PREÇO CAFÉ

Produtor atribui baixo preço do café à falta de política pública e de lideranças

Por: Nelson de Paula Duarte | Categoria: Agricultura | 19-10-2019 10:24 | 1179
O cafeicultor João Abrão Filho
O cafeicultor João Abrão Filho Foto de Reprodução

Há mais de dois meses, cafeicultores reuniram-se na praça central de Cabo Verde, depois de grande número de tratores e implementos terem percorrido ruas da cidade. O “Movimento Regional Para Salvar a Cafeicultura”, iniciativa de um grupo de aproximadamente 15 cafeicultores independentes, reivindicou do Governo Federal o alongamento de dívidas e a criação de mecanismos para conter baixos preços de comercialização.

Ambas propostas, diferente do esperado, continuam sem solução prática. Produtores ainda pelejam para negociar com instituições financeiras, e o preço da saca de café não rompe a barreira dos quatrocentos e poucos reais, valor que para quem faz as contas na ponta do lápis, está abaixo do custo de produção.

O cafeicultor João Abrão Filho que por 25 anos presidiu o Sindicato Rural de Altinópolis, do qual atualmente é diretor, faz parte de um grupo que diverge sobre os rumos em que se enveredou a cafeicultura no país. Dizendo ser “produtor que vive as dificuldades do setor”, ele critica a falta de lideranças e a inoperância de órgãos como o Conselho Nacional do Café (CNC), e do Conselho do Café, ligado à Confederação Nacional da Agricultura.

Sobre o preço da saca de café João Abrão atribui à falta de política pública para o setor que segundo ele, precisa ser reestruturado. “Esses dias o deputado Antonio Carlos Arantes, vice-presidente da Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais, fez pronunciamento sugerindo que países produtores criem uma organização, e façam ordenamento de safra”, com o que concordo plenamente, diz.

O mais grave, conforme enfatiza, “é que desde 2012 o café vem perdendo espaço e consequentemente dinheiro, e faltou atuação de lideranças representativas do setor produtivo, membros que ocupam o CDPC, Comissões de Café, que ficaram quietos, omissos. Existia uma Secretaria de Produção e Agroenergia no sétimo andar do Ministério da Agricultura – MAPA – onde havia um secretário que cuidava especificamente de café, por ser setor que apresenta mais problemas. Tinha um diretor do Departamento de Café, e gestão. Era um fórum permanente de discussões, e motivava as reuniões do Conselho de Desenvolvimento de Políticas Cafeeiras (CDPC)”.

João Abrão explica que quando havia uma certa dificuldade, dirigia-se ao secretário, e após ouvir os outros segmentos técnicos do ministério, e havendo concordância por parte do ministro, atravessava-se a Esplanada, indo ao Ministério da Fazenda, para se propor medidas adequadas para o setor café. “Naquele local havia salas para os demais segmentos café, ou seja do solúvel, a indústria, debater, isso na época da ministra Kátia Abreu”.

As federações, ninguém se manifestou quando a Secretaria foi extinta. Costume dizer que hoje cafeicultores têm sido tratados “na vala comum”. Há pessoas boas no ministério, mas anteriormente era um secretário, uma autoridade para o café, devido à importância da cultura. Isso foi na época em que o café estava ligado ao Ministério da Indústria e Comércio, e era ministro Francisco Dornelles”, queixa-se João Abrão.

“Desde essa época, representantes do setor produtivo que têm assento no Conselho Deliberativo do Café, não fizeram nada, foram deixando acontecer. Houve problema de seca, com o preço do café, e, se não me engano, ficaram até dois anos sem se reunir no CDPC. Ficou muito para se construir”, afirma.

Segundo João Abrão, algumas medidas que podem influenciar em melhores preços do produto é o “ordenamento de safras, não mandar o produtor segurar o café, mas dialogar com exportadores”. Lembra que está havendo crise nas centrais e há um segmento que sugere a criação da OCAFÉ, uma organização de países produtores. E questiona: “Por que lideranças no CDPC não se reúnem com produtores da Colômbia, e de países da América Central, onde a crise é pior que a nossa, para conversar, e fazer um ordenamento”? Isso seria começar a discutir uma política para o café, diz.

“É necessário produtores sentarem-se com exportadores, dar a eles condições para segurar café, falar com setores do governo sugerindo a utilização de “um gatilho”, onde por exemplo quando a saca atingir R$ 450 a R$ 500, libera-se algo em torno de 20% do estoque, R$ 520 (30%), e assim por diante. Tem muita coisa que poderia ser feita para se melhorar o preço para o produtor”, opina.

João Abrão Filho trabalhou no Ministério da Agricultura, quando o ministro era Wagner Rossi. Ele lembra que foi criada instrução normativa visando qualidade, problemas relacionados a torrefações que adicionavam palha, milho, pó e outras misturas. “Chegamos a capacitar mais de 200 fiscais, e a Universidade Federal de São Carlos desenvolveu uma “língua mecânica”, houve parceria com o Instituto de Tecnologia de Alimentos. Na época tínhamos um dado que seria tirado de mercado algo em torno de cinco a seis milhões de sacas, que poderia resultar em melhor preço do café. São medidas que poderiam ser feitas ao longo do tempo, mas não foram implementadas. Hoje aquela instrução normativacaiu. O Brasil com ela poderia estar voando longe, porque mostraria ao mundo a qualidade do café, com certificação”, observa.

