar. Conversa vai, conversa vem, duas delas começaram a rememorar o passado das três irmãs, quando adolescentes. Historinhas, festas, primeiros namorados, a maneira de agir de cada uma. Uma delas, mais calada, quase lacônica, comentou comigo após, em particular: Credo, tudo que elas contaram, nada daquilo  foi daquele jeito! Sorri e não disse palavra. O encontro era um argumento precioso para minha tese exposta acima...

Há um conto famoso, de um grande autor, cuja trama tem seis personagens, testemunhas de um crime. Cada um conta uma história totalmente diferente. E o caso de meu romance epistolar, Cartas a Cassandra? Ele já foi tachado até de pornográfico (pobrezinho...Ele apenas narra histórias verídicas recriadas, de várias mulheres conhecidas). Compare-o com as obras do Marquês de Sade, autor francês do século XVIII; ele deu origem ao termo sadismo, que influenciou a autora inglesa Erika Leonard James, no seu badalado "50 tons de cinza", recentemente filmado, com igual sucesso. Já me perguntaram várias vezes se li o romance ou assisti ao filme. Não, nem pretendo ler ou ver, porque não gosto de ler livros traduzidos (o tradutor é traidor, conceito famoso) e detesto o sadismo, que é uma degenerescência do erotismo. Cada leitor ou espectador lê o livro, ou vê o filme, de maneira diferente.

O que estou tentando explicar em minha defesa é que quem escreve, faz ficção (realidade recriada)  não pode, não consegue, não deve deixar de olhar para o mundo ao seu redor, a maneira de agir das pessoas, a filosofia de cada um, a mundividência diferenciada dos seres humanos. É uma riqueza oferecida aos escritores, todos os dias, porque o mundo é um palco com variadas cenas, atores e atrizes; o diretor é um demiurgo (conhecido por muitos nomes) , brilhante e criativo; ELE usa a técnica teatral do happening: peça sem script, os atores têm que improvisar...

Minha querida, como posso ignorar o presente que o Autor Divino nos dá, todos os dias, as personagens ricas, com histórias (e estórias) tão atrativas?!

(*) Ely Vieitez é escritora.
E-mail: elyvieitez@uol.com.br