ELY VIEITEZ LISBOA

Sonhos Rotos

Por: Ely VIeitez Lisboa | Categoria: Cultura | 07-04-2020 15:50 | 355
Foto de Reprodução

Dizem que se pode conhecer os habitantes de uma casa pelo lixo que recolhem. Quando se examinam os restos em uma residência, vêm, em geral, ideias sobre a abundância, riqueza, bom gosto, praticidade, ou descuido, pobreza. Não desta vez. Decididamente o caso era insólito, raro, até com laivos de mistério.

O chofer de táxi entregou-me o achado, explicando. Um catador de papel encontrara aquilo em uma caçamba, diante de uma casa, no bairro nobre. Era um álbum de casamento, novo ainda, com data de um ano atrás. Perguntou-me se eu conhecia aquelas pessoas. E mais, o que ele devia fazer com aquilo?

Abri-o curiosa. A cerimônia rica, um exagero de flores, os noivos jovens e belos, trajados com elegância e bom gosto. Quem eram? O que acontecera com a alegria, os sonhos, os planos, o amor? O que move alguém a jogar no lixo fotos que documentam um dos momentos mais belos de duas vidas?

Reparei nos detalhes. A beleza e juventude do jovem casal. As vestimentas caras e finas. A alegria nos rostos, algumas fotos artísticas. Uma delas focalizava em close a mão da noiva, com uma aliança imponente, larga, aparentemente de ouro puro. Fotos dos possíveis pais dos cônjuges, padrinhos, amigos.

Deixei o chofer com seu achado e suas dúvidas. Raiva e ódio moveram o rapaz ou a moça a jogar o álbum no lixo? Casamento desfeito? Desencontro, traição, incompatibilidade de gênios? Uma possibilidade diferente: ladrão invadira a casa,  roubara  a caixa e de-pois descobrira que não era objeto  de venda.

À noite, mergulhei em cismas, pensando nas fotos. O mais chocante eram a juventude e a alegria dos noivos, tudo terminando de maneira drástica, definitiva, epílogo simbolizado pela destruição do documento poético de um enlace: o álbum de casamento.

O mistério insondável incomodava, deixando-me insone. Era muito curto o tempo entre a realização do grande dia e o destino do álbum descartado de maneira expressiva. Não bastou o rompimento. Foi preciso jogar no lixo a prova ultrajante, como se fora um dejeto, algo desprezível. A simbologia era forte. Alijar de sua vida qualquer resquício do  grande dia. Sepultar a opção, a escolha, o momento que deveria ter sido um dos mais importantes da existência do casal.

Nada mais eu soube do achado do taxista. Dissera ele que telefonaria para o fotógrafo que montara o álbum. Talvez ele tivesse notícia do acontecido. De propósito, nunca mais perguntei sobre o fato inusitado, muito bizarro. Preferi deixar as elucubrações várias que comprovam o já sabido: o ser humano é um animal complexo, insciente, que caminha no fio da navalha da vida.

A única coisa que realmente se sabe é que criaturas humanas nada sabem. O resto é espera, dúvida, sonhos. Quimeras.
(*)Ely Vieitez Lisboa é escritora
E-mail: elyvieitez@uol.com.br