POLEPOSITON

Acordos mal resolvidos

Por: Sérgio Magalhães | Categoria: Esporte | 06-10-2019 11:40 | 1438
Senna quebra acordo, ultrapassa Prost e rivalidade tornou-se a mais ferrenha já vista na F1
Senna quebra acordo, ultrapassa Prost e rivalidade tornou-se a mais ferrenha já vista na F1 Foto de Arquivo / Pole Position

GP de San Marino de 1989. Antes da largada, Ayrton Senna e Alain Prost firmaram um acordo de cavalheiros para que quem largasse na frente não fosse ultrapassado pelo outro na primeira volta da corrida. 

As duas McLaren dividiam a primeira fila do grid com Senna na pole. Ayrton  pulou na frente, mas na quarta volta a Ferrari de Gerhard Berger espatifou-se no muro da Tamburello, pegou fogo, e a prova foi paralisada. Na segunda largada, Prost arrancou melhor e na freada da Tosa foi ultrapassado por Senna que venceu a corrida.

Foi a gota d´água para a maior rivalidade já vista na Fórmula 1. Prost acusou o brasileiro de não respeitar o acordo. A defesa de Senna foi de que o trato valia apenas para a primeira largada. Eles passaram a se odiar e por obra do destino uma aproximação começou a ser feita minutos antes de Senna perder a vida na mesma pista de Ímola, em 94.

Há uma semelhança entre o episódio Senna X Prost e o que se passou domingo passado, no GP da Rússia, com os pilotos da Ferrari. O fio da meada começa no treino de classificação do GP da Itália, em Monza quando Vettel deu o vácuo para Leclerc em sua primeira tentativa de volta rápida que acabou valendo a pole position, e na vez de Vettel ter o auxilio do vácuo, Leclerc ficou preso atrás de carros mais lentos e não fez esforço em superá-los para puxar o companheiro de equipe. Irritado, Vettel acusou o monegasco por quebra de acordo. A defesa de Leclerc foi ter ficado preso atrás de carros mais lentos. 

Em Cingapura, Leclerc liderava a prova ditando ritmo mais lento para segurar o pelotão e forçar o desgaste dos pneus das Mercedes. A Ferrari chamou Vettel primeiro para troca de pneus, e não contava que na volta seguinte Leclerc perderia a posição para o alemão que venceu a corrida. A insatisfação do monegasco ficou explícita nas conversas de rádio.

Na Rússia, a Ferrari era favorita à dobra-dinha na pista que é território da Mercedes. A meta era fazer com que Vettel (3º) no grid, se livrasse de Lewis Hamilton (2º), e ambos abrissem boa vantagem na frente. Para isso foi feito o acordo: Caso Vettel largasse melhor que Hamilton, Leclerc lhe daria o vácuo, e mesmo que fosse ultrapassado pelo alemão, teria a primeira posição de volta.

Mas Vettel largou como um foguete, ultrapassou Hamilton e Leclerc, abriu vantagem e ignorou as ordens para devolver a posição. Coube à Ferrari inverter as posições nas trocas de pneus, chamando primeiro Leclerc e deixando o alemão por mais quatro voltas na pista com os pneus bastante desgastados. O que ninguém contava era que um problema mecânico no carro de Vettel fosse decretar a derrocada da Ferrari que terminou apenas em 3º, atrás das duas Mercedes. Ironia, ou castigo?

A desobediência de Vettel remete ao GP da Malásia de 2013 quando corria pela Red Bull e ignorou ordens para não ultrapassar Mark Webber. O episódio ficou conhecido como “mult21”, uma mensagem codificada de rádio que significava ‘o carro 2, de Webber, na frente do carro 1, de Vettel’. O alemão foi pra cima do australiano e venceu a prova.

A Ferrari que sempre estabeleceu uma hierarquia entre seus pilotos, vai ter trabalho para administrar a guerra interna que está deflagrada. A última dupla explosiva que passou por Maranello teve um saldo trágico com a morte de Gilles Villeneuve, inimigo declarado de Didier Pironi. E dada as devidas proporções entre o que se passou entre Prost e Senna cuja gota d´água foi a quebra de acordo em San Marino, os interesses são os mesmos entre os pilotos da Ferrari. De um lado, Vettel, 32 anos, com a autoridade de tetracampeão, jamais reclinará a um jovem de 21 anos bem menos experiente, apesar do talento natural. Leclerc por sua vez sabe que para alcançar seus objetivos terá que atropelar o companheiro de equipe, seja ele quem for. É a lei do mundo selvagem da Fórmula 1 para quem quer ser grande.