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Paula Nogueira: Enfrentando as dificuldades da vida com esperança e bom humor

"Qual é o sabor da vida sem os problemas?"
Por: João Oliveira | Categoria: Entretenimento | 21-01-2020 18:08 | 545
“Qual é o sabor da vida sem os problemas?”
“Qual é o sabor da vida sem os problemas?” Foto de ARQUIVO PESSOAL

A paraisense Paula Andreia Aparecida Nogueira já enfrentou muitas dificuldades na vida, mas nunca deixou de persistir na esperança de que dias melhores pudessem vir. Sempre bem-humorada e animada, quem a conhece tem uma vaga noção do quanto ela é guerreira e determinada. Paula já fez de tudo um pouco na vida e hoje, aos 50 anos, voltou a estudar e espera colher bons frutos dessa nova etapa. Filha de Paulo Iria Nogueira e Terezinha de Paula Nogueira, mãe do Paulo Augusto, da Lana e do Hector Murillo, ela recebe a reportagem do Jornal do Sudoeste em sua casa e abre seu coração, contanto um pouco da sua vida e dos momentos difíceis que superou.

Jornal do Sudoeste: você tem fortes laços com a Guardinha, é o berço da sua família?
P.A.A.N.: Sim, minha família é toda da Guardinha, os Paula – sou neta do falecido Nenê de Paula – e da família Nogueira, meu avô paterno, já falecido, se chama Calixto Iria Nogueira – ele tinha uma casa onde hoje funciona a Ampara. Eu nasci e fui criada em Paraíso, mas minhas raízes são todas da Guardinha.

Jornal do Sudoeste: como foi sua infância?
P.A.A.N.: Quando eu era pequena, recordo-me que meu avô tinha uma fazenda, hoje a Fazenda do Giubilei, e meus pais moravam nesta propriedade, inclusive meu pai trabalhava para esse meu avô. Eu era muito apegada a minha avó, e nesse meio tempo ela se mudou para Paraíso. Como eu precisava estudar, e meus pais moravam na roça, fui viver com essa avó. Estudei oito anos no Colégio das Irmãs. Minha infância, até os 14 anos, vivi em Paraíso, e aos 15 fui morar em Ribeirão Preto, para estudar no COC. Não soube aproveitar essa oportunidade, porque não tive uma referência que pudesse me orientar e me dizer sobre a importância desses estudos, e naquela época eu pensava que tudo era divertimento.

Jornal do Sudoeste: o que é natural da idade, não?
P.A.A.N.: Sim, então estudei no COC, entrei no primeiro colegial, mas larguei no final do ano, porém no ano seguinte decidi levar a sério e entrei no Barão de Mauá, não dei conta e decidi voltar para Paraíso. Pouco tempo depois, resolvi ir para Belo Horizonte para também estudar e morei dois anos, mas não deu certo e retornei para Paraíso e fui embora para a roça.

Jornal do Sudoeste: como foi essa fase?
P.A.A.N.: Eu ficava muito agitada. Fazia todo o serviço da casa para a minha mãe, cuidava das vacas, ajudava na roça, mas não estava satisfeita. Nessa época arrumei um namorado, um relacionamento que durou dois anos - cheguei a ficar noiva. Recordo-me que meu pai conversou comigo que havia uma pessoa vendendo uma máquina de fazer blocos de concreto, e se eu não queria que ele comprasse a máquina para eu fazer blocos para vender. Então, comecei a fazer blocos e tenho certeza que muitas casas na Guardinha foram construídas com os blocos que fiz. Eu amaçava o concreto a mão, colocava na forma e trabalhava o dia inteiro fazendo blocos. Depois de um tempo, meus pais venderam o sítio e fomos morar em Guardinha.

