ENTRETANTO

Entretanto

Por: Renato Zupo | Categoria: Justiça | 11-12-2019 03:52 | 143
Foto de Reprodução

O Massacre do Pancadão
Um tumulto de gente usando drogas, se esbarrando e acotovelando e resistindo à aproximação da polícia em um local sem infraestrutura alguma para receber um evento de funk, como no caso de Paraisópolis, não tinha como acabar de outra maneira. É saber de que lado viria a tragédia: um desabamento de estrutura de palco, incêndio, atropelamento coletivo, troca de tiros entre marginais ou ação policial. Os jovens da periferia encaram a polícia como o inimigo a ser combatido e difamado, não porque sofram com violência e desmandos da polícia, mas porque os policiais são jovens pobres que venceram na vida e isso aguça a inveja dos perdedores que ficaram pelo caminho. Policiais e bandidos muitas vezes tem a mesma origem humilde, às vezes moram próximos, quando não são parentes. Só que os policiais são valorosos jovens que superaram seus problemas financeiros e trabalharam duro sem tempo para se lamentar, disseram não às drogas logo no início de sua formação como cidadãos, tiveram força para vencer e venceram. Bandidos tem o mesmo problema, mas não tem a mesma fibra, a mesma formação familiar e religiosa, a força e o intelecto que a natureza dá e a academia aprimora. Bandido passa a infância sendo esquecido, a adolescência aprendendo a ser homem com o traficante da esquina, a vida adulta se escondendo. E o tempo todo se lamentando, botando a culpa no Estado, na própria polícia, na justiça e no governo, pelas suas agruras. O bandido é um psicopata que nunca apontou para o próprio peito e denunciou seus próprios erros, nunca exerceu autocrítica, porque não tem autocrítica. Este é um traço claríssimo das pessoas que vão ficando pelo caminho, os derrotados, enciumados de seus colegas de infância que venceram e que hoje são policiais. Paraisópolis foi uma guerra urbana entre dois inimigos que nada possuem de indefesos. As periferias pobres das grandes cidades brasileiras são componentes do tráfico ou coniventes com o tráfico. São parceiras do crime organizado ou suas vítimas, e o estado não as socorre. Até por medo, o favelado se opõe à polícia. Prefere sofrer a opressão estatal que morrer nas mãos da justiça informal das facções criminosas.  Se o Estado não aplica pena de morte, o PCC a impõe. E a polícia, que não sobe o morro para proteger o pobre, sobe para prendê-lo. E quando o faz, a um só tempo justifica e retribui o ódio visceral que lhe é destilado.

O Nióbio de Minas
O Nióbio já faz muito por Minas Gerais. Não há a menor necessidade de sobretaxá-lo. A medida somente contribuirá para criar demandas e polêmicas e não vai melhorar sensivelmente a arrecadação e o pagamento de dívidas por parte do governo mineiro. Se é para mexer com quem está quieto, que se criem incentivos fiscais para que indústrias secundárias e terciárias que produzem a partir do nióbio venham para Minas, para que possamos abandonar de vez nosso passado de economia meramente extrativista. Assim, ao invés de simplesmente ceder o nióbio usado na fabricação de carros, aviões e celulares, poderíamos abrigar indústrias que produzam estas tecnologias – aí sim gerando mais arrecadação. Na verdade, usar o Nióbio para sair do buraco financeiro é mexer com um setor que nunca deu trabalho, nunca deu problema e sempre deu certo. E não se mexe em time que está ganhando. Querem ver Minas sair do atoleiro? Vendam-se a Cemig, a Copasa e a Codemig. Este deve ser o foco. O nosso bom governador deve evitar dispersar suas prioridades e atentar para estes gigantes de pés de barro que cresceram demais para caber nas contas do Estado.

Trump é confiável?
Donald Trump enfatizou em seu discurso de posse: “America´s first”. Estados Unidos em primeiro lugar, pra ele. Claro, não está errado, é o Presidente americano, não iria se preocupar primeiro com a Etiópia ou com o Mico Leão Dourado, não é mesmo? Bolsonaro também deve se preocupar primeiro com o Brasil, Putin primeiro com a Rússia, e por aí vai… Trump pode ter boas relações com Jair Bolsonaro, mas não vai deixar de cumprir seus deveres inerentes ao cargo – e já foi duro conosco outras vezes: nos preteriu no OCDE, o clube dos países ricos, e sobretaxou nosso Etanol antes de fazê-lo também com o alumínio e o aço, como agora. Ele está certíssimo. Pra ele, America´s first. As pessoas têm que entender que acabou o tempo em que governantes emprestavam dinheiro por simpatia a países amigos por proximidade ideológica, que perdiam dinheiro público em aventuras para apaniguados e colegas de guerrilha. O interesse público republicano deve falar mais alto sempre. Isso é patriotismo. Não é fazer estardalhaço, carreata, distribuir pão com mortadela para os pobres. É fazer o trivial. Só fazendo o trivial, sem bandidos no poder, sem réus no governo do Estado ou na presidência da república, sem qualquer milagre ou mudança radical, já estamos melhorando. Um pouquinho ainda, é verdade, mas já está melhor do que era. É um começo.

RENATO ZUPO, Magistrado, Escritor.