LÍNGUA SOLTA

Ensaio sobre uma pandemia

Por: Michelle Aparecida Pereira Lopes | Categoria: Cultura | 01-04-2020 14:42 | 420
Michelle Aparecida Pereira Lopes
Michelle Aparecida Pereira Lopes Foto de Reprodução

Só num mundo de cegos as coisas serão como verdadeiramente o são(José Saramago)

O ano parecia ter começado, afinal, aqui no Brasil, é isso que todos acreditamos e costumamos pensar depois que o Carnaval acaba. Porém, em 11 de março, o ano "parou" de novo frente à declaração da Organização Mundial da Saúde (OMS): a pandemia do novo corona-vírus. A essa altura, todos nós já compreendemos que uma pandemia é declarada quando uma enfermidade epidêmica se dissemina amplamente, isto é, atinge uma grande quantidade de pessoas, em uma imensa região geográfica. Na situação atual, o covid-19 já se espalhou por todo planeta.

Não é a primeira vez que isso acontece à humanidade e, provavelmente, não será a última. Não é esse meu desejo, mas não estamos envoltos em redomas que nos protegem de que isso aconteça, como vínhamos pensando até então. A pandemia tirou-nos uma venda: não somos seres indestrutíveis, muito pelo contrário, somos seres frágeis e muito, muito suscetíveis.

Desde que tudo isso começou, estamos sendo constantemente bombardeados por uma quantidade gigantesca de informações, de todos os lados chegam dicas de como se proteger, de como não se contaminar; são vídeos, gráficos, estatísticas. Acabamos imersos em toneladas e toneladas de ditos e números, mas até onde isso, de fato colabora, ainda não consigo mensurar. Na minha perspectiva, informação é necessária, mas em excesso pode causar pânico e interpretações equivocadas. Melhor seria se parássemos para pensar em como tudo isso pode nos ajudar a melhorar como humanidade, melhorando-nos individualmente.

A partir do momento em que fomos colocados em isolamento social, tenho pensado muito sobre as referências literárias que tenho sobre o assunto. São várias, já que a Literatura conta com um grande número de distopias que podem nos ajudar a refletir sobre tudo que estamos vivendo. Sabe aquele dito de que a Literatura nos expõe a experiências sem que tenhamos, necessariamente, que vivenciá-las? Pois é! É assim mesmo que acontece.

A referência literária que busquei para tentar compreender melhor esse momento é a obra "Ensaio sobre a cegueira", do célebre escritor português José Saramago. Na ficção, tudo começa quando um motorista em um sinal de trânsito percebe-se cego. Em seguida, a "treva branca" passa a se espalhar de maneira incontrolável e atinge todos. As pessoas isolam-se em uma espécie de quarentena e daí vêm os maiores ensinamentos que essa obra literária pode nos proporcionar.

O isolamento social das personagens os possibilita vivenciar o fato de serem simplesmente seres humanos e, para a grande maioria das personagens, a limitação da essência humana torna-se a pior "treva" que poderia existir. "Uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos". Como nos comportamos quando estamos limitados a nós mesmos? O que nos dispomos a fazer de errado, quando a sobrevivência é que mais importa? A luta pela sobrevivência individual justifica tudo, inclusive impedir que outros sobrevivam também? Quanto de animalesco ainda temos em nós, quando o instinto de sobrevivência fala mais alto?

A cegueira da ficção de Saramago também pode nos servir para ponderarmos sobre a vida em nossa contemporaneidade. Até que ponto nós enxergamos, com lucidez, o mundo a nossa volta? O quanto estamos cegos para aquilo que faz parte de nossa essência mais humana: o afeto, a fraternidade, o compromisso com os demais, além de nós mesmos, por exemplo?

A obra pode parecer aterrorizante porque fala de tempos muito sombrios, tempos que nenhum de nós sequer cogitou viver. Por outro lado, não deixa de ser uma narrativa bastante comovente, já que nos ensina "a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam".

Não darei spoiler sobre o final da obra. Penso que você deveria lê-la. Caso não o faça, deixo aqui mais um de seus ensinamentos, tão pertinente quanto os demais para esse momento em que estamos isolados socialmente, devido ao corona-vírus. "O difícil não é ter que viver com as pessoas, o difícil é compreendê-las." Boa leitura!

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Michelle Aparecida Pereira Lopes - é uma professora apaixonada pelas Letras. É doutora em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Ministra as disciplinas relacionadas à Língua Portuguesa na Universidade do Estado de Minas Gerais, UEMG - Unidade Passos. Também ensina Gramática no Ensino Médio e Cursinho do Colégio Objetivo NHN, Passos.