ENTRETANTO

Entretanto

Por: Renato Zupo | Categoria: Justiça | 06-11-2019 18:02 | 10
Foto de Reprodução

A Justiça de Salomão
Falamos aqui sempre e um pouquinho do clã Bolsonaro, não porque existam sempre defeitos ou sempre qualidades a destacar, mas porque as mudanças de humores e de amores entre eles e seus correligionários afetam diretamente toda a nação. Acho que é mais ou menos por isso que a maioria da imprensa (séria) do país não deixa de abordar os tropeços, avanços e choques no embate político envolvendo o presidente da república e sua gente, aliados e inimigos. Deles, Eduardo Bolsonaro é de longe o maior problema. Tenho até pena dele. O pai o quis embaixador brasileiro em Nova York e a gritaria foi geral. Agora, se pretende que seja líder do PSL na Câmara dos Deputados, Presidente do Partido, e novamente Bolsonaro e o rebento mais barulhento voltam a enfrentar resistência interna e externa. A sempre aliada Joyce Hasselman exagerou na dose e perdeu a pose e a classe com Eduardo. Quem está certo? Bem, não é necessário que uma luta política possua certos e errados, ou só certos e só errados, ou só inocentes, ou só culpados. Estes rachas internos são todos absolutamente desnecessários e culminam em um desgaste precoce do presidente que só favorece o enfraquecimento de seus programas de governo e da sua imagem perante o povo brasileiro. Desde o incidente com Gustavo Bebbiano está assim, e está insuportável. O episódio específico de Eduardo com Joyce também me remete à justiça de Salomão: se há briga por cargo, aquele verdadeiramente amigo e colaborador deve dele abrir mão. Passou de hora dos filhos do presidente irem para a penumbra, de onde não deverão sair tão cedo. Podem ser boa gente, mas só atrapalham o governo. E o presidente deve rever seus conceitos sobre os verdadeiros amigos e aliados. Joyce Hasselmann, Alexandre Frota, esse pessoal abandonou o navio com uma cara de pau incrível. Nem se preocuparam em afetar alguma mágoa justa. É só luta por poder o que os incensa. Nada ideológico, nada republicano.

E o Chile, hein?
Eu já disse textualmente aqui que o “Chile ingressou no primeiro mundo para nunca mais sair”! Então, o que deu errado, o que está acontecendo com o Chile? Bom… Protestos e ações politicamente violentas não são eventos que existam somente em países pobres ou aculturados. Sem precisar forçar muito a memória, podemos falar dos estudantes franceses na primavera parisiense de 1968 que quebraram o pau com a polícia pelo singelo motivo de ligeiro corte de verbas para a educação. Podemos também nos lembrar da década de 1990, quando o escândalo de um preso negro morto por policiais deflagrou quebradeira, incêndio e onda de revolta social em Los Angeles e praticamente em toda a Califórnia, o estado mais rico dos Estados Unidos. Recentemente, o povo de Hong Kong, acostumado a ser inglês, se revoltou contra os novos colonizadores chineses e o pau também moeu por lá. Ou seja, gente rica e culta também parte pra ignorância. Todos nós perdemos as estribeiras, não importa nosso berço ou situação socioeconômica. Outra coisa é a prosperidade oca chilena. Ok, Santiago é uma cidade linda, europeizada, há por lá Valparaíso e Vinã del Mar, turísticas, mas nos arredores se vê muita favela, bairro pobre, rua sem calçamento, falta de saneamento básico. Ouso dizer também que nós todos latino-americanos não temos educação democrática para conviver com as liberdades que possuímos. Quebradeiras, mortes, saques, violência, por conta de aumento de tarifa de combustíveis é alguma coisa de inaceitável, coisa de gente bárbara, coisa de fundo do poço… E olhem que os chilenos são cultos, hein? O que por lá ocorreu foi como nossa greve dos caminhoneiros, só que exacerbada à décima potência. Absurdo.

O que a Argentina tem a ver conosco?
A Argentina foi o país mais rico da América Latina. Comandava tendências, era referência cultural e política, mandava no comércio continental. Até a década de 1950 era comum se dizer no Brasil que este ou aquele sujeito era “rico como um argentino”. De repente, algo aconteceu na República Argentina: o populismo de Juan Domingo Perón, que pegou uma economia próxima dos padrões europeus da época e a destruiu com programas populares, com endividamento interno e externo e projetos sociais realizados à custa de recursos que a Argentina já não tinha mais em caixa – porque havia gastado todas as suas divisas segurando artificialmente o câmbio, distribuindo regalias e sesmarias entre seus aliados, estatizando propriedades privadas. O peronismo destruiu a Argentina, que se tornou indigente e praticante de uma série de estratégias financeiras de cortes de zeros e calotes que a transformou em uma  republiqueta de bananas. Solo fértil para o retorno do peronismo com os Kirchner, primeiro Nestor e em seguida Cristina. Os escândalos de corrupção perseguiram o casal de presidentes que se sucedeu no poder por uma década e que permaneceu conduzindo a economia à bancarrota extrema. Cristina volta agora, perua, populista, peronista, de vice e a tiracolo do novo presidente Alberto Fernandez– ele que era estafeta do finado Nestor.  É o triste ocaso, é o triste fim de um país tão belo, de gente tão culta que não merecia um destino tão melancólico. E vai sobrar pra nós brasileiros. Exportamos e importamos muito da Argentina. Não vamos conseguir manter uma balança comercial estável com vizinhos estatizantes, populistas e sem crédito ou credibilidade.
RENATO ZUPO, Magistrado, Escritor