ENTRETANTO

Entretanto

Por: Renato Zupo | Categoria: Justiça | 13-05-2020 05:27 | 58
Foto de Reprodução

Fofoca
Eu disse que você falou que ele fez: é sempre assim que começam os bochichos, os boatos, as fofocas. Esse problema, Moro x Bolsonaro, pelo perfil do primeiro e pela falta de habilidade política do segundo, é o típico mexerico da Candinha, uma antiga colunista da imprensa especializada em fofocas. Por isso é que conversa tem que ser reta, não pode fazer curva. Quando Sérgio Moro afirma que foi pressionado, tem que explicar porque não pulou fora, deu voz de prisão e denunciou lá atrás, quando supostamente foi pressionado. Também temos que entender o que significa a palavra “pressão” no jargão mourístico. Se pressão é “pedir”, juiz é pressionado dentro da lei todo dia, pelo advogado, pelo promotor, pelas partes, etc.. O ex-ministro deveria estar acostumado com isso, não é mesmo?

Colaboradores
O papel correto do gestor é consultar e pedir providências aos seus colaboradores. É isso o que o presidente da República fez. Ouvir “não” é uma resposta normal para determinadas solicitações governamentais – e não foi pelas negativas do ministro Moro que ele saiu. Aliás, Sérgio Moro pediu demissão. Ele buscava um motivo para pular fora do navio afundando, para não “deslustrar” sua imagem, e quando encontrou não se fez de rogado. Moro não saiu antes porque não quis, mesmo quando já era supostamente pressionado pelo chefe. Resolveu sair torpedeando em plena crise econômica e de governabilidade, com a pandemia do COVID 19 virando pandemônio. Não se queixou lá atrás – veio fazer isso logo agora, depois da saída do ministro da Saúde. Oportunismo é isso. Se Bolsonaro é autoritário mesmo, porque não obrigou desde logo o então ministro a realizar  a troca na direção da PF?

O compromisso com a Constituição
Todos devemos respeito à Constituição Federal. Quando se impede um gestor de gerir ao fundamento da inconstitucionalidade de suas decisões, deve-se buscar imediatamente a veracidade do argumento. Não se pode agir de maneira estabanada e por ideologia e paixão política.  Bolsonaro já foi impedido de modificar o Estatuto do Desarmamento por intrigas palacianas, já foi impedido de nomear o filho Eduardo embaixador brasileiro nos Estados Unidos, e agora foi impedido de nomear um delegado conhecido chefe da Polícia Federal.  Enquanto isso, o STF decidiu que homofobia é crime, isso dentro de um processo judicial. Criou lei por jurisprudência, quando a prerrogativa de legislar é do Congresso Nacional. No caso recente da nomeação do delegado Hamagem, o STF novamente legisla porque a Constituição Federal não impede o presidente de nomear amigos para cargos de direção. Aliás, do jeito que as coisas vão, se Bolsonaro não pode nomear parentes e nem amigos, dentro em breve só lhe restarão os inimigos para nomear, que não são poucos.  Depois ficam todos vexados e inconformados porque o STF é espicaçado em praça pública, é alvo de manifestação contrária do povo brasileiro, ameaçam fechá-lo, etc.. Tudo bem, decisão judicial não precisa necessaria-mente ser popular, mas tampouco pode ser política. O presidente eleito esperava resistência de determinados partidos políticos, da imprensa e de alguns formadores de opinião. Não esperava ser afrontado e peitado pelos demais poderes da República.

Cuidado com o povo
Não se iludam, porém, com o apoio popular a Jair Bolsonaro, que hoje parece esmaecer. O povo é tangido pela opinião pública como gado. Com um diferencial: a “opinião pública” no Brasil não é aquela que vem do povo, não é a opinião popular. É a opinião imposta ao povo, como manada e massa de manobra, pelos (de)formadores de opinião. E agora, com redes sociais e internet, a Globo não é a única a deter a prerrogativa de formar a opinião pública, a grande imprensa perdeu essa hegemonia, e um meme de aplicativo pode atingir muito mais cabeças pensantes e eleitores do que uma manchete de Jornal Nacional. Portanto, tome-se cuidado com o povo, porque ele é volátil (lição que todo candidato a político deve aprender fielmente). O povo que elegeu Jair Bolsonaro, e que agora parece abandoná-lo é o mesmo povo que lá atrás elegeu Lula e que antes dele pintou a cara para afastar Fernando Collor, e que mais atrás ainda aplaudiu o golpe militar de 1964 através de uma passeata de 100 mil pessoas nas ruas do Rio de Janeiro. O povo é isso, volátil. Não se esqueçam nunca.

Aldir Blanc e Flávio Migliaccio
Parece que os grandes artistas do Brasil estão morrendo, não de velhice, ou de COVID 19, mas de tristeza. Um abraço Aldir Blanc, nosso eterno bêbado equilibrista, você fomentou a ponte entre a Bossa Nova e a MPB. Quanto ao consagrado ator Flávio Migliaccio, do alto de seus mais de oitenta anos, se matou por não suportar mais o Brasil, conforme deixou em carta testamento. Não é só ele, não.

O Dito pelo não dito
Justiça não é um padrão abstrato, fixo, aplicável uniformemente a uma infinidade de situações padronizadas. É um equilíbrio sutil e precário, a ser descoberto de novo e de novo entra as mil e uma ambiguidades de cada situação particular e concreta.” (Olavo de Carvalho, filósofo e escritor brasileiro).
RENATO ZUPO, Magistrado, Escritor