CRÔNICA HISTÓRICA

Padre Antônio Bento (1850)

Por: Luiz Carlos Pais | Categoria: Cidades | 18-03-2020 21:52 | 61
Fonte: Notícia Histórica de São Sebastião do Paraíso, de José de Souza, Publicado pela Casa Espindola. São Paulo, em 1922, p. 13.
Fonte: Notícia Histórica de São Sebastião do Paraíso, de José de Souza, Publicado pela Casa Espindola. São Paulo, em 1922, p. 13. Foto de Reprodução

Uma das mais antigas anotações sobre a presença da Igreja Católica em São Sebastião do Paraíso, no Sudoeste Mineiro, é o lamentável assassinato do padre Antônio Bento, ocorrido por volta de 1850. Nessa época, a atual cidade tinha ainda o estatuto de distrito vinculado à vila de Jacuí, onde o religioso havia exercido as funções de vigário. Três anos depois, a capela de São Sebastião foi reconhecida como templo oficial ligado ao bispado de São Paulo e, dois anos depois, em 1855, foi criada a freguesia com a consequente instalação da paróquia. Essa memória está na "Notícia Histórica de São Sebastião do Paraíso", livro publicado 1922, de autoria do escritor paraisense José de Souza Soares.

Ficou na memória local que o triste acontecimento teria sido motivado "por questões íntimas", sendo o crime executado por um homem que surpreendeu o padre nos fundos do quintal de sua casa, quando ele cuidava de uma pequena plantação de milho e tratava dos porcos que criava num chiqueiro. O autor dos disparos conhecia a rotina de trabalho do religioso e teria armado uma tocaia para praticar o crime. A casa do sacerdote ficava na rua Pimenta de Pádua, ao bem lado da igreja, com fundos para a atual rua Pinto Ribeiro (antiga rua do Comércio), quase na esquina da atual Rua Soares Neto.

Naquele tempo uma das dificuldades para instalar uma paróquia era o reduzido número de padres para atender os lugares nascentes nos vastos sertões do Sudoeste Mineiro. A capela de São Sebastião construída três décadas antes, ainda não tinha sido curada. Em outros termos, o bispado ainda não tinha nomeado um sacerdote para o atendimento espiritual da comunidade. Desse modo, o padre Antônio Bento, mesmo não sendo o pároco nomeado, estava morando no povoado e sua morte causou grande comoção na população.

Muitas pessoas ficaram temerosas pelas possíveis consequências que poderiam abater sobre a comunidade que ansiava conquistar dias melhores. Os líderes locais tinham solicitado à assembleia legislativa provincial, a elevação do distrito à categoria de freguesia, o que implicaria na criação da paróquia. Por outro lado, havia uma curta distância entre o alarde social e a superstição. A preocupação popular aumentou quando o padre Fortunato Bento, vigário em Dores do Aterrado (Cássia) e irmão do padre Antônio Bento, viajou a Paraíso, para participar do sepultamento e teria alertado a população para as "maldições que poderiam abater sobre o arraial".

Por muito tempo, permaneceu no entendimento de algumas pessoas a crença nas pragas supostamente rogadas sobre o futuro da terra, temendo que o distrito pudesse ser engolido por buracões que chegavam nas proximidades da Igreja. Entre os fatos e as memórias, essas últimas com variados graus de veracidade, ficaram o trabalho sério e persistente dos homens daquele tempo que lançaram as bases para o florescimento da bela cidade dos nossos dias.