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GUILHERME ÁVILA: Um profissional que cultiva o amor e respeito ao próximo

A mudança é necessária para nosso bem, veja o próximo como uma extensão de seu corpo e cultive o amor
Por: João Oliveira | Categoria: Entretenimento | 25-07-2020 11:08 | 679
Guilherme Ávila é fisioterapeuta e integra a equipe multidisciplinar da AMA em São Sebastião do Paraíso
Guilherme Ávila é fisioterapeuta e integra a equipe multidisciplinar da AMA em São Sebastião do Paraíso Foto de Arquivo Pessoal

O fisioterapeuta Guilherme Ávila é um paraisense que gosta de música e futebol, e desde muito jovem, no seio familiar, aprendeu a cultivar o amor e respeito pelo próximo, princípios que ele busca ensinar para seu filho, o pequeno Raul Caetano Ávila. Guilherme integra a equipe multidisciplinar da Associação de Amigos do Autista (AMA), onde começou como voluntário e realiza um trabalho essencial, que vem ajudando diversas famílias que necessitam deste atendimento. Filho de Afonso de Ávila e Márcia Aparecida Marques Ávila, aos 32 anos ele busca viver tentando deixar o melhor possível para o próximo e lembra: “É sempre importante respeitar a todos, independentemente de seu gênero, raça, religião e posição social”.

Jornal do Sudoeste: Você foi criado em Paraíso, conte-nos um pouco das suas memórias da infância. Onde cresceu, o que gostava de fazer e o que sente saudade.
G.A: Minha infância foi vivida em nossa cidade mesmo, foi um tempo muito alegre. Fui criado no Conjunto Monsenhor Mancini, onde havia muitas crianças por perto e que ainda fazem parte da minha vida. Nunca fui uma pessoa de muitas “artes”, mas tínhamos bastante campo para brincadeiras de todo o tipo, o bairro era muito tranquilo e sempre estávamos na rua com a molecada. Carrinho de rolimã, pipa e, principalmente, o futebol fazia parte do nosso cotidiano. Sempre amei futebol e joguei pelos times da cidade como a Praça de Esportes, Cruzeirinho e Operário, além de representar Paraíso em campeonatos de futsal. Sou filho único, e no meu lar sempre houve exemplos de amor ao próximo e retidão moral, sempre pensando no outro em primeiro lugar! Foi uma infância muito feliz e tranquila. Daquela época, o que me traz muita saudade é o meu pai, que já é desencarnado e sempre foi muito presente em todos os estágios de minha vida e me ensinou muito sobre ela!
 

Jornal do Sudoeste: Sobre seu núcleo familiar, que importância a família teve para sua construção enquanto indivíduo?
G.A: A família, como disse, me ensinou muito sobre tudo. Apesar de ser filho único, nunca tive grandes facilidades, sempre me ensinaram o valor das coisas e nada era muito fácil de se conquistar. O que reinava em minha casa era o amor que tínhamos uns aos outros e ainda temos. Eles são tudo em minha trajetória e devo tudo a eles, assim como tento repassar isso ao meu filho.

Jornal do Sudoeste: Sobre a adolescência, era um jovem que gostava de se divertir? Quais eram seus hobbies?
G.A: Fui um adolescente tranquilo, sempre gostei muito de me divertir em festas da cidade, shows e com meus amigos, que tenho muitos. Passei ainda uma boa parte dessa fase no futebol e comecei a me aprofundar e a refinar o meu gosto musical, formando ainda meu gosto pela arte em geral. É uma fase de grandes descobertas, e nessa época tive muita ajuda de grandes amigos que também são muito importantes em minha vida, até hoje guardo um carinho imenso por todos eles.