Jornal do Sudoeste: e o que você resolveu fazer durante este período?
P.A.A.N.: Em Guardinha não tinha nada, lembro que comecei a fazer massas para vender como rondelli e canelone, e vinha a Paraíso comercializar essas massas. Foi um período em que também arrumei outro namorado, foram quatro anos de relacionamento, que também não virou nada. Durante o tempo que vivi em Guardinha, montei uma lanchonete na casa da minha mãe – a casa dela ficava em uma esquina e tinha um cômodo que costumava ser um açougue, então reformei e montei esse pequeno negócio. Na época, esse ex-namorado, que era cantor, se apresentava lá e reunia muita gente.

Jornal do Sudoeste: houve uma reviravolta nessa época, como foi isso?
P.A.A.N.: Sim, minha mãe resolveu voltar a estudar e fazia supletivo. É aquele tipo de mãe que leva as fotos das filhas na bolsa e mostra para todo mundo, e mostrou uma foto minha para o professor de matemática dela, que quis me conhecer. Até então eu estava namorando, mas não vi problema em fazer uma nova amizade. Pouco tempo depois terminei meu relacionamento, que não estava dando certo, e comecei a namorar este professor. Nós nos casamos e tivemos três filhos, o Paulo Augusto, que hoje está com 20 anos, a Lana, com 18 e o Héctor Murilo, que tem 13. Fomos casados por 18 anos, mas decidimos terminar o relacionamento, ele seguiu a vida dele e eu a minha.

Jornal do Sudoeste: como você enfrentou essa separação?
P.A.A.N.: Na época eu estava muito esgotada e enfrentei uma depressão muito grande. Na época, trabalhava muito e já fazia tratamento com um psiquiatra, tomava remédios, enfim, querendo ou não qualquer separação é muito difícil, por mais que precisasse acontecer. Fiquei muito pior, mas decidi dar a volta por cima e que iria mudar a minha vida, do mesmo jeito que a depressão chegou ela iria embora. Nesta época eu parei com os remédio (o que eu não recomendo sob hipótese alguma, porque é muito perigoso), e decidi sair dessa depressão. Claro que o médico se opôs, mas eu estava determinada a me recuperar sem os remédios. Até hoje eu o encontro e ele quer saber como eu estou, e claro, estou ótima (risos).

Jornal do Sudoeste: foi um momento de grande dificuldade?
P.A.A.N.:  Sim, eu estava agora sozinha, com dois filhos para criar, porque minha filha preferiu morar com o pai e, apesar disto ter me ferido bastante, eu compreendi os motivos dela. Estava desempregada, com mais de 40 anos, e começar uma vida novamente, uma carreira profissional, é realmente muito difícil. E viver só da pensão era complicado. Teve semana de eu e me meus filhos comíamos apenas arroz e ovo a semana inteira porque não tinha dinheiro para comprar um pedaço de carne. Foi muito difícil, acabei me endividando e não conseguia arrumar emprego. Até que minha vizinha, que é professora e na época trabalhava no Alice Naves, e sabia da minha situação, me contou que a escola precisava de alguém para transportar um caminhão de terra que a prefeitura tinha despejado na porta para ser colocado nos canteiros da escola. Fui na escola, e realizei esse trabalho: carreguei um caminhão de terra deixado na porta da escola, na carriola, e coloquei onde a diretora queria, na época para ganhar R$ 60.

Jornal do Sudoeste: as coisas começaram a melhorar a partir daí?
P.A.A.N.: Tinha dias que eu pensava que não daria conta, foi um período que eu precisava escolher entre comprar comida ou pagar a luz, cheguei a acumular cinco contas e veio um rapaz da Cemig com a intenção de cortar minha luz. Inicialmente, ele pediu para entrar para dar uma olhada e depois me informou que iria cortar, eu não deixei, coloquei ele para fora e disse que se ele quiser cortar a energia, teria que cortar na rua. Depois que ele foi embora, minha mãe apareceu, achou a situação entranha e me perguntou o que estava acontecendo, eu contei e ela pagou essas contas para me ajudar.  E foram dois anos assim, eu me sentindo completamente perdida, sem rumo. Tentei voltar com as massas que eu costumava vender, mas não deu certo. Mas precisava tomar alguma atitude e uma vizinha minha me contou sobre as inscrições para trabalhar na Rede Estadual de Ensino. Fiz minha inscrição, comecei a ir nas reuniões e consegui trabalho. Finalmente coloquei minhas contas em dia e segui minha vida. Muita gente achou que eu não daria conta, mas dei e dou conta de muito mais, e vou melhorar.

