CRÔNICA HISTÓRICA

Azarias na memória paraisense

Por: Luiz Carlos Pais | Categoria: Cultura | 12-04-2020 12:02 | 597
Azarias. Conhecido morador de São Sebastião do Paraíso, na década de 1960. Fone: Gazeta Paraisense.
Azarias. Conhecido morador de São Sebastião do Paraíso, na década de 1960. Fone: Gazeta Paraisense. Foto de Reprodução

Entre as memórias da terra natal, nos saudosos tempos da infância que passei no início da década de 1960, ainda está a presença marcante do Azarias. Ao seu modo, ele participava da encantadora alma coletiva da cidade, conhecido por todos os moradores de São Sebastião do Paraíso, polo regional do Sudoeste Mineiro. Morava numa casinha simples, deixada pelos seus pais, numa rua de terra batida que contornava a cidade, com paredes de tijolos expostos, sem reboco, coberta com folhas de zinco. Passava parte do tempo bem distante do centro comercial do rico polo cafeeiro, e bem perto de uma comunidade de pessoas igualmente simples, que lhe socorriam em seus momentos mais difíceis.

Não aparentava ser um homem velho, mas tinha o corpo alquebrado pelos anos, o rosto marcado por rugas, diante do infortúnio desafio de vencer a luta material e espiritual de cada dia. Mesmo assim, quase sempre, estava alegre, salvo um dia ou outro, quando o infortúnio da existência solitária transpunha a sua pele. Então, ele saía pela cidade. De linguagem simples, tinha uma forma especial de expressar seus sentimentos. Mostrava gestos de alegria, tocando alguns velhos instrumentos musicais. Percorria as ruas da cidade, empurrando um pequeno carrinho de madeira de duas rodas.

Dentro desse carrinho trazia seus instrumentos de lazer para combater os momentos incertos: uma violinha, uma sanfona pequena, uma velha corneta que lhes pareciam reluzentes. Coisas tão simples que, depois de décadas, ainda estão preservadas na memória coletiva da terral natal. Hoje, reflito sobre essas coisas simples, aparentemente banais, que superam o tempo, tentando entender que travessia era aquela com a qual o Azarias venceu seus dias em Paraíso. Na parte visível das relações sociais, parecia que ele aceitava, de bom grado, alguma moeda dada por quem quisesse recompensar a apresentação de sua arte tão simples, humana e transcendente.

A respeito de sua trajetória o músico e acadêmico Messias Martins Grillo escreveu em seu livro “Poesias, uma outra história”, os seguintes versos: “Seu carrinho de mão ia rodando / A sanfoninha soprando melodias / A tocar um violão de quando em quando / Foi feliz, bem feliz, o Azarias.” Por certo, sua existência estava em harmonia com a desafiante alma das ruas da cidade tão rica, por um lado, e tão dolorosa, por outro, como é a essência humana diante do caminho singular da nossa travessia pessoal e coletiva.