Jornal do Sudoeste: Conte-nos um pouco sobre sua formação acadêmica. Onde estudou e quais lembranças marcantes têm desta época?
G.A: Iniciei minha fase escolar na escola Pingo de Gente, que logo saí e fui pra uma antiga escola da rede municipal que se chamava “Três Porquinhos”. A minha primeira fase do ensino fundamental foi feita na escola, que na época ainda era estadual, o “Noraldino Lima”. Já passando para a fase final do ensino fundamental, estudei na tradicional escola “Paraisense” e o ensino médio foi realizado no “Ditão”. Nunca fui um aluno excelente, sempre comemorei a nota 6 (risos), mas sempre fui aprovado e nunca repeti uma série. Após minha formação no ensino médio, cursei um ano de cursinho pré-vestibular no colégio Objetivo, onde, além de me uma oferecer uma base teórica maior, me ajudou a amadurecer e escolher o curso que eu realmente queria. No ensino superior, fiz viagens diárias a Batatais, conciliando com meu emprego na época. Era extremamente cansativo, mas consegui aproveitar ao máximo todos os ensinamentos. Por fim, morei por dois anos na cidade que estudava, onde realizei estágios em várias áreas da fisioterapia e também morei por alguns meses em Ribeirão Preto, fazendo estágio no hospital Estadual e em Barretos, onde tive uma grande experiência de estagiar no Hospital do Câncer de lá. Todas as lembranças que eu trago desta época são dos grandes amigos que fiz e dos mestres que me ajudaram em toda trajetória. Aliás, mestres que devem ser sempre muito valorizados por todos!

Jornal do Sudoeste: Por que optou por estudar Fisioterapia? E como foi esta experiência?
G.A: Entrei na faculdade aos 18 anos, e meus pais sempre me deram toda liberdade de escolha. De início, a gente lê sobre o curso, mas não tem muita noção do que vai encontrar no caminho. Entrei muito pela parte esportiva, que sempre foi minha paixão, porém, ao passar dos anos de estudo, fui me apaixonando pela parte neurológica e, principalmente, pela neurologia infantil e de idosos. Na universidade, após passar por diversas áreas de estágio, tinha certeza que sairia pra trabalhar com este público, que hoje é o meu grande amor e que luto todos os dias pra dar uma melhor perspectiva de vida a todos eles, sem distinção de qualquer coisa que seja! A fisioterapia é uma área linda de se trabalhar, é preciso muito amor ao ser humano e muito estudo para sempre levar o melhor às pessoas!

Jornal do Sudoeste: Conte-nos um pouco da sua trajetória profissional...
G.A: Formei-me em 2011, logo comecei a realizar atendimentos domiciliares. No mesmo ano, iniciei um trabalho voluntário na AMA de nossa cidade, onde continuei como voluntário até fevereiro de 2012. Após este período fui contratado como fisioterapeuta da equipe multidisciplinar da instituição. Passando alguns meses, fui também contratado para participar da equipe da equoterapia Amorequo, que me deu muita base teórica e experiência em minha vida (as atividades desenvolvidas por lá são maravilhosas e muito importantes). Trabalhei com a equoterapia até o ano de 2018, continuando depois com a AMA e com os atendimentos domiciliares, onde estou até hoje.

Jornal do Sudoeste: Qual a importância da Fisioterapia no acompanhamento da pessoa autista?
G.A: A equipe multidisciplinar é essencial no desenvolvimento do indivíduo autista, é preciso realizar um atendimento o mais precoce possível. Eu, como fisioterapeuta, atuo nas áreas de terapia sensório-motoras, psicomotricidade e também em atividades que visam evitar problemas físicos. Porém, é importante manter uma visão multidisciplinar aos autistas e não ficar preso em situações particulares, mas dentro de sua área, ajudar no desenvolvimento global do indivíduo.

