ELY VIEITEZ LISBOA

A panaceia para todos os males

Por: Ely VIeitez Lisboa | Categoria: Do leitor | 27-04-2020 17:08 | 235
Foto de Reprodução

Há algumas décadas, assisti a um filme que era a metáfora viva do amor. A trama se passava toda em uma clínica especializada para pessoas com deformidades, sequelas de desastres.

Um homem e uma mulher, dois desconhecidos, vão para o local. Ele e ela trazem cicatrizes trágicas, rostos mutilados. Um dia, eles se olham e, surpresos, percebem que eram belos como antes da desgraça que se abatera sobre cada um. Encantados, mesmo sem entender, iniciam um romance feliz e se completam. Amam-se doce e plenamente. Como cinema, a técnica usada é interessante: os espectadores veem os dois na dura realidade; os dois se enxergam perfeitos.

Na ficção, uma força maior mudava-os, tornando-os belos, sobrepujando à vida cruel. Como interpretar o texto cinematográfico, sua mensagem?

O grande amor, verdadeiro, profundo, tem a capacidade de transformar os amantes, enriquecendo suas boas qualidades, suas virtudes. Ele desperta o que há de melhor nos seres humanos.

Na literatura europeia do século XVI, há uma assertiva que o amante se transforma na criatura amada, não metaforicamente, mas de maneira concreta, similar ao fenômeno da transusbstanciação, na consagração do pão e do vinho. Essa teoria amorosa inspirou o famoso verso do poema "A Amada Ausente", de Cassiano Ricardo: "Quando tu chorares, uma lágrima é minha"...

Até que ponto, na realidade, o amor age como elemento mágico que enriquece a vida dos amantes? Os dois ficam felizes, mais sensíveis. Para onde vai a lucidez? Ela desaparece e os amantes são apenas coração.

Quando juntos, quando se tocam, se abraçam, se beijam, a corrente de energia transfere-se de um para o outro, em uma energização cheia de vida, ardor, o desejo queima, os sentidos conturbam-se. Impossível  saber se são os corpos ou as almas que   se desejam, que se completam. Já escrevi muito sobre o amor. Não devia. Hoje, sinto que os textos são frágeis diante da realidade dos amantes. Por isso que, em um momento de lucidez, eu já dizia: A vida é a verdadeira Literatura. Mil poemas de amor não valem um beijo do homem amado. As palavras são pesadas, impotentes para traduzir a beleza, a intensidade do ato do amor, em sua plenitude. Assim, o grande Livro da Vida é escrito por Deus, às vezes pelo Diabo, para alegria ou desgraça dos personagens. Comédias e tragédias misturam-se, tornam-se o Drama da existência dos seres humanos.

Pensemos em uma simples hipótese. Valorizemos o Amor, como bem maior, como o grande remédio. O Amor em todas suas facetas: a Deus, ao próximo, amor familiar, ecológico, o belo sentimento entre um homem e uma mulher. O Amor ao alcance de todos, é, inso-fismavelmente, a panaceia para todos os males.

(*)Ely Vieitez Lisboa é escritora
E-mail: elyvieitez@uol.com.br