CRÔNICA HISTÓRICA

Lago de Furnas é o Mar de Minas

Por: Luiz Carlos Pais | Categoria: Cultura | 10-06-2020 13:05 | 2115
Presidente Juscelino Kubitschek visita o canteiro de obras da Represa Hidrelétrica de Furnas
Presidente Juscelino Kubitschek visita o canteiro de obras da Represa Hidrelétrica de Furnas Foto de Reprodução

As obras da Represa Hidrelétrica de Furnas começaram no ano de 1958, quando Juscelino Kubitschek de Oliveira, após governar Minas, exercia a Presidência da República. Brasília estava em construção e predominava um clima de grande euforia, desenvolvimento econômico e esperança por dias melhores. Ficou na história a frase simbólica do renomado político, que pretendia alcançar o progresso de “cinquenta anos em cinco”. Um dos principais desafios daquele momento era a expansão da produção de energia elétrica para os setores industrial, comercial e residencial. Em diferentes periódicos de circulação nacional, a construção da famosa usina hidrelétrica passou a ser anunciada como “a redenção industrial do Brasil”, como ficou registrado em artigo publicado no jornal Lavoura e Comércio, de Uberaba, no Triângulo Mineiro.

Naquele momento, estava constituída a Central Elétrica de Furnas, por iniciativa do Governo Federal, com sede em Passos, vizinha a São Sebastião do Paraíso, polos econômicos, culturais e históricos do Sudoeste Mineiro. Mais precisamente a empresa foi autorizada a funcionar pelo decreto no 41066, de 28 de fevereiro de 1957, documento venerado como como certidão para o desenvolvimento da região e do Brasil. O experiente político mineiro conhecia as especificidades políticas do Sudoeste Mineiro.

Desde a fatídico episódio que ficou na história regional como “Tragédia no Fórum de Passos”, em 1909, entendia-se que qualquer projeto político nacional não teria sucesso sem reconhecer a importância desse cantão mineiro com suas tantas histórias, culturas e riquezas. Naquele momento, tratava-se do maior empreendimento no gênero, inserido no projeto tutelado pelo Poder Executivo, reunindo ações do Branco do Brasil, Petrobras, Companhia Siderúrgica Nacional, entre outras empresas. O capital de constituição da grande companhia era de “cento e cinquenta milhões de cruzeiros”, cifra até então não alcançada no setor público a não ser a construção da nova capital federal.

Tudo isso foi motivo de orgulho e esperança por dias melhores para o Sudoeste Mineiro, vasto território com dezenas de municípios, limitado por terras paulistas e pela margem esquerda do Rio Grande. Para ilustrar a amplitude do projeto, a formação do Lago de Furnas, que ficou conhecido na época, como “Mar de Minas”, cumpre observar que foi necessário realizar a transposição do rio Piumhi, alterando seu curso natural para viabilizar a formação do reservatório. O referido rio era um dos afluentes do médio Rio Grande e essa obra foi necessária para não inundar a cidade de Capitólio. Assim, as águas deixaram de correr para a Bacia do Paraná e passaram para a Bacia do São Francisco, alterando amplamente a cadeia ecológica estabelecida.

Somente anos depois, passou-se a ter maior consciência quanto aos rigores impostos pela natureza na realização de grandes obras de engenharia. Ficou na história esses dias agitados, cujas notícias preenchiam o cotidiano que eu mesmo vivenciei no início dos anos 60. Por ironia da história, a obra iniciada na fase democrática foi inaugurada somente o início do Governo Militar. Passados 60 anos, não compete à leitura histórica julgar ou glorificar os homens daquele tempo, suas escolhas e o legado que souberam deixar para as gerações posteriores.

Revista Manchete. Rio de Janeiro, 23 de março de 1957