ENTRETANTO

Entretanto

Por: Renato Zupo | Categoria: Justiça | 06-05-2020 18:55 | 59
Foto de Reprodução

Sérgio Moro e Aristóteles
Não importa a sua história, seus méritos e feitos, sucesso e fama, dinheiro e adulação em mídias sociais. Você sempre vai estar a um passo da derrocada, da queda vertiginosa e inexorável. Basta um deslize, cinco minutos de bobeira, uma ação impensada – isso leva o cidadão (qualquer que seja ele) do céu ao inferno em uma viagem sem escalas. Sérgio Moro construiu como juiz uma reputação de batalhador infatigável pela honestidade na política, se tornou um ícone do combate à corrupção através da Operação Lava Jato. Aí comete seu primeiro deslize: aceita ser ministro de Jair Bolsonaro, ao que parece como parte da trilha para sua ascensão ao STF. Besteira. Poderia ser (ou não) ministro do Supremo independente do cargo oferecido pelo presidente eleito. Agora, não vai de jeito nenhum.  Ao aceitar a indicação para a pasta da Justiça e Segurança Pública, Moro comete um erro aristotélico: confunde o discurso retórico com o analítico. São dialetos divergentes e que não irão se encontrar nunca, nem no infinito. A retórica é dos políticos, enquanto o discurso forense é analítico, técnico, exato e preciso.

Jogo bola ou apito?
Assumir o ministério oferecido por Jair Bolsonaro foi o início do fim de Sérgio Moro. Ele entrou para o mundo político partidário no pior momento possível, com investigações sob seu comando em andamento e com o ex-presidente Lula, adversário ferrenho do presidente eleito, preso por decisão judicial emanada do Sérgio- juiz, que jamais poderia ser confundido com o Moro – ministro. E foi, ao menos aos olhos da opinião pública. Não é possível arvorar-se na indispensável imparcialidade dos magistrados, uma garantia constitucional em qualquer país democrático do mundo, sendo ao mesmo tempo árbitro e jogador de futebol na mesma partida. Foi o que Moro fez. Meses antes de assumir como ministro, mantinha o semblante imperturbável e impenetrável comum aos juízes mais tradicionais e reservados, não elevava o tom e argumentava logicamente por sobre fatos e provas e jurisprudência. Lula condenado, Bolsonaro eleito, Moro assume uma pasta política improvável, e se torna ator de um teatro de vaidades que julgava até então à distância. Sucumbiu na carreira, abandonou a magistratura e todas as garantias constitucionais que até então desfrutava, movido por uma promessa de chegar ao STF. Não dá mais, Moro, você politizou demais esta sua ida ao Supremo. Alexandre de Morais, quando ministro de Temer, soube ser mais discreto. Você deveria ter aprendido com ele.  Aliás, posteriormente, também poderia ter aprendido com outro ex-ministro, o Henrique Mandetta, e saído discretamente do pelotão de frente presidencial. Preferiu dar tiro para todo lado, inclusive no próprio pé.

O Ministro Moro
O Moro magistrado não era um primor de técnica , mas sempre fora moralmente inatacável. Pomposo, mas virtualmente limpo de outros vícios. E operoso, eficiente, rápido e diligente. Esse era o Sérgio Moro magistrado, muito diferente do político Moro. Vamos falar a verdade bem falada, sem medo? Moro foi um ministro pífio. Basta analisar aquilo que ele próprio admite: perdeu a minirreforma penal que não soube trabalhar no Congresso, não teve parceiros políticos a ajuda-lo nas articulações indispensáveis à consolidação de uma legislação nova tão impactante e abrangente. Moro não trocava um delegado da PF demissionário, que se dizia insatisfeito com “pressões”! Ora bolas, quem não gosta de pressão que vá vender pão de queijo na feira. Moro abandonou juridicamente Jair Bolsonaro, principalmente diante da pandemia do Coronavirus, queixa que o fez momentaneamente rever suas atitudes e aceitar ao menos aparecer em público ao lado do presidente. Em suma, Sérgio Moro foi, previsivelmente, lamento dizer, um ministro pífio, bem inferior em qualidade e desempenho ao Moro famoso em todo o mundo como magistrado brasileiro.

O Inevitável julgamento moral
No meio judiciário evitamos julgamentos morais, mas eles muitas vezes são indispensáveis para entender nossa história. O que temos, quanto a Sérgio Moro, nosso “personagem da semana”? Um magistrado que (confessadamente) aceitou ser ministro da Justiça de Bolsonaro para mais rapidamente galgar o STF. Um ministro pífio que sumia nos momentos de tensão e que não sabia agradar ao chefe. Abandonou o barco para não naufragar nele, e isso durante a grave pandemia. Novamente, pensou somente em si, foi egoísta. E por fim, o mais grave: usa print de mensagem pessoal de sua afilhada de casamento (!!!), a deputada Carla Zambelli, que divulga para provar seu ponto contra o presidente da República. Ora, isso é falta de ética, isso é falta de educação doméstica, meu Deus do Céu. Isso é mostrar a vida privada dos outros em praça pública para execração popular. Isso é falta de compaixão. Desculpa, Dr. Sérgio Moro, mas, como eu disse, o julgamento moral por vezes é inevitável.

O Dito pelo não dito.
“Não tente viver para sempre. Você não conseguirá.” (George Bernard Shaw, dramaturgo e ensaísta inglês).