LÍNGUA SOLTA

Quarentena dura quanto tempo?

Por: Michelle Aparecida Pereira Lopes | Categoria: Cultura | 10-04-2020 18:22 | 1067
Michelle Aparecida Pereira Lopes
Michelle Aparecida Pereira Lopes Foto de Reprodução

A inspiração para o texto de hoje veio de uma palavra que todos nós já ouvimos milhares de vezes nos últimos meses: quarentena! Pois é isso mesmo! Vamos falar de quarentena. De novo? – você deve estar se perguntando, porque já não aguenta mais ouvir falarem essa palavra... Na verdade, nem eu! Mas vou falar de quarentena da perspectiva da língua portuguesa.

Etimologicamente, a palavra pode ter sido originária da palavra francesa quarantaine, mas há dúvidas sobre isso. Sendo assim, também possível acreditarmos que ela tenha sido formada pela junção do radical “quarent-” unido ao sufixo “-ena”. Isso nos daria que, morfologicamente, a palavra quarentena é um substantivo, usado para nomear o período de tempo referente a 40 dias.

Essa associação é muito fácil de ser feita, já que, há outras palavras muito parecidas em nossa língua: dezena, por exemplo. Tanto em “dezena” quanto em “quarentena” reconhecemos facilmente os morfemas formadores, ou seja, o processo de formação de uma e de outra é muito comum na língua: um radical que se une a um sufixo para formar uma nova palavra. Em “dezena”, consideramos que o radical “dez-” uniu-se ao sufixo “-ena”; como o radical é um morfema capaz de armazenar o sentido, sempre que o radical “dez-” aparece em alguma palavra conseguimos relacioná-la, imediatamente, à quantidade “dez”.

Com a palavra “quarentena” acontece o mesmo. O radical “quarent-” é armazenador de sentido referente ao numeral “quarenta” por isso, a associação com esse número é imediata; além do mais, ainda encontramos em “quarentena” o mesmo sufixo “-ena” que encontramos em “dezena”. Assim, compreendemos que “quarentena” seja um período relacionado a 40dias. Então, por que temos ouvido tantas expressões como “quarentena de catorze dias”, por exemplo?

A explicação para isso pode não estar na morfologia da língua, mas na História. No século XIV, a Europa enfrentou a epidemia da peste bubônica. Essa doença demorava cerca de 37dias para manifestar os primeiros sintomas; mas a Ciência daquela época não tinha comprovações disso, contava apenas com a observação do fenômeno. Isso fez com que, em locais como Veneza, os navios estrangeiros que pretendessem entrar na cidade fossem colocados em isolamento por um período correspondente a quarenta dias. A “quarentena” pretendia evitar a contaminação dos moradores do local pelos estrangeiros.

Com o passar do tempo, o termo passou a ser usado para fazer referência a diversos tipos de isolamento, sem que esses fossem, essencialmente de 40 dias. Podemos considerar, hoje, que seja um termo genérico, usado por variadas áreas, mais com a intenção de denotar o isolamento que o número exato de dias.

Na Medicina, por exemplo, “quarentena” é o isolamento de pessoas, animais, ou mesmo de lugares que possam promover o perigo de infecção, independente do tempo necessário para proteção contra a propagação de determinada enfermidade. Já na Marinha, o termo refere-se ao isolamento imposto a um navio que transporte pessoas, animais ou mercadorias provenientes de país assolado por uma doença contagiosa e dura em torno de 42 dias.

Sendo assim, podemos compreender que, embora quarentena lembre-nos o período de quarenta dias, a duração dela será determinada pelo período de incubação da doença que ela pretende combater; isso significa que uma quarentena poderá durar mais, ou menos que quarenta dias. Quem determina o tempo de uma quarentena não é o radical “quarent-”, como pensamos, ou pensávamos, mas sim, o tempo que a doença leva para se manifestar.          

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Michelle Aparecida Pereira Lopes
é uma professora apaixonada pelas Letras. É doutora em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Ministra as disciplinas relacionadas à Língua Portuguesa na Universidade do Estado de Minas Gerais, UEMG - Unidade Passos. Também ensina Gramática no Ensino Médio e Cursinho do Colégio Objetivo NHN, Passos.