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Luiz Henrique: Amor e dedicação por um mundo mais justo

“Quero ser professor e exercer tão dignamente essa profissão tão fundamental para a nossa sociedade
Por: João Oliveira | Categoria: Entretenimento | 11-11-2019 15:20 | 998
Luiz é estudante de Direito e idealizador do Curso Dissertar, que completou quatro anos em Paraíso
Luiz é estudante de Direito e idealizador do Curso Dissertar, que completou quatro anos em Paraíso Foto de Arquivo Pessoal

O estudante de Direito na Universidade Estadual Paulista (UNESP) Luiz Henrique Garbellini Filho, é um jovem de 23 anos que tem muita sede por conhecimento e não mede esforços para sempre alcançar ótimos resultados no que se propõe fazer. Dedicado aos estudos, foi agraciado com uma bolsa de estudos para realizar uma etapa de sua pesquisa sobre “tráfico de mulheres e suas nuances no Direito Penal” na Facultad de Derecho de la Universidad de Sevilla. Luiz também é criador do Curso Dissertar, que prepara alunos para a produção de redação para vestibulares e que vem obtendo ótimos resultados. É com carinho que ele conta ao Jornal do Sudoeste sobre sua rotina árdua entre estudos e projetos, e fala um pouco sobre seus sonhos e anseios.

Jornal do Sudoeste – Quais recordações mais marcantes você tem da sua infância em Paraíso?
L.H.G.F.: Uma das principais lembranças que tenho quando era criança era dos amigos queridos que tinha na escola e das tardes que passávamos juntos. Durante boa parte da minha infância, estudei no atual Colégio Galileu (antigo Colégio Gente Miúda) e fiz amigos verdadeiros naquela instituição, os quais trago no coração com muito carinho. Junto a esses amigos, uma das atividades que mais fazíamos era ir ao Ouro Verde Tênis Clube. Lembro-me bem que era rotina todos os finais de semana irmos ao Clube passar a tarde e à noite juntos, indo embora somente quando encerravam as atividades. Também era um tempo em que tínhamos muito o hábito de frequentar as casas uns dos outros e ir a sorveterias, de modo que pouca tecnologia dos celulares e da internet da época - se compararmos com a atualidade - possibilitava que nos conectássemos pessoalmente e buscássemos estar em constante contato, estreitando os laços de carinho e de companheirismo.

J.S.: Você foi um bom aluno na escola?
L.H.G.F.: Eu sempre estive nas primeiras colocações da minha sala, pois, desde cedo, já sabia a importância do estudo como uma ferramenta de mudança e de ascensão social. Eu era um aluno muito participativo e criativo, vez que sempre buscava tirar dúvidas com os professores e expor minha opinião sobre os temas que eram ensinados. Fiz o ensino fundamental no Colégio Galileu e o ensino médio no Colégio Objetivo, sendo ambos essenciais para a minha formação. No Colégio Objetivo, com o foco na preparação para o vestibular, eu dedicava cerca de quatro horas diárias aos estudos individualmente quando estava no primeiro e segundo colegial; já no terceiro ano, a dedicação aos estudos chegava a sete horas por dia. Como resultado, uma vez fiquei em primeiro lugar nacional na área de Ciências Biológicas no simulado denominado “FUVES-TÃO” realizado pelo Objetivo e, por dois pontos, quase ganhei um carro como recompensa da Sede do Objetivo.

J.S.: O que você mais gostava de estudar?
L.H.G.F.: As disciplinas que mais me atraiam eram as do campo das Ciências Humanas, sobretudo História e Literatura, todavia a Biologia também ocupou um forte espaço de atenção para mim. Estudar História me encantava, pois eu ficava fascinado em como os processos históricos são responsáveis por mudar todas as dinâmicas sociais, culturais, políticas, econômicas etc. Eu tinha prazer em ver filmes que exploravam as temáticas de grandes eventos históricos, como as Guerras Mundiais e importantes revoluções, porque acreditava que isso tornava visível o conteúdo que eu aprendia em sala de aula. Ainda, os meus professores de História eram muito críticos e faziam os alunos pensar de forma a romper com o senso-comum e com a ignorância que paira, infelizmente, sobre a nossa sociedade. Dessa forma, acredito que um dos pontos principais – se não o principal – do ensino é o estudo da historiografia e de sua relação com as mudanças sociais para fazer com que sempre reflitamos sobre nosso passado e nosso presente, a fim de impedir que antigos erros se repitam.