Jornal do Sudoeste: Isto não a desanimou?
P.A.A.N.: Não. Eu sinto que sou uma grande vencedora, e faço parte de uma grande maioria de mulheres que são o “homem da casa”. Hoje em dia muitas mulheres são assim, e além de trabalhar para sustentar a casa, têm que cuidar da casa, dos filhos e continuar firme nesta luta.

Jornal do Sudoeste: de onde você tira essa força para não desanimar?
P.A.A.N.: A primeira coisa é ter muita fé, independentemente da religião, ter fé e acreditar que as coisas vão melhorar. Também é preciso ter muita determinação, é dizer a si mesmo: eu quero, eu posso, eu consigo. E jamais sair da linha, nunca passar por cima dos outros para atingir seus objetivos, ser honesto, ter uma vida digna e ser feliz com o que você tem hoje, porque amanhã você pode ter mais do que tem agora. Você consegue tudo o que você quer. Há aqueles que passam por cima do outro, mas o patrão não é bobo, ele enxerga aquele que é capacitado. Não precisa passar por cima de ninguém.

Jornal do Sudoeste: você voltou a estudar há pouco tempo, como tem sido essa experiência?
P.A.A.N.: Eu ri muito de mim mesma, porque agora sou a mais velha da turma, mais velha até que muito professores. Em 2019, eu coloquei algumas metas em minha vida, eram três, e uma delas era voltar a estudar, não sabia o que e como, nem que fosse para estudar em casa para prestar concurso. Tomei essa decisão porque para você conquistar um emprego melhor, você precisa do estudo e, mais do que isso, do papel que comprove. Às vezes, eu tenho até mais conhecimento que uma pessoa que fez faculdade porque a vida me ensinou e tenho facilidade e assimilar conhecimentos, porém não tenho papel que comprove, então preciso disso para atestar minha capacidade. Foi isto que me motivou. Então, fiquei sabendo que havia aberto vagas para o curso técnico de Recursos Humanos, eram 50 vagas e havia mais de 200 inscrições – algumas vagas eram reservadas a alunos da escola, e as demais foram sorteadas. Acabei sendo contemplada. Quando comecei não foi fácil, porque estava trabalhando, estava há muitos anos fora da escola. Mas deu tudo certo, concluí o primeiro semestre.

Jornal do Sudoeste: qual é mensagem que você deixa para nossos leitores?
P.A.A.N.: Que é preciso ter fé, sorrir e não desistir, porque amanhã pode ser um dia bem melhor que hoje e se não, não tem problema, coloca a cabeça no travesseiro e durma porque irá acontecer coisas boas. Paciência é algo fundamental. Seja honesto e se puder ajudar aos outros, ajude, se não puder, também não atrapalhe. Claro que há dia que estamos com os nervos à flor da pele, principalmente mulher que tem as questões hormonais e muita gente não entende. Mas se acontecer, evite as pessoas ou peça desculpas se for mal-educado com alguém.

Jornal do Sudoeste: e qual é o balanço que você dessa trajetória?
P.A.A.N.: Acredito que até hoje valeu muito a pena, mesmo com as dificuldades. Mas qual é o sabor da vida sem os problemas? O gostoso na vida é passar por tudo, olhar para trás e ver o que enfrentou e ainda está de pé, firme. É gratificante. Ainda tenho muito a viver, a aprender, a melhorar, antes de ir para o outro lado. Nada melhor que as dificuldade para aprendermos. E seja feliz com o que você tem hoje.