ELY VIEITEZ LISBOA

Lições de vida

Por: Ely VIeitez Lisboa | Categoria: Cultura | 11-01-2020 10:57 | 405
Foto de Reprodução

Assisti recentemente a um filme despretensioso, chamado A Professora do Jardim de Infância. Com Maggie Gylenhaal, tendo no elenco o excelente Gaal Garcia Bernal. É a história de uma professora que descobre entre seus aluninhos, um poeta de seis anos. Ela é encantada por poesia, tenta escrever poemas e quando faz a descoberta do pequeno gênio, fica fascinada.

Mãe e professora comum, seu encantamento  cresce ao ler os poemas do pequeno aluno e dedica-se a cuidar de sua grande descoberta. Tenta falar com um tio do menino, que é escritor, mas ele diz que nada pode fazer. Com o pai é pior. Ele declara que não quer o menino escrevendo poemas, porque pode acabar como o tio, com um emprego de segunda classe e um salário medíocre. Quer que seu filho cresça como um homem prático, que ganhe muito dinheiro.

O filme fica mais interessante com a obsessão crescente da professora, que acaba por cometer loucuras para o desenvolvimento do jovem gênio.  Não sei por que a reação do pai, no filme, fez-me lembrar de um episódio do tempo que eu lecionava. Tinha dois alunos adolescentes, de dezesseis, dezessete anos, que eram muito diferentes: um era aluno medíocre, briguento, gostava só de esportes e mexia  muito com as meninas. O outro, aluno exemplar, educado  como um príncipe, lia muito e tocava órgão na igreja. Certa vez o pai me procurou dizendo que estava muito preocupado com um de seus filhos. Consolei-o, disse que ele iria amadurecer, acabaria ficando estudioso e ajuizado. O pai, surpreso, disse que eu estava equivocada. Sua preocupação era com o outro, que só estudava, tocava música  e não sabia viver.

Tal acontecimento fez-me lembrar da máxima de Guimarães Rosa: Professor não é quem ensina, mas quem, de repente, aprende. É preciso cuidado com a interpretação do mestre            Guimarães Rosa. Ele se refere sabiamente a ensinar matérias e aprender coisas da vida. Durante os cinquenta e quatro anos que lecionei, ensinando gramática, redação e literatura, o que mais me ficou na memória, foram episódios, experiências de vida, com os alunos, verdadeiras surpresas vivas.

Às vezes havia episódios bizarros, mas  enriquecedores. Eu sempre tive facilidade de me sair bem nos impasses, usando muita franqueza, como no dia em que a aluninha de quinta série perguntou-me, muito séria: Professora, que é orgasmo? Armei-me de coragem e expliquei com franqueza, diante dos olhos muito atentos  e surpresos.

Hoje não acontecem estas coisas, pois os alunos nascem com o celular na mão e qualquer dúvida é só consultar o aparelho mágico. Tempos modernos.

(*)Ely Vieitez Lisboa é escritora.
E-mail: elyvieitez@uol.com.br