ELY VIEITEZ LISBOA

A pretensa era da comunicação

Por: Ely VIeitez Lisboa | Categoria: Cultura | 07-03-2020 15:44 | 220
Foto de Reprodução

Hoje, com o desenvolvimento tecnológico, a Internet, os celulares, nossa época recebeu o discutível epíteto de Era da Comunicação. De fato, com a tecnologia, a Comunicação tornou-se mais rápida. A Televisão nos traz notícias e imagens do fato ainda acontecendo.  Tudo é célere, em um átimo. Os celulares são modernos, aparelhos quase perfeitos, a comunicação por e-mails algo prático. Mas tudo é feito através da Máquina. O Homem, sem perceber, não nota que as mensagens vão ficando cada vez mais curtas, práticas, superficiais e banalizadas.

No Twitter, no Facebook, no Orkut há "notícias" tão idiotas, que raiam ao absurdo. É o cantor, o músico ou o jogador de futebol que noticiam sobre o que comeram, o que fizeram, quem amam, a quem odeiam, com quem andam dormindo. Daqui a pouco vão comentar com quem dormiram, que hora foram ao banheiro, como estavam seus gases, ou suas bexigas... E o pior é que sempre um grande público se interessa por tais vulgaridades. Processo idêntico é a atração de pessoas por programas imbecis, como o BBB. Várias vezes perguntei a alguns alunos por que viam o programa. Eles responderam que gostavam de saber da vida alheia... Não percebiam a encenação falsa, o jogo das situações esdrúxulas, as baixezas?

Lembremos a perquirição de Anezaki Chofu (1873), suscitada por Paulo Morand, poeta, escritor e educador francês (1881/1976): "O telefone, o telégrafo, o rádio, a Internet possibilitam, a ponto de tornar inquietante, a troca rápida das comunicações. Mas que é que nós temos a comunicarmos? Cotações da Bolsa, resultados de futebol e histórias de relações sexuais. Saberá o homem resistir ao acréscimo formidável de poder de que a ciência moderna o dotou ou destruir-se-á a si mesmo manipulando-o?". Meio profético, o grande intelectual já percebera o perigo, porque o homem acabaria por tornar-se mais superficial, apegado ao supérfluo, em detrimento do essencial.

Este mesmo texto denunciava que conviver muito com as Máquinas robotiza o homem, ele se coisifica, se reifica. O Progresso tecnológico alimenta o sedentarismo e o Diabo, com sua esperteza vulpina, ensina que a Máquina é também excelente instrumento para o crime. Quem quiser argumentos é só assistir aos jornais televisivos, diariamente. O mundo moderno globalizou-se e grande parte dos seres humanos parece cópia carbona-da, agindo de maneira idêntica, com os mesmos valores inversos e uma ganância por bens materiais, que acaba por ser sua perdição.

Parece um paradoxo. Quanto mais os grupos, as gangues, a multidão se junta, maior é a solidão humana. A filosofia não é nova. Já se disse que se quiser ficar só, misture-se a uma multidão. Ela é acéfala e perigosa. Quando o assumir individual desaparece, o perigo é maior. E o grande problema é quando se usa esta pretensa união para o mal.  O Flash Mob, por exemplo, é uma chamada à multidão, para dançar, ou em nome da arte. O movimento é então algo positivo. Mas ele pode também ser usado para encontros  nefastos, brigas, desafios. Aí é coisa do Diabo.

Enfim, o homem, cada vez mais refém da Máquina, continuará um ser solitário, infeliz e vazio, cheio de tédio, na pretensa Era da Comunicação. Ora, não se pode negar que  Steve Jobs foi um gênio que mudou a história dos computadores e também do cinema, da música. É verdadeira  a importância da parafernália que facilitou muitas coisas  no mundo sim, mas acirrou a obsessão dos aficionados por tais aparelhos. Eles se tornaram mais reféns ainda da Máquina e do sedentarismo.

Como evitar o exagero do uso das máquinas,  usufruir de suas benesses, sem correr o risco de depender tanto delas? Este é um dos grandes desafios modernos.

(*)Ely Vieitez Lisboa é escritora
E-mail: elyvieitez@uol.com.br