ELY VIEITEZ LISBOA

A lição da águia

Por: Ely VIeitez Lisboa | Categoria: Cultura | 29-02-2020 05:45 | 546
Foto de Reprodução

Dizem (verdade? Mito? Folclore?) que a águia vive 70 anos. Aos 40, fica com um bico adunco em demasia, já não pode caçar a presa. As unhas crescem, dificultando a caça. As penas envelhecem, pesam e a ave já não consegue alçar, como antes, seus voos para o infinito. Sábia, ela refugia-se em uma gruta solitária, por seis meses. Afia o bico, quebra-o e ele, regenerado, volta a ser arma letal. Com ele, corta as unhas recurvas. Arranca as penas velhas e espera nascer outras, poderosas. Sai de seu esconderijo, nova, forte, pronta para enfrentar mais os seus 30 anos de vida, com dignidade e beleza.

Verdade ou não, é uma lição sábia. Nós, também, aos quarenta, perdemos a capacidade da caça, força para a luta e nossas penas começam a pesar quando alçamos os voo  dos sonhos alimentados na juventude.

A Natureza é sábia e oferece veredas, opções. O homem, porém, orgulhoso de ser um animal racional (nem sempre!), e o mais inteligente (rarissimamente), fica diante de caminhos diversos. Às vezes reconhece a decadência, sua força  diminui, as ideias se tornam  meio obsoletas e não consegue enfrentar o mundo, que é  dinâmico, pois as mudanças vêm rápidas. Terá, contudo, que tentar “regenerar-se”, adaptar-se, crescer, re-estruturar posicionamentos, aprender, observar com argúcia, ler muito, informar-se, ou se transformará em uma criatura saudosista, rígida, passiva, repetindo ideias, conceitos, técnicas, rotulando pessoas (é tão cômodo!), alimentando preconceitos, tentando empobrecer o mundo para ajustá-lo à sua cosmovisão pífia, tacanha.

O que desiste e fica grudado ao passado como uma craca, é facilmente reconhecível: saudosista, ele vive no ontem. É preciso usar o presente, analisando-o; o que houver de melhor do passado; não ignorar o futuro e quando o fardo pesar, arrefecerem-se as forças, talvez devamos lembrar da lição da águia.

Infelizmente não podemos ir para uma gruta, um spa?. O deserto, como os eremitas? Para a Pasárgada, não para ser feliz, mas para nos reestruturar? Ou simplesmente fazer um retiro espiritual, espécie de balanço de nossa vida, traçar novas metas, alimentar outros sonhos.

E cheios de vigor, com os bicos poderosos da persistência, as garras fortes da coragem e as poderosas penas revigoradas, ao sair alçaremos  os mais altos voos para concretizar o nobre conceito do ser humano. Seremos as águias do Senhor, o clímax da Criação.

(*)Ely Vieitez Lisboa é escritora
E-mail: elyvieitez@uol.com.br