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Natália Ladeira: Doando amor àqueles que passam por momentos difíceis

“Nós temos a oportunidade de acordamos todos os dias e de ser uma pessoa melhor, de fazer um mundo melhor”
Por: João Oliveira | Categoria: Entretenimento | 24-09-2019 15:46 | 719
Natália é presidente do projeto Arco-íris que funciona na Santa Casa e no Clube das Acácias
Natália é presidente do projeto Arco-íris que funciona na Santa Casa e no Clube das Acácias Foto de Arquivo Pessoal

A voluntária e presidente do projeto Arco-íris e no Clube das Acácias, Natália Maria de Souza Oliveira Ladeira, há pelo menos 20 anos vem doando seu tempo para oferecer um pouco de carinho e alento àqueles doentes carentes que precisam da Santa Casa de Misericórdia e que, muitas das vezes, passam por necessidades e não têm a quem recorrer. Natália é natural de Cataguases (MG), filha de Braz Guedes de Oliveira (em memória) e Solange Rosa de Souza Oliveira. È casada com o policial civil aposentado, Sidrônio Ladeira e mãe da advogada Gabriela e do administrador Tiago, que é pai da pequena Isadora, de 10 anos. Hoje, aos 56 anos, Natália dedica grande parte do seu tempo em ajudar ao próximo e conta um pouco da sua trajetória de Cataguases a Paraíso.

Jornal do Sudoeste: Você hoje se sente filha de Paraíso, mas sua história não começa aqui, não é mesmo?
N.M.S.O.L.: Eu sou natural de Cataguases, região da Zona da Mata. Cheguei a Paraíso em 1993, com meu marido, que é policial civil. A época ele foi transferido para São Sebastião do Paraíso e eu o acompanhei. Até então não conhecia a cidade, foi uma surpresa muito grande. Meu marido já conhecia Passos, que foi o primeiro local em que trabalhou iniciando sua carreira na Polícia Civil.

Jornal do Sudoeste: Vocês vieram região da Zona da Mata para Paraíso?
N.M.S.O.L.: Quando nos casamos fomos morar em João Monlevade, passamos por Teófilo Otoni, voltei para Cataguases, e depois viemos para Paraíso, em 1993, mas em 2001 meu marido foi transferido novamente para Catagua-ses, e em 2003 o delegado regional da época fez o convite para que ele retornasse e não pensamos duas vezes, voltamos para cá porque eu amo essa cidade.

Jornal do Sudoeste: Como foi sua infância em Cataguases?
N.M.S.O.L.: Foi uma fase maravilhosa. Eu não vim de uma família abastada, tivemos nossas dificuldades, mas foi uma infância gostosa. Sou de uma família de sete irmãos, hoje somos em seis porque um já faleceu. Era uma escadinha (risos). Tinha muitas crianças na vizinhança, as ruas nem eram asfaltadas, era terra, e brincávamos muito.

Jornal do Sudoeste: Você tem uma memória muito marcante dessa época?
N.M.S.O.L.: Recordo-me que na época não tinha Copasa, havia uma água que saia da torneira e não me pergunte de onde vinha (risos). Eu sei que para beber nós íamos à mina com os baldes buscar essa água para colocar no filtro. Era tudo muito divertido, aquela molecada toda carregando baldes d’água. É tudo o contrário do que vemos hoje em dia.

Jornal do Sudoeste: E a fase de escola, foi boa aluna?
N.M.S.O.L.:  Eu fui uma boa aluna em matérias humanas, nas exatas nem tanto. Quando você está no grupo, é uma beleza, mas ensino fundamental e médio começa a ficar difícil. Mas nunca repeti de ano, e concluí o segundo grau. Não fiz faculdade porque tínhamos que trabalhar, e a minha vontade era estudar Direito, mas não havia na minha cidade. Optei por não estudar do que fazer algo que eu não tinha vontade. Meu marido e minha filha são bacharéis em Direito, não digo que me realizei neles, mas passou essa vontade. Casei-me muito jovem também, eu tinha 20 anos.