J.S.: Por que decidiu estudar Direito? O que o motivou?
L.H.G.F.: O curso de Direito não foi a minha primeira opção por quase todo o meu ensino médio. Eu acreditava que gostaria de me tornar médico pediatra ou cardiologista – e para isso estudei arduamente. Ao final do terceiro ano, fui descobrindo verdadeiramente os meus talentos e as minhas capacidades, num processo de autoconhecimento sobre quem eu era e sobre o que eu queria fazer na minha vida, abrindo a possibilidade de pensar no curso de Direito, o que foi uma recomendação de alguns professores, inclusive. Na época, lembro-me que queria um curso que me possibilitasse exercer atividade de mudança social, combinado com discussões sobre problemáticas de nossa sociedade, daí o Direito surgiu como ótima opção. Mesmo assim, ao final do terceiro ano do ensino médio, prestei vestibular para Medicina e consegui a sonhada aprovação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e fui fazer a matrícula, mas as dificuldades financeiras apareceram e impediram que eu morasse no Rio e conseguisse estudar, afinal, o custo de vida é altíssimo e eu teria que arcar sozinho com todos os gastos. Então, fiz um ano de cursinho pré-vestibular e, pensando na possibilidade de outros cursos, prestei Direito e passei na USP e na UNESP. Acabei escolhendo a UNESP, porque, no primeiro dia de aula, participei de um processo seletivo a uma bolsa de estudos por 12 meses para coordenar um grupo de pesquisa sobre Direitos Humanos e a conquistei.

J.S.: Você esteve uma temporada fora estudando, na Espanha. O que o levou até lá e como foi essa fase?
L.H.G.F.:  Em abril e maio deste ano, realizei uma etapa de minha pesquisa na Facultad de Derecho de la Universidad de Sevilla, uma instituição com mais de 500 anos de tradição. A oportunidade surgiu quando meu orientador na UNESP, o Prof. Dr. Paulo César Corrêa Borges, sugeriu a minha ida à Espanha para pesquisar com o Prof. Dr. David Sánchez Rubio, que o orientou em seu pós-doutorado. Como eu estava pesquisando o tema de tráfico de mulheres e suas nuances no Direito Penal com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), realizamos um bom projeto de pesquisa a ser submetido a uma bolsa acessória da FAPESP. Foram meses de elaboração do projeto, detalhamento das datas da viagem e adaptações a sugestões que a FAPESP fez até a aprovação. Tratou-se de uma oportunidade única e de extrema relevância para mim e para minha faculdade, pois, em todos os 36 anos de curso de Direito da UNESP, eu fui o 2º aluno a conseguir essa modalidade de bolsa, pois é mais comum no mestrado e no doutorado. Durante a estância de pesquisa na Espanha, as minhas atividades acadêmicas se resumiam à leitura na biblioteca, produção de textos e reuniões com meu orientador, o que me ocupava pelas manhãs e tardes. Alguns dias antes de regressar, meu orientador espanhol me convidou para ministrar uma aula de 60 minutos para seus alunos do 1º ano da Faculdade de Direito. Como dominava bem a Língua Espanhola e já estava seguro da minha pesquisa, aceitei prontamente. Assim, acredito que a melhor experiência acadêmica nesse período foi ter lecionado aos alunos da Universidade de Sevilha sobre a minha pesquisa e ter conseguido conectar com eles, pois diversos expuseram suas opiniões e fizeram perguntas.

J.S.: O que você mais gostou de lá, e como foi seu retorno para o Brasil?
L.H.G.F.:  A experiência foi indescritível. Costumo falar que a minha verdadeira casa é Sevilha e que meu coração está lá e sempre vai estar, o que torna muito difícil escolher o que mais me agradou. Uma das principais partes que me fizeram apaixonar por aquele lugar é a biblioteca da Universidad de Sevilla, que possui um acervo gigantesco de obras - muitas raras e únicas na Europa. Lá encontrei muitas obras com discussões e resultados de pesquisa que não encontrava no Brasil, o que mostra que nós temos muito ainda a avançar. Sobre a tradicionalidade da instituição, lembro-me que, nos meus primeiros dias, encontrei um exemplar de um livro que utilizo em minha pesquisa, e a edição que estava em Sevilha foi publicada em 1826, uma das primeiras. Foi de emocionar. Infelizmente, os dois meses de estudos se tornaram muito curtos para estudar tudo o que eu queria, o que me fez comprar diversos livros para lê-los no Brasil - uma das malas veio cheia de obras de relevância internacional que não  são encontradas no Brasil. Ainda, é de se espantar a qualidade e relevância de várias pesquisas que são feitas pelos professores da instituição sevilhana e que estão localizadas no repositório da Universidade. É incrível ver como o Estado espanhol dedica seriamente seus esforços para o financiamento de educação e de pesquisas de qualidade, tornando um privilégio estudar naquela instituição. Há de se mencionar também que a receptividade dos espanhóis foi incrível e fiz vários amigos, os quais verei em breve, em janeiro. Ainda, a cultura sevilhana - e aqui quero me referir à língua, hábitos, alimentação etc. - me fez apaixonar incondicionalmente por aquele lugar. Em relação ao retorno, foi tudo tranquilo e me possibilitou rever os amigos brasileiros e voltar à rotina do trabalho e dos estudos na UNESP.

