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Lar Pedacinho do Céu

Por: Redação | Categoria: Cultura | 26-03-2020 17:29 | 897
Foto de Reprodução

Meu pai, sinto uma saudade imensa, penso em você a todo instante. O diário é a forma que encontrei de lhe falar, espero que leia. A evolução de uma doente física escrevendo sua história. Não sei se lembra de mim, eu não te esqueci. Estou no orfanato do bairro onde vive, estamos próximos, ao mesmo tempo tão distantes.

Convivo com diversos meninos e meninas de todos os tamanhos e idade, alguns chegam iludidos dizendo que os pais foram viajar. Uma viagem difícil e tensa. Ansiedade, dúvidas, amargura, solidão e futuro incerto. As horas passam lentamente e nenhuma notícia. Dia após dia esperando em vão, logo nos adaptamos a realidade, porto da longa viagem.

A vida dá voltas inesperadas, o impacto foi doloroso, o chão se abriu sob meus pés arrastando para baixo, passei horas sentada na cama, vendo o tempo passar. Pensamentos estranhos  vinham à mente, misturada a tristeza eu tinha também a esperança.

O peso do olhar de todos foi a única sensação de familiaridade  desde minha chegada aquele local, alguns raramente falavam comigo, eu gosto de estar com eles, as circunstâncias fizeram deles minha família, é difícil de dizer, mas me sinto em casa.

Dizem que a vida aí fora é muita agitada, falta tempo. Tempo eu tenho de sobra, organize sua falta de tempo e  faça uma visita surpresa, assim terá noção de como estou. Posso não estar alegre, sorridente, estou em paz. A atenção, palavras alentadoras dos funcionários me deixam calma, de bem com a vida.

No relógio do tempo eu sou os números, o senhor os ponteiros, o badalar é pontual,  no corredor da solidão caminha a saudade, não se culpe, não sou a filha que sonhou.

Não entendo porque choro, estou viva. Na parede do meu quarto tem um quadro pendurado com a foto de um senhor, seu olhar me acompanha a todo instante.

Uma noite, em sonho, pedi para ajudar a encontrar  a minha liberdade. Na manhã seguinte acordei com vozes que vinham do corredor, um garoto abriu a porta sorriu e disse, sua liberdade chegou, uma cadeira de rodas motorizada, o sonho de uma vida realizado por um doador desconhecido. Lembrei-me do sonho e do meu amigo, não disse nada, as lágrimas falaram por mim.

O Lar Pedacinho do Céu ajuda a crescer de corpo e mente para as boas ações. Deus afastou o ressentimento, abriu meu coração. Que ele me abençoe e lhe receba.
Laércio Felício membro da Academia Paraisense de Cultura