João Abrão entende que políticas devem ser criadas utilizando-se recursos do Fucafé, hoje em torno de R$ 6 bilhões. “Desse montante para custeio do café somente são destinados 10% e os recursos não mais atendem a função que fazia. Temos parque cafeeiro de dois milhões e trezentos mil hectares (aproximadamente), e se forem utilizados somente 10% para custeio, chega-se a R$ 23 bilhões, e o fundo tem somente R$ 6 bilhões, para ser dividido entre a indústria de torrados e moídos, indústria de solúveis, exportadores e produção (custeio e estocagem). Então o Funcafé precisa ser usado como mecanismo para promover políticas para o café”, propõe.

O Funcafé, para João Abrão poderia ser um fundo garantidor, para se coordenar safras. “Havia estudo da Embrapa para a utilização da palha de café, por exemplo, como biocombustível. Já se vão nove a dez anos, mas nada foi feito. Falta vontade política e existem lideranças omissas”.

“Representantes de classe estão muito fracos”, disse, referindo-se à “Confederação Nacional da Agricultura (CNA) por sua Comissão de Café, e Conselho Nacional do Café que também não está fazendo nada. O CNC era atuante e por lá passaram grandes homens como Abreu Sodré, Gilson Gimenes, Bertoni, e havia parceria com a CNA. Tinha uma sala do CNC dentro do Ministério da Agricultura, e formulação constante de políticas para o setor, e as coisas caminhavam”. No entanto, segundo João Abrão, “não mais há interlocutor. No Ministério da Agricultura, ABIC – ABICs e CECAFÉ vão bem porque há renovação em suas diretorias, ao passo que Silas Brasileiro (CNC) e Breno Mesquita (CNA) estão há anos, e isto não acontece com grandes instituições, é preciso sangue-novo, gente nova. No meu entendimento e de várias pessoas não está bem assim o setor café. Pode ser que alguém esteja ganhando dinheiro, mas a maioria do setor produtivo não está”, salienta, ao defender mudança de direção no CNC e Comissão de Café da CNA. “Não pode ser meio de vida, cabide de emprego”, argumenta e  questiona: “Por que o setor produtivo não se empenhou para melhorar a qualidade do café, CNA e CNC concordaram com a extinção da Secretaria de Produção e Agroenergia, e, consequentemente do Departamento do Café”?

Não vejo o CNA e CNC com visão macro, em reunir representantes de países produtores para ordenar a oferta do produto no mercado internacional, diz João Abrão, que propõe: “Vamos pelo menos tentar, estabelecer preço. Não fazem política de marketing, seriam políticas a ser debatidas em esfera governamental, com o Itamarati junto, e o Brasil e por ser o maior país produtor do mundo e qualidade aqui é o que não falta, então o país precisa assumir esta liderança”.

Sobre a parte financeira que tem sido pedra no sapato de produtores, João Abrão explica que o setor café tinha uma linha de pré-custeio com o prazo de 18 meses. Caiu para 14 e depois 12 meses. E exemplifica: “Você consegue o financiamento para custeio em agosto, e terá que quita-lo no agosto seguinte, em época de plena colheita. Isso provoca queda de preços”.

Ele disse ser de sua iniciativa, documento através do Sindicato Rural de Altinópolis,  pedindo a volta do prazo de 14 meses, que com um alongamento de mais quatro meses que instituições estão concedendo, chega-se a 18 meses.

A rolagem de dívidas de cafeicultores, diferente do que chegou transparecer há dois meses, no movimento realizado em Cabo Verde, tem sido muito complicada. “O deputado Geraldo Gueri, do Rio Grande do Sul, após várias tentativas admite que o governo não quer enxergar a situação. Ele procurou uma linha através do BNDES que daria três anos de carência, com 12 meses para pagar e juros entre 9,5% a 10% ao ano. Essa linha tiraria o café do sufoco, seriam chamados exportadores e  mostrado para o mercado que em vez de vender o café barato para pagar o seu custeio, faria a adesão à linha do BNDES, e seguraria o produto para vender em melhor momento. Mas é uma dificuldade, um desgaste, eu e uma turma muito grande têm trabalhado para essa linha”, afirma João Abrão.

“No entanto o Banco do Brasil afirma que quer linha própria, mas trata-se de renegociação e o produtor não pode estar inadimplente”, complementa.

João Abrão por outro lado ressalta que produtores têm encontrado mais facilidade em negociar junto ao SICOOB Nossocrédito, com matriz em São Sebastião do Paraíso e agências em municípios mineiros e do interior paulista, “que vem fazendo trabalho diferente, pioneiro, através do diretor Elias Amorim que tem sido ponto de referência, enxergando a situação do cafeicultor”.

“No entanto, situações beneficiando diretamente aos produtores, não foram feitas pelo governo, no meu ponto de vista, faltou lugar para isso ser discutido, “faltou o sétimo andar do MAPA”, um secretário, para um trabalho de convencimento. Naquela época a gente convocava e tinha a presença de representante da Federação de Bancos, Febra-ban”.

João Abrão Filho concluiu sua entrevista ao Jornal do Sudoeste, afirmando que o ex-deputado Carlos Melles “tem feito falta, pois era defensor legítimo do café. Primeiro o produtor, batia na mesa, a perca dele foi um desastre, estamos “pagando um pato muito caro”. Não me refiro à problema local, falo dele num sistema macro, pois é conhecedor de política de café, tanto no Brasil, como discutindo em Londres. Perdemos muito do conseguido no passado”, conclui.