J.S.: O que foi mais difícil durante o tempo que esteve fora?
L.H.G.F.: Na realidade, não houve nenhuma dificuldade ou contratempo. A única coisa difícil foi ter que voltar, quando a experiência de estudos estava sendo tão incrível.

J.S.: Você começou um curso de redação para o Enem. Como nasceu essa ideia?
L.H.G.F.: O Curso Dissertar completa quatro anos em 2019, um trabalho do qual me orgulho muito. Em 2016, uma querida professora me sugeriu que eu desse aulas de Redação, porque, de acordo com ela, eu “levava jeito”. De início, a ideia me pareceu incongruente e não acatei a essa dica, mas, passando alguns dias,  refleti muito sobre as possibilidades e dificuldades que esse trabalho me traria. Afinal, seria um grande desafio cativar a atenção e conquistar a confiança das pessoas quando eu estava no primeiro ano da faculdade, isto é, sendo tão jovem. Após um tempo, retornei o assunto, e ela me indicou um aluno que gostaria de fazer as aulas. A partir daí, foram muitos meses de dedicação, capacitando e projetando todos os detalhes do meu trabalho - e que ainda não se encerram, porque a cada dia aparece uma novidade ou desenvolvo uma ideia que acho interessante levar para o Curso. Aos poucos, com muito esforço e dedicação, a quantidade de alunos foi aumentando e o Curso foi conquistando notas incríveis em todos os vestibulares, concentrado todas as maiores notas de São Sebastião do Paraíso e região. Desde então, o crescimento do curso tem sido muito gratificante, pois, no ano de 2018, eu tinha cerca de 20 alunos e, no ano de 2019, o número de matriculados chegou a 80.

J.S.: Tem tido um bom feedback?
L.H.G.F.: No ano passado, 90% dos nossos alunos conquistaram nota maior do que 900 pontos no ENEM. Dos cerca de 20 alunos que eu tinha em 2018, seis conquistaram nota 980, isto é, quando um corretor atribui nota 1000 à redação e outro atribui nota 960, então, há uma média das notas. Vale ressaltar que, segundo o INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), órgão que produz e aplica o ENEM, 2% dos candidatos que realizam o Exame conquistam nota maior do que 900 pontos, o que mostra uma triste faceta do nosso sistema educacional (público e privado): a incapacidade generalizada de ensinar como se produz um bom texto dissertativo-argumenta-tivo. Isso nenhum curso ou professor da região consegue polarizar. O feedback de reconhecimento da qualidade do Curso Dissertar tem sido tão gratificante que não atinge somente os alunos, mas também alguns professores de Redação do município que se inspiram pelo trabalho realizado no Dissertar. Por fim, a grande expectativa para o ENEM 2019 é a nota mil, já que trabalhamos o tema que caiu nesta última edição “Democratização do acesso ao cinema”, através da proposta de redação cujo tema foi “Os desafios da democratização da cultura no Brasil”. Posso afirmar com certeza que teremos mais de dez notas 980.

