198 ANOS PARAÍSO

Mocoquinha

Por: Conceição Ferreira Borges | Categoria: Cidades | 08-11-2019 17:27 | 272
Foto de Reprodução

Historiadora Conceição B. Borges Ferreira (Sãosinha)

Em 1820, os moradores de nossa grande região não tinham uma igrejinha perto deles para rezar. Iam sozinhos ou em grupos, a pé, a Jacuí, para assistir missas, ou simplesmente rezar junto ao santo de sua devoção.

Ficavam cansados, mas com os corações felizes.

Em 25 de outubro de 1822, a família Antunes doou 50 alqueires de suas terras para ser construída uma igrejinha dedicada a São Sebastião, e posteriormente, um povoado, uma vila e uma cidade.

A igrejinha foi logo construída, pequenina e simples, mas grandiosa no coração dos moradores.

A fazenda dos Antunes ficava um pouco além das terras do atual Condomínio Campo Alegre. A metade do caminho entre as terras dos Antunes e a Igrejinha de São Sebastião era exatamente atrás da Igreja da Abadia, construída muitos anos depois.

Aqueles que moravam muito longe começaram a construir ali, ranchinhos para descansar ou dormir, quando iam rezar à tardinha.

Esse talvez seja o local que deu origem à Mocoquinha.

Casinhas começaram a ser construídas ali e em todas as direções, formando pequenas ruelas, que depois foram importantes vias da Mocoquinha. Novas famílias foram chegando a procura de trabalho e ficavam encantadas com a beleza do lugar, e a amizade entre todos.

Carreiros e tropeiros eram pessoas importantíssimas, pois eram eles quem traziam o que não tínhamos aqui: sal, açúcar redondo, querosene para iluminar as casas e ruas, tecidos, rendas, fitas, sombrinhas e muitos enfeites para as dondocas da época. Traziam o podiam, para a alegria dos moradores de nossa pequenina cidade.

A vida dos carreiros em suas idas e vindas à Mococa e a Casa Branca em seus carros de boi com rodas cantando, que era uma beleza, eram todas pontilhadas de emoção e espera, demorando mais de dez dias, só na ida.

As viagens de tropeiros eram lentas e cansativas em cima dos lombos de burros, enfrentando poeira e sol forte, do meio dia. Carreiros e tropeiros eram o nosso contato com o mundo lá fora, pois traziam as novidades, e os costumes de outros lugares. Eram esperados pela população com entusiasmo e alegria.

Bem atrás da Igreja da Abadia era tudo descampado, mas havia um ranchinho coberto de sapé, onde carreiros e tropeiros que não eram de Paraíso, pernoitavam.

À noite, o cheiro gostoso de carne assada no braseiro, que comiam com farinha de mandioca ao som de viola que tocavam e cantando versos de amor à mulher amada, fazia deles pessoas queridas e admiradas.

Um verso original cantado por carreiros e tropeiros, e que Dona Abadia Chaves guardou com muito carinho na lembrança, aprendido com sua mãe que era esposa de tropeiro e tocador de viola:

"Quem viver triste no mundo
Vem juntar-se comigo
Vem passar como eu passo
Venha viver como eu vivo

As árvores de mim têm pena
Os campos de mim têm dó
As árvores por me ver triste
Os campos por me ver só.

Os carreiros e tropeiros muito cansados deitavam-se, então, em frente ao ranchinho e olhavam o céu coberto de estrelas. Viam a lua grande esparramando luar, e eles com saudades de sua Mococa tão distante, naquele momento extasiados com a beleza de nossas noites, diziam "aqui é tão belo, é a nossa Mocoquinha".

A Mocoquinha foi formada por uma mistura de raças, crenças e tradições. Lá foram viver baianos, moradores vindos do Norte de Minas, imigrantes portugueses, italianos, espanhóis, turcos, libaneses e pessoas vindas de outras regiões.

Todos foram recebidos com respeito e dignidade.

Portugueses tem grande devoção a Nossa Senhora da Abadia, transmitindo essa devoção por onde passam.

No final do século dezenove foi construída na Mocoquinha a primeira igrejinha dedicada à Nossa Senhora da Abadia. Ficava no largo, mas no alinhamento da rua, na época, rua Paraíso, hoje avenida Angelo Calafiori.

A bela Igreja, hoje Matriz de Nossa Senhora da Abadia, foi inaugurada em 1903.

As festas da Abadia envolviam a cidade toda. Começavam na madrugada de 6 de agosto com alvorada percorrendo as ruazinhas da Mocoquinha tocando músicas que faziam corações dos moradores se encherem de alegria e emoção.

A missa era às 06 horas da tarde, dentro da Igreja, linda e muito florida.

Duas barracas eram construídas: a do leilão e a da música.

Na barraca do leilão ficavam prendas a ser leiloadas. Cartuchos e cestas, cheias de doce. Era arte pura de beleza e criatividade.

Na outra barraca era onde ficava a Banda de Música. Muitas bandas embelezavam ainda mais as festas de agosto. Banda do Joaquim Souto, Banda Santa Cecília do Amílcar Carina, Banda do Aristides Leão, Banda do Artur Pires de Morais e a Banda 502, dentre outras.

Dia 15 de agosto a procissão percorria a Mocoquinha, enfeitada com bandeirinhas de papel de seda coloridas e aros de bambu.

Muitos anjos com camisolas de cetim e asas brancas. Toda menina daquela época na Mocoquinha sonhava em ser anjo no dia da festa de Nossa Senhora da Abadia.

A procissão terminava na porta da Igreja, e todos já começavam a pensar na festa do próximo ano.

As festas daquela época podem ser consideradas religiosas, artísticas e sociais.

Moradores da Mocoquinha gostavam de dançar. Havia bailinhos quase todos os sábados, nas casas das famílias de lá.

Moças gostavam de passear de braços dados, contando as últimas novidades.

A primeira rua que teve nome oficial foi a Lopes Trovão, que continua com esta nomenclatura até hoje. A segunda foi a rua da Mocoquinha, atualmente, Professor Alencar.

Moradores da Mocoquinha e têm a congada de lá dentro de seus corações.

As festas de Nossa Senhora da Abadia continuam no ritmo da vida atual.

São duas, as origens, do nome do bairro: saída para a cidade paulista Mococa, lá no alto. A outra, é a versão romântica: "Aqui é tão belo, aqui é a nossa Mocoquinha", diziam os carreteiros.

A Mocoquinha atualmente é outra cidade dentro de São Sebastião do Paraíso. Elegante com lojas luxuosas, cresceu em todos os sentidos, emocionalmente, religiosamente, financeiramente e culturalmente, fascinante.

Mocoquinha é uma parte gloriosa da história de São Sebastião do Paraíso.