POLEPOSITION

Os dois lados do paddock

Por: Sérgio Magalhães | Categoria: Esporte | 27-01-2020 09:35 | 790
O escritório da Williams vazio em Interlagos 
O escritório da Williams vazio em Interlagos  Foto de Sergio Magalhães

Por mais que os recursos e a tecnologia de hoje permitem fazer cobertura jornalística da própria base, estar presente ao evento ainda faz enorme diferença na hora de apurar os fatos, ir atrás da notícia ou até mesmo ter uma visão mais ampla do que está acontecendo.

Uma das minhas observações na cobertura do GP do Brasil do ano passado foi o comportamento do paddock (área atrás dos boxes) do autódromo de Interlagos. Ali, pilotos, mecânicos, dirigentes, jornalistas, celebridades e convidados víps se misturam. Em Interlagos as catracas eletrônicas que dão acesso ao paddock dividem os dois lados. Pela direita ficam os escritórios da Federação Internacional de Automobilismo, da Mercedes, Ferrari, Red Bull, Renault e Haas. Eles obedecem a ordem de classificação do campeonato de Construtores do ano anterior.

Do lado esquerdo ficam os da McLaren, Racing Point, Alfa Romeo, Toro Rosso, Williams e o da Pirelli, fornecedora de pneus. E chama atenção de como as pessoas se concentram do lado direito. A muvuca fica ali o tempo todo, de frente para as três principais equipes, além da Renault. Cinegrafistas, pessoal de apoio, jornalistas ao vivo ou à espera de uma entrevista, além de personalidades e convidados se aglomeram. Pilotos são assediados por uma foto, autógrafo - hoje os fãs preferem selfie do que autógrafo, mas ainda é possível ver alguém com papel, caneta ou um boné para ser autografado.

Outros jornalistas se concentram de frente as catracas eletrônicas na espera de uma palavrinha rápida dos pilotos, afinal, todos vão passar obrigatoriamente por ali quando chegam ao autódromo - ops(!) nem todos: a exceção era Lewis Hamilton que chegava por outro caminho exclusivo, escoltado por segurança particular e pela fiel braço direito, Angela Cullen, que caminha ao seu lado por todos os lugares do autódromo.

Mas é interessante como o cenário muda do lado esquerdo do paddock. A McLaren ainda atrai boa quantidade de pessoas, mas vai minguando de frente à Racing Point, Alfa Romeo, Toro Rosso e não se vê ninguém na Williams(!); é como se a equipe fosse excluída da Fórmula 1.

Não havia dificuldade em se aproximar da chefe, Claire Williams, nem dos pilotos Robert Kubica e George Russell. Eles circulavam por ali como se fossem personagens anônimos. É estranho observar a que ponto chegou uma das equipes mais vitoriosas da Fórmula 1, mas que de uns anos pra cá não vive um bom momento e iniciou uma curva espiral ladeira abaixo depois que a atual chefe assumiu a direção da equipe. Cabe aqui um parêntese: (nada contra o fato de ser uma mulher no comando da Williams. Há muitas mulheres exercendo papel importante e com extrema competência em várias equipes da F1, mas infelizmente não tem sido o caso da filha do fundador, Frank Williams, que por sinal é uma pessoa afável).  

Decisões e contratações erradas, perda de patrocinadores, de nomes de peso no departamento técnico, e o resultado é uma equipe sem perspectiva de sair do fundo do poço em curto prazo, apesar de a própria Claire ter dito que era preciso chegar a esse ponto para uma nova retomada da equipe.

A Williams não vence uma corrida desde 2012, e só venceu naquele ano por conta de uma grande zebra que levou o venezuelano Pastor Maldonado à vitória no GP da Espanha.

A Williams já disputou 744 GPs, venceu 114 e foi 9 vezes campeã de construtores e 7 de pilotos, entre eles o tricampeonato de Nelson Piquet, em 1987. Números que fazem da Williams uma das mais vitoriosas da Fórmula 1 e que não condizem com o atual momento que atravessa.

Ano passado o único ponto da Williams foi conquistado por Robert Kubica no GP da Alemanha (10º colocado), graças à desclassificação dos dois carros da Alfa Romeo por irregularidades na embreagem. No GP da Rússia a equipe pediu para que Kubica abandonasse a prova sob o risco de não ter peças de reserva para disputar a corrida seguinte. Que várzea! Tanto 2018 como 2019 a Williams carregou a lanterna na Fórmula 1.