J.S.: - Como funciona a metodologia das aulas? Qual a fórmula para esse sucesso?
L.H.G.F.: A metodologia do Curso Dissertar possui grande diferencial em relação aos outros Cursos de Redação já estabelecidos no mercado educacional, pois não trabalha com “decoreba” de redações prontas e com uma educação mecanizada que busca uma produção em massa de textos feitos pelos professores e reproduzidos de forma acrítica pelos alunos. Eu gosto de trabalhar com turmas pequenas, que contenham cerca de 10 alunos, para poder conhecer os problemas de cada aluno e, muitas vezes, preparar dicas que possam ajudá-lo no processo de produção textual. Além disso, um dos principais segredos para o sucesso dos alunos nos vestibulares é a interdisciplinaridade e o estudo de diversas ciências que possibilitem ao aluno compreender as contradições e problemáticas da nossa sociedade e do nosso Poder Público. Nesse sentido, torna-se imprescindível que o professor mobilize diversas áreas do conhecimento para possibilitar essa ampliação de visão dos discentes - uso, como uma metáfora, o ato de descortinar uma sala cheia de móveis quebrados e, assim, é possível identificar os problemas e as suas soluções. Diante disso, eu trabalho arduamente com os alunos as áreas da Sociologia, do Direito e das Ciências Econômicas, com intuito de criar um corpo argumentativo sólido para a redação e evitar visões ultrapassadas ou incoerências sociais. Ao todo, vemos detalhadamente cerca de oito pensadores, com módulos específicos para cada um deles, fora outras áreas do conhecimento auxiliares. Para além da instrumentalização das áreas do conhecimento, o Curso é muito exigente quanto a uma boa estrutura textual, com seus inúmeros detalhes exigidos pelas bancas dos vestibulares, pois temos diversos módulos que estudam detalhadamente cada microestrutura do texto. Isto é, não basta que o Professor de Redação saiba transmitir bem a estrutura do texto dissertativo-argumentativo; é necessário também que o Professor estude muito diversos pensadores e saiba selecionar e sintetizar as partes principais de suas pesquisas para passar aos alunos. Então, com os instrumentos necessários dados aos alunos, não é necessário promover uma educação mecanizada que obriga o aluno a decorar redações prontas para se tornar um robô que copia e cola. Chamo atenção a esse ponto, pois me preocupa muito essa realidade educacional que, apesar de atingir boas notas em virtude dos textos prontos, não desenvolve a capacidade crítica do aluno, muitos menos a habilidade de uma escrita fluida e coerente.

J.S.: O que pretende a curto, médio ou longo prazo?
L.H.G.F.: Há muitos planos e sonhos que, com certeza, serão efetivados com muito esforço e dedicação. A docência e a pesquisa são minhas paixões, sendo por meio delas que me realizo como ser humano, então nenhum plano pode ficar fora desses dois aspectos. Sendo assim, a curto prazo, o intuito é expandir a quantidade de alunos em São Sebastião do Paraíso e levar o curso para Ribeirão Preto, com a mesma metodologia e maneira de trabalhar, bem como me graduar em Direito no ano de 2020. A médio prazo e longo prazo, o intuito é realizar meu mestrado e doutorado em Direito Penal, tornando-me professor de Universidade, sem, contudo, deixar de lado o Curso Dissertar, que é um projeto que quero levar para o restante de minha vida.

J.S.: Você promoveu um aulão um dia antes do ENEM. Quais foram os resultados?
L.H.G.F.: O II Aulão Preparatório para o ENEM foi um evento regional realizado pelo Curso Dissertar, que contou com 120 alunos, a maioria de matriculados no Curso. e outros que se inscreveram a convite de meus alunos. Fiz uma revisão dos principais pontos estratégicos de estudo para a produção de um bom texto dissertativo para o ENEM, com foco na estrutura textual, nos repertórios socioculturais e na discussão de possíveis tema. Houve também coffee break e uma oficina de relaxamento e controle de ansiedade, durando cerca de quatro horas, com diversas atividades para que os alunos pudessem absorver o conteúdo de forma tranquila e poderem aplicá-lo no dia da prova. Os resultados foram incríveis, pois no dia do evento consegui conectar muito com os discentes, pois eles participaram com dúvidas e com sugestões de discussões. Por fim, após o evento, diversos estudantes que não eram matriculados no Curso ficaram cativados e vieram me parabenizar pela aula e pela grande ajuda que o aulão deu para a produção textual no dia da prova do ENEM.

J.S.: Qual o balanço que você faz dessa caminhada?
L.H.G.F.: Os resultados dos meus trabalhos e dos meus estudos mostram que todos os sacrifícios, esforços e lutas valem a pena. Não é fácil se dedicar a uma graduação em Direito, a uma pesquisa tão densa e a diversos alunos que buscam aprender muito. É necessário equilíbrio e muitas horas de dedicação - o que deixa o meu descanso, muitas vezes, em segundo plano. A jornada é árdua, mas é extremamente gratificante quando chegam os resultados de tantos meses de responsabilidade e de dedicação. Assim, o reconhecimento do meu trabalho pelos meus alunos e por seus familiares é só uma das incríveis consequências que têm sido apresentadas a mim. Por fim, não posso deixar de agradecer, sobretudo, aos meus alunos e aos seus familiares que tornam possível o meu sonho: ser professor e exercer tão dignamente essa profissão tão fundamental para a nossa sociedade.