ENTRETANTO

Entretanto

Por: Renato Zupo | Categoria: Justiça | 19-04-2020 20:53 | 185
Renato Zupo
Renato Zupo Foto de Reprodução

Coronavírus nas eleições
Provavelmente as próximas eleições municipais estarão comprometidas, ou pelo menos não se realizarão em outubro. Não detenho nenhuma informação de bastidores, ou segredo profissional. Mesmo sendo juiz eleitoral este ano, só sei o que todos sabemos. Apenas considero uma temeridade conceber eleições sem campanha, aglomerações e filas, principalmente no dia do voto. Deve ser nessa linha que o TSE vai se posicionar. O risco é grande demais. Sejam quando forem as eleições, a verdade é que a pauta das discussões políticas, desde já a possuímos: pros e contra isolamento social, Mandetta x Bolsonaro, reaquecimento da economia e recuperação da crise mundial. Não vai fugir disso. Temos, portanto, desde já a temática. Nos falta a nova data.   

Máscaras
Acompanho jornais de países que já estão superando a COVID 19 e neles a maioria das linhas editoriais apoia o uso contínuo das máscaras pela população do mundo daqui pra frente. A “Mascherina”,  para os italianos que assim a chamam, já entrou de vez no vestuário e na cesta básica deles, se é que podemos falar assim. O caso de Hong Kong é emblemático: um protetorado ilhéu próximo à China com taxa de contágio próxima do zero. Isto porque lá eles adotam o que médicos chamam de “educação respiratória”. Máscara o tempo todo, mesmo entre os sãos, mesmo fora de período de pandemia. É da cultura daquela ilha chinesa, tanto que por lá o vírus não proliferou como na China continental. Só não consigo imaginar nós brasileiros usando a máscara em locais públicos para sempre. Só iremos fazê-lo enquanto tivermos medo.

Monitoramento econômico-militar
O Centro de Estudos Estratégicos do Exército analisa a adoção de medidas já implementadas pela Coréia do Sul e Taiwan para a retomada da normalidade econômica após o isolamento social.  Por lá houve o afastamento rápido dos infectados, testes em massa, informação compulsória e instantânea dos casos de  infecção detectados. Muito bom ver o retorno das forças armadas aos trabalhos de estratégia governamental. Por muito tempo e por puro preconceito restringimos nossos militares à ordem unida e a exercícios de guerra – é chegada a hora de utilizar sua disciplina e pertinácia no dia a dia da nação de maneira mais contundente, mesmo em tempos de paz.

As imunidades presidenciais
Só brasileiro quer ver seus líderes e celebridades na fila do açougue. Não gostamos que nossos chefes de estado tenham pompa. Se  consultado, o povo opinaria que políticos deveriam viajar em voos de carreira ou, pior, deveriam enfrentar o “busão” para deslocamentos rodoviários. Não temos cultura política para discernir a liturgia inerente aos cargos do apadrinhamento e do abuso de autoridade, a asquerosa “carteirada”. Bolsonaro pode e deve falar o que pensa, é pra isso que foi votado e eleito, e não têm direitos a menos, dentre os quais de se manifestar, só porque é chefe de Estado. Estamos falando daquele que ainda é, de longe, o político mais popular do Brasil, não importam os panelaços divulgados pela TV Globo. Não é por isso, todavia, que a maioria dos brasileiros, em recente pesquisa, é contra seu afastamento ou impeachment: é que estamos todos cansados dessas crônicas mudanças políticas que desestruturam nossa governabilidade. Um impeachment atrás do outro destruiria nossa credibilidade internacional, nos transformaria em uma República de Bananas, inviabilizaria nossa democracia. E tem, é claro, o truque de ouro da chapa puro sangue: a oposição não “bate” muito em impeachment porque o vice de Bolsonaro segue a mesma linha do titular. Mourão no poder com o atual presidente afastado seria trocar seis por meia dúzia.

Isolamento social
O isolamento social é vertical quando é imposto, e horizontal quando decorre de simples recomendação e orientação das autoridades sanitárias e do bom senso da população.   Também há diferença entre isolamento e distanciamento social: no primeiro o Lock Out é integral, só valem supermercados, farmácias e hospitais e fim de papo. O distanciamento é mais maleável – e é com ele que os brasileiros concordam. Mas… Até quando?

Bolsonaro e seus ministros
Mandetta só deve ficar ministro até debelada a primeira onda da crise do Corona. Se morrer mais gente que o esperado, cai antes. O ministro não reza, definitivamente, pela cartilha do seu chefe e só está mantido no cargo porque a situação, agora, não permite guinadas súbitas e drásticas do Ministério da Saúde. Já Weintraub, que é ideologicamente perfeito para os desejos do “Rei”, é mais inconsequente ao se manifestar,  mas não erra no caso da tuitada contra a China. Ele e, antes, Eduardo Bolsonaro, nada contaram de novo ou de mentiroso: estamos assim porque os chineses permitiram a propagação do vírus. Não é teoria da conspiração. Que tenha sido involuntária a lambança – mas ganhar dinheiro com isso, vendendo ao ocidente insumos, máscaras, testes rápidos, é um absurdo. A China é rica e devia limpar de graça a borrada que deu na saúde global.

O Dito pelo não Dito
“Um diplomata é um homem que sempre lembra o aniversário de uma mulher, mas nunca a idade dela”. (Robert Frost, poeta americano).
RENATO ZUPO, Magistrado, Escritor.