Jornal do Sudoeste: Como foi quando você chegou a Paraíso?
N.M.S.O.L.: Quando viemos para cá, fomos morar em uma casa na Zézé Amaral, não tinha nada naquele lugar, a frente era uma fazenda de eucalipto. Mudou muito depois desses anos, lá hoje acho que é um petshop.

Jornal do Sudoeste: O que mais estranhou aqui?
N.M.S.O.L.: A primeira coisa que estranhei foi o sotaque, o R de vocês aqui é muito marcado, de onde eu vim é um pouco mais arrastado, mas já me habituei e estranho quando converso com a minha família, dá para perceber a diferença do meu falar e o deles. De resto, foi muito tranquilo. Fiz muitos amigos perto de onde eu morava, e são amigos meus até hoje. Minha filha veio muito jovem, tinha quatro anos, mas meu filho, que tinha oito, sentiu a mesma dificuldade que eu e precisei conversar com a professora, porque dado ao sotaque, ele trocava o r pelo l. Foi tudo muito tran-quilo, e o tempo que eu fiquei fora depois que vim para cá, em 1993, eu nem conto.

Jornal do Sudoeste: Como você conheceu o grupo Arco-íris?
N.M.S.O.L.: Foi frequentando o Centro Espírita Mensageiros, dirigido pela Fátima Dowe, onde conheci a Helena Figueiredo, a Leninha, que me fez o convite. Digo que estou desde a formação do grupo porque acompanhei esse processo dela, que ia a Ribeirão Preto fazer o voluntaria-do no Hospital do Câncer de lá e trouxe esse aprendizado para cá. Estamos neste trabalho há 20 anos.

Jornal do Sudoeste: O trabalho voluntário não deve ser fácil, como você lida com todas essas questões emocionais?
N.M.S.O.L.: No começo eu vinha duas vezes por semana, porque começamos o Bazar, e depois comecei a vir uma vez por semana para fazer as visitas, então era mais tranquilo. No entanto, quando assumi a presidência passei a vir todos os dias, e estou muito atuante. É um trabalho muito gratificante e costumo dizer que é um remédio, porque você se depara com tantas dificuldades, tanta carência que a sua vida se torna um mar de rosas. Você chega em casa tran-quila, pode fazer uma oração para aqueles que ficaram aqui. Nós temos um trabalho às segundas-feiras, em que um grupo espírita vem e realizamos um trabalho espiritual de passe nas UTIs. É um trabalho que também nos dá uma energia muito grande para o restante da semana, já que o desgaste emocional é muito grande, mas Deus vai repondo.

Jornal do Sudoeste: Como é a sua relação com Deus?
N.M.S.O.L.: Eu sou uma pessoa que procuro praticar a palavra. Não sou muito de frequentar assiduamente o Centro Espírita, já frequentei bastante, mas hoje faço outro tipo de trabalho, embora ainda continue sendo espírita, que se chama “terapia multidimen-sional”. Nós somos um grupo que fazemos esse trabalho pedindo contribuição, porque quando alguém faz esse curso, esse alguém pode fazer essa terapia cobrando por ela, mas nós não. Somos composto por 10 pessoas, não cobramos, fazemos esse trabalho pedindo uma contribuição em fralda, que trazemos para a Santa Casa. Então fazemos dessa forma, é uma troca que existe.

Jornal do Sudoeste: Você tem uma veia para o serviço voluntário, não?
N.M.S.O.L.: Acredito que desde criança. Cresci vendo a minha mãe e a minha avó sempre ajudando as pessoas, acho que está na veia. Minha família toda gosta de ajudar ao próximo, mas eu sou a única da família que é dona de casa, apesar de ter trabalhado um período como telemar-keting assim que vim para Paraíso. Mas logo saí desse emprego e comecei a prestar esse serviço voluntário.

Jornal do Sudoeste: Você também é presidente do Clube das Acácias Fraternidade Universal. Como é isso?
N.M.S.O.L.: Sim. Tem quatro anos que eu frequento o clube, assumi a presidência em julho. É um grupo de mulheres e filhas dos maçons das Lojas Maçônicas em Paraíso. Nós fazemos reuniões, e temos um jantar só de mulheres, onde fazemos um bingo e o que arrecadamos nós destinamos as diversas obras sociais que existem em Paraíso.

