CRÔNICA HISTÓRICA

Guapé e o Lago de Furnas

Por: Luiz Carlos Pais | Categoria: Cultura | 16-05-2020 08:04 | 53
No Sul de Minas, as águas do Lago de Furnas  estavam encobrindo quase toda a cidade de Guapé FONTE: Cruzeiro. Rio de Janeiro, 9 de março de 1963
No Sul de Minas, as águas do Lago de Furnas estavam encobrindo quase toda a cidade de Guapé FONTE: Cruzeiro. Rio de Janeiro, 9 de março de 1963 Foto de Reprodução

A história de uma cidade não deve ser deslocada do seu contexto e do seu devido tempo, sob pena de falsear a tentativa de entender o passado. Os historiadores destacam a existência de uma forte relação entre eventos locais e globais. São histórias que se entrelaçam e de certo modo e têm suas implicações mútuas. É com esse entendimento que, ao tratar da história do Sudoeste Mineiro, na década de 1960, rememoramos os tristes dias em que as águas do Lago de Furnas começaram a inundar Guapé, uma das diversas localidades históricas da região.

Como sempre acontece a história é composta por diferentes vertentes. De um lado, está a imponderável condição humana e a tristeza pela inundação da antiga cidade que deixou existir no local de sua fundação para ser reconstruída em terras mais altas. Por outro, estava a defesa do progresso e da necessária expansão das obras de infraestrutura de produção industrial, ainda avalizadas pela euforia dos dourados anos de construção de Brasília. Muitas fazendas, sítios e lugares, habitados por milhares de pessoas, enraizadas nesse cantão do Sudoeste Mineiro, deixaram de existir para ficarem na memória em nome dessa tecnologia que trouxe riqueza, principalmente, para os grandes centros consumidores de energia elétrica do Brasil.

Na época da inundação, a antiga vila de São Francisco de Guapé (atual Guapé) já havia atravessado mais de um século de resistência, cultura e sabedoria. A respeito de sua história, focalizando os primeiros tempos de fundação da vila, há o raríssimo livro escrito pelo médico Passos Maia, prestigioso líder político regional, intitulado Guapé Reminiscência, publicado em 1933, pelas Edições Pongetti, do Rio de Janeiro.

No evento tratado nesta crônica, os tradicionais vínculos dos moradores à terra natal os impediam de acreditar que as generosas águas do Rio Grande, que tanto alimentaram aquele povo, pudessem um dia encobrir a cidade. Para muitos, nenhum dinheiro pagaria a tristeza de ver desaparecer a Igreja, casas, ruas e lugares onde viveram várias gerações. Até que um dia chegaram os engenheiros e técnicos para cravarem as estacas, demarcando o que deveria deixar de existir. Muitos se recusavam em acreditar que as águas chegariam aos pontos demarcados, outros ficaram doentes, desnorteados e o desespero chegou a causar mortes.

As pessoas começaram a relembrar o exemplo deixado por um dos fundadores do local, o fazendeiro capitão José Fernandes, que durante décadas liderou a formação da comunidade. Era um homem generoso com os pobres que viviam em torno da pequena produção artesanal de sua propriedade. O gado era ainda criado à velha moda extensiva, mantendo em sua fazenda uma pequena farmácia para atender a quem necessitasse, em troca apenas de gratidão, num mundo em que o dinheiro não pagava tudo e o progresso tinha um outro sentido. Valorizava-se as roupas de algodão, feitas com tecidos grossos fabricados nos teares movidos a pedal.

Passados os anos, resiste a nova cidade de Guapé, cujo município está entre dezenas de outros banhados pelo Lago de Furnas. A construção da usina hidrelétrica, na década de 1960, foi um momento marcante para a região, mas deixou marcas profundas no imaginário social. Depois de seis décadas, novas fontes de produção de energia são pesquisadas, visando menor impacto ao meio ambiente e às preciosidades culturais do interior do País.

O cenário descrito nesta crônica foi tema de uma reportagem publicada pela revista O Cruzeiro, de 9 de março de 1963, anunciando que, nos anos seguintes, a cidade seria apenas uma lembrança na memória dos seus antigos moradores ou apenas um retrato na parede, o que estava doendo muito na alma de seus moradores. Para finalizar, é oportuno observar que as palavras Guapé ou Aguapé, de origem indígena Tupi, designam plantas aquáticas que vivem sobre as águas. Para isso desenvolvem estruturas de adaptação para não submergir diante da força da gravidade. De forma análoga, os moradores da cidade daqueles dias resistiram, iniciando uma nova fase da história desse amplo espaço cultural que é o vale do Rio Grande. Afinal, quem soube diante dos desafios de um momento caminhar sobre as águas? Que essa Imagem de Luz sirva para auxiliarmos a romper os desafios da atualidade, nesse tempo nebuloso da terrível pandemia causada pelo novo coronavírus.

Capa da obra de Passos Maia, publicada em 1933, pela Edições Pongetti, 1933