ENTRETANTO

Entretanto

Por: Renato Zupo | Categoria: Justiça | 08-04-2020 12:03 | 104
Renato Zupo
Renato Zupo Foto de Reprodução

Miriam Leitão para maiores
Há reportagens ou colunas opinativas prematuras, feitas antes do necessário distanciamento histórico entre jornalista e notícia ou entre o historiador e o fato historiado. Também há os textos de imprensa tendenciosos, panfletários ou “chapa branca”, feitos para ovacionar simpatias políticas ou para assassinar reputações, conforme o caso. No entanto, para o mal ou para o bem, sempre parciais e, por isto, no lugar errado. Não devem estar na grande imprensa, mas na página do facebook ou no diário íntimo do escritor, não em um informe jornalístico produzido por formador de opinião. Míriam Leitão, que conheço de dois festivais literários, erra no tom ao falar do pretenso autoritarismo do presidente, que reviveria 1964 (sempre o militarismo, ela não se esquece) e que estaria inventando milagres econômicos que jamais existiram durante o regime militar de exceção. Cita, para tanto, um estudo de dois economistas mas não menciona, por exemplo, em que se embasaram estas pesquisas – que informam, em suma, que o milagre econômico somente beneficiou aos mais ricos. A nobre jornalista aproveita a deixa para chamar de mentirosos Bolsonaro e outros adeptos da teoria da boa economia e do PIB gigantesco durante o regime militar. É compreensível que Miriam Leitão não goste de militares ou do presidente, afinal viveu e sofreu na pele aquele período em que foi presa política ao lado do marido. No entanto, não pode derramar fel sobre as páginas que produz e que devem possuir a necessária imparcialidade, distanciamento e frieza para dissecar fatos à luz da economia e da ciência política. Miriam já havia mostrado suas garras na época das entrevistas coletivas estilo “Roda Viva” das quais participou e que tinham como convidados os então candidatos Jair Bolsonaro e seu vice, Hamilton Mourão. Ofendeu, foi irônica, distorcia argumentos, não permitia que as respostas se desenvolvessem na boca dos entrevistados, que interrogava como deve ter sido interrogada pela polícia política militar na época do DOPS. Agora, com base em pesquisas de economistas cujos critérios não divulga, se sai com a falácia de que o Brasil não se desenvolveu economicamente durante a ditadura. Miriam, sua sorte é que os que a leem não estudam, ou consultam outros pseudo gênios da hegemonia cultural marxista como você. Durante o governo Médici nosso PIB foi de 9% ao ano, o maior que já tivemos. Paulo Francis, na época esquerda/torturado/preso/opositor como você, Miriam, admitia que Médici era um grande administrador e um péssimo político. Francis também admitia, como todos, o milagre econômico. Nada justifica a tortura. Não estamos defendendo nem torturadores e nem terroristas. Estamos defendendo a História. Henry Kissinger, então superministro americano, dizia à imprensa mundial que, se interessados em presenciar o desenvolvimento gigantesco de uma nação, que olhassem para o Brasil – a informação é de Élio Gáspari, este sim idôneo e colega de Miriam em diversos meios de comunicação. Dona Miriam Leitão, faça-me o favor, exerça sua opinião política através do voto, ou se candidate nas próximas eleições. Mentir para o seu público por antipatias políticas é compreensível, diante de sua ojeriza aos militares, mas é injusto e mancha sua trajetória profissional.

Apagando a História.
A estratégia de apagar fatos históricos, diminui-los ou distorcê-los não é nova. É a mesma mentalidade dos soviéticos que destruíram a estátua de Lenin tão logo o muro de Berlim ruiu, ou daqueles que tentaram derrubar também o monumento ao General Lee no sul escravagista dos Estados Unidos. É gente que olha o passado com os olhos do presente, é o mesmo pessoal que acha Monteiro Lobato sexista e reacionário, ou que acha Vinícius de Morais misógino e machista. O escritor tcheco Milan Kundera conta em seu premiadíssimo “A Insustentável Leveza do Ser” a trajetória do protagonista de seu romance, um médico que, criança, se recorda de seus livros de história sendo modificados conforme o ano, por ordem governamental dele desaparecendo nomes, vultos, datas históricas e heróis que de uma hora para outra caíam na desgraça imposta pelos líderes comunistas russos sobre a extinta Tchecoslováquia então dominada por bolcheviques. Tudo muda, muda, mas não muda, como dizia o General Golbery do Couto e Silva. Agora, com as facilidades da Internet, fica muito mais fácil distorcer fatos, apagar eventos históricos, apagar a História.

E o Corona?
Estamos todos apavorados com o COVID 19. Jamais esperávamos enfrentar esta situação de guerra – e é mesmo semelhante a uma. Seria o caso de pensar em “culpados” e nos lembrarmos que tudo nasceu de uma lambança chinesa, mas não é o momento de disseminar culpas, mas de encontrar soluções. Justamente por isso, não é hora de procurar aproveitamentos políticos sobre a crise sanitária mundial, procurar heróis e vilões ou virar o jogo do poder fraudando a vontade popular expressada no voto. Quem faz isso, seja político, agente de estado, magistrado ou padre, não tem Deus no coração. É hora de lutar contra o vírus, não entre nós.
RENATO ZUPO – Magistrado, Escritor