Jornal do Sudoeste: Esse ajudar o outro, você acredita que falta solidariedade por parte das pessoas?
N.M.S.O.L.: Eu acredito muito no ser humano, e que esta solidariedade entre a classe mais pobre existe de maneira maior, às vezes ele até tira de si para ajudar o próximo. Acredito que quem tem muito, é mais abastado, deveria ter uma consciência maior em ajudar ao próximo, não precisa esperar alguém pedir – e até acredito que muitos ajudam e não gostam de comentar o que fazem, mas vejo mais dificuldade nessas pessoas em doar. A solidariedade não adianta, a pessoa tem que ser, não se torna, a menos que esteja aqui dentro (do Hospital), numa doença. Vemos muitas pessoas se transformarem na doença, principalmente aquelas que entendem que a doença vem para purificar e ensinar – mas tem algumas que não aprendem, o que é uma pena, nós não levamos nada daqui, o que Deus espera de nós é o que fazemos, e não o que deixamos.

Jornal do Sudoeste: Nesses anos todos de Paraíso, você sente que a cidade progrediu?
N.M.S.O.L.: Paraíso mudou muito. Eu e meu marido nunca fomos muito de sair, mas quando viemos para cá, não tinha nada onde morávamos, na Zezé Amaral. Eu abria a janela e era mato, bicho na porta de casa. Para chegar ao Centro, passávamos no meio do mato mesmo. Acredito que a cidade cresceu muito. Nós vemos isso, os bairros que aumentaram. Infelizmente cresceu, mas falta emprego. É uma cidade que tem tudo para dar certo. Não é minha cidade natal, mas me considero Paraisense, amo essa terra, temos a opção de voltar para a nossa terra, porque meu marido já aposentou, mas decidimos ficar, porque gostamos muito daqui. Infelizmente, falta oportunidades para os jovens. É onde entra a política: é preciso que a política faça isso acontecer. Vemos políticos brigar muito, mas não se une para o desenvolvimento do povo, principalmente daquele mais carente, porque quem tem dinheiro vai embora. Apesar disso, a cidade é linda, isso não tenho dúvidas, está linda toda florida com os Ipês; as pessoas são muito acolhedoras, e em todos os lugares estivemos fizemos muito amigos.

Jornal do Sudoeste: Falta um olhar do Poder Público para as obras sociais?
N.M.S.O.L.: Falta muito. Acredito que a questão política poderia ser melhor, assim como poderia haver uma união maior entre todas essas obras sociais, talvez até unificar, criar um controle e direcionamento dessas ajudas como cestas básicas, acredito que estaríamos ajudando muito mais. Mas o problema é que cada um quer fazer só o seu. A Leninha fez essa proposta uma vez e não foi muito bem vista, porque cada um quer fazer só o seu, encaro isto como um acerto de contas, do tipo “eu fiz mais que o outro”, o que é uma bobeira.

Jornal do Sudoeste: Tem hora que você desanima do trabalho voluntário?
N.M.S.O.L.:  Gosto do trabalho voluntário, é como se fosse um remédio, e aconselho a todos que estão em casa, que estão se sentindo desanimados, a fazer o trabalho voluntário. É o melhor remédio para qualquer crise emocional, seja ele qual tipo de volun-tariado for. Às vezes a pessoa pode ser voluntária em casa, fazendo tricô e nos mandando para rifar ou fazer um bingo. Não precisa sair de casa para ser voluntário.

Jornal do Sudoeste: Qual o balanço que você faz dessa trajetória?
N.M.S.O.L.: Eu só tenho gratidão. Acredito que errei, mas já passou, é para frente que nós olhamos, e procurando sempre melhorar e sempre apoiando meu marido, meus filhos e acolhendo quem precisa. Eu sou assim, e só tenho a agradecer, acredito que o que eu fiz, está feito; é por meio das falhas, dos erros que nós melhoramos. Só tenho gratidão, ao meu marido, aos meus filhos, neta, ao Arco-íris, aos amigos e a todos que estão na minha vida.