VINHO

Envelhecimento de vinho com madeira utiliza uva Syrah produzida em Paraíso

Por: Roberto Nogueira | Categoria: Agricultura | 12-12-2019 17:47 | 1621
Pesquisa avalia uso de madeiras brasileiras para envelhecimento de vinho, inclusive com uva produzida em Paraíso
Pesquisa avalia uso de madeiras brasileiras para envelhecimento de vinho, inclusive com uva produzida em Paraíso Foto de Divulgação

A Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) desenvolve um estudo que utiliza madeiras brasileiras para envelhecer o vinho produzido na região Sul e Sudoeste de Minas Gerais. Para este trabalho a pesquisadora Renata Vieira utiliza o vinho Syrah, da Epamig, feito com uvas colhidas na Fazenda Experimental, em São Sebastião do Paraíso. O objetivo é passar características agradáveis das madeiras para o vinho e apresentar soluções alternativas ao uso do Carvalho, madeira que não cresce no Brasil e, por esse motivo, precisa ser importada.

Conforme a pesquisadora da Epamig Sul, Renata Vieira que é a responsável por conduzir os experimentos, a ideia surgiu em 2018. Ela conta que o projeto teve início após ela receber um convite para falar sobre fermentação malolática em um encontro sobre cachaça. Na ocasião, Renata foi questionada por um tanoeiro sobre as possibilidades de utilizar amostras de madeiras brasileiras para envelhecer vinhos.

O convite foi irrecusável, uma vez que a empresa onde ela trabalha dispõe de laboratórios para análises e o empresário possui madeiras necessárias para os testes. "A Epamig já é pioneira na produção de vinhos finos no Sul de Minas por meio da tecnologia da dupla poda. Agora, poderemos envelhecer vinhos brasileiros em madeiras originais do nosso país", comenta. Renata acredita que isso será mais um atrativo para o consumidor brasileiro, além de um diferencial para o consumidor externo, avalia.

Para este trabalho a pesquisadora utiliza o vinho Syrah, da Epamig feito com uvas colhidas em São Sebastião do Paraíso. As análises são feitas com três madeiras brasileiras diferentes sendo o Ipê-amarelo, Castanha-do-Pará e Jequitibá. Para atestar diferenças de sabor, Renata também faz análises com amostras tostadas destas três espécies. Comparações são feitas com o mesmo vinho envelhecido em Carvalho, madeira mais utilizada no mundo em processos como esse.

Em um primeiro momento, o envelhecimento é feito nas próprias garrafas de vinho. Cada recipiente recebe uma pequena quantidade de chip de madeira, cerca de três gramas, que permanece em contato com a bebida. Como resultado inicial, Renata comprovou que o uso de madeiras brasileiras não deprecia características importantes do vinho, como a acidez. Para a pesquisadora, isso é bastante positivo, pois mostra que madeiras nacionais têm potencial de mercado.

Além disso, Renata conduziu análises sensoriais com 17 provadores. O grupo, que não conseguiu diferenciar vinhos envelhecidos em madeiras tostadas e não tostadas, preferiu amostras de bebidas em contato com madeira de Castanha-do-Pará e Jequitibá em detrimento de bebidas envelhecidas em Ipê-amarelo.

O próximo passo da pesquisa será construir barricas totalmente feitas de madeiras de Castanha-do-Pará e Jequitibá para envelhecer o vinho. Segundo Renata, as barricas serão pequenas, com cerca de 50 litros cada uma, mas permitirão análises mais complexas. "O sabor do vinho envelhecido em barrica é diferente do sabor da bebida envelhecida em garrafas, apenas em contato com os chips, pois a barrica permite micro-oxigenação. Por isso, apenas com o uso das barricas poderemos ter certeza que o vinho ficou bom e poderá ser comercializado", conclui Renata que espera ter boas respostas muito em breve.

A equipe do Núcleo Tecnológico Uva e Vinho da Epamig trabalha de forma integrada e multidisciplinar. São três pesquisadores, com especializações nas áreas de fitotecnia (manejo), Murillo Regina; fisiologia vegetal (resposta da planta), Claudia Souza; e ciência dos alimentos (composição), Renata Mota). Também compõe a equipe a enóloga Isabela Peregrino, responsável por avaliar o ponto de colheita e vinificação.

São Sebastião do Paraíso está entre os municípios de menor altitude onde há o cultivo das uvas Syrah utilizadas para a produção de vinhos tintos. O mesmo ocorre em cidades como Três Corações, Araxá, Três Pontas, Santana dos Montes e Santo An-tônio do Amparo onde também são cultivadas uvas Sauvignon Balnc, para vinhos brancos. Textura e composição química do solo, além das condições climáticas, influenciam na capacidade de absorção de água e nutrientes, formação de fotoassimilados, temperatura das bagas, com consequências diretas na formação do dossel vegetal e composição dos frutos. Por isso, os vinhos elaborados em diferentes regiões produtoras apresentam características típicas do local de origem das uvas, mesmo que provenientes da mesma cultivar e submetidas ao mesmo manejo.

Desde de 2005 a Epamig vem realizando um trabalho neste sentido e intensificando as pesquisas para o incremento da produção de uvas de qualidade superior. Criado pelo Governo de Minas, o objetivo do Núcleo Tecnológico Uva e Vinho da instituição é se transformar em um centro de referência no desenvolvimento tecnológico e capacitação de mão-de-obra especializada para atender a demanda da vitivinicultura, tanto em Minas Gerais como em outros estados do Sudeste com aptidão para a fabricação de vinhos finos.

Atualmente a pesquisa está centrada nesta questão da composição das bagas e do vinho da uva Syrah elaborado sob manejo da dupla poda em diferentes regiões do sudeste brasileiro. O levantamento dos compostos de maior expressão em cada uma das regiões vai orientar a futura indicação de procedência dos Vinhos de Inverno do Sudeste Brasileiro. Técnica de colheita inovadora da Epamig é um dos aspectos que favorecem a atividade; vinícolas já esperam competir com chilenos e argentinos.

Segundo os pesquisadores, São Sebastião do Paraíso está entre os municípios mineiros que já apresentam resultados promissores na exploração da vitivini-cultura. A avaliação após vários anos de estudos e pesquisas é de que é possível explorar uma ampla gama de potencialidades enológicas dentro de Minas Gerais, incluindo, ainda a produção de uvas próprias para vinhos de mesa, vinhos brancos e espumantes.

(Da Redação, com informações da Agência Minas)