Jornal do Sudoeste: Como tem sido lidar com pessoas autistas? Você sente que a sociedade ainda não compreende o que é o espectro autista?
G.A: Eu amo trabalhar com autismo, é uma área pouco associada à fisioterapia, mas me descobri trabalhando com esta patologia. Eles me fazem muito feliz, assim como também tento retribuir e levar um alívio para eles através da minha especialidade. A sociedade tem caminhado para uma abordagem mais humanística em todas as áreas, e o autismo tem sido colocado em evidência de uns anos pra cá. É importante que todos procurem ler sobre o assunto, e não só ficarmos nas bases teóricas, mas visitar a nossa instituição e conhecer, para podermos desmistificar o espectro. A mídia tem feito um bom trabalho, há uma gama de séries, filmes, livros e novelas que tocam no assunto, mas abordam a parte florida do autismo, que por ser um espectro existe um leque de comportamentos diferentes que são negligenciados nas telinhas de TV e páginas de livros. É sempre importante ressaltar a importância da família no desenvolvimento do autismo, a família que se sentir em dúvida sobre o diagnóstico e achar que seu filho se enquadra em algum comportamento do espectro, pode nos procurar na AMA.

Jornal do Sudoeste: A AMA é uma referência no atendimento ao autista. Como é fazer parte desse time de profissionais?
G.A: Sim, somos referência em todo Estado de Minas Gerais, aliás somos a única AMA do nosso estado. É um prazer imenso fazer parte desta equipe, são profissionais das áreas de pedagogia (Vanessa, Patrícia, Mayra e Márcia) terapia ocupacional (Raíssa), psicologia (Rayane), fonoaudiologia (Karla e Daniela), cozinheira (Cida), motorista (Maurício), secretária (Cidinha) e na limpeza (Marina), todos capacitados e muito competentes em suas áreas, além da diretoria e da nossa presidente Maria Helena Pessoni, que desprendem do seu tempo para voluntariar e ajudar diversas famílias!

Jornal do Sudoeste: Você também é pai. Isto mudou a sua vida?
G.A: Mudou muito, e para melhor. O meu filho é uma criança maravilhosa e muito inteligente. Sempre digo que ele me ensina todos os dias, o amor que sentimos por esses pequenos é uma coisa inexplicável e sem pedir nada em troca. Ao fazê-lo feliz, eu me sinto feliz!

Jornal do Sudoeste: Qual é o legado que quer deixar para seu filho?
G.A: Quero sempre mostrar a ele que vale a pena lutar por pessoas que estão em posições de vulnerabilidade, somos todos iguais dentro da grande caixa que é a humanidade, mas temos oportunidades diferentes e se estamos em um lugar melhor hoje, amanhã podemos não estar. É sempre importante respeitar a todos, independente de seu gênero, raça, religião e posição social.

Jornal do Sudoeste: Você é fã de música. O que mais ouve e o que mais recomenda? Por quê?
G.A: As produções artísticas em geral são minha grande paixão. Ouço muitos discos, novos e antigos, adoro conhecer sons novos. Vou indicar de início os clássicos que tanto amo, como Beatles e Rolling Stones, agora, na minha adolescência, fui muito influenciado pelo indie rock, como Strokes e Arctic Monkeys. Agora, do Brasil, acho importante que todas pessoas conheçam a história do Tropicalismo, pra mim, foi o último grande movimento artístico que movimentou todas as áreas da arte. Ouçam Caetano, Gil, Mutantes, Tom Zé, Gal e tudo que veio a partir disso! Hoje escuto de tudo um pouco, claro, dentro de um limite (há muita coisa ruim rodando por aí), mas se procurar vocês vão achar coisas boas sendo produzidas hoje.

Jornal do Sudoeste: Quais são seus hobbies hoje em dia?
G.A: Ainda gosto muito de jogar futebol (apesar de ainda não estar jogando, pela pandemia), correr, escuto música quase o dia todo, “arranhar” uma guitarra e violão, adoro assistir filmes e ver séries, assistir meu Palmeiras (claro), estar entre amigos (saudade deles) e o meu principal hobbie é brincar e estar com meu filho Raul, ele é muito bom! 

Jornal do Sudoeste: Qual mensagem você deixa para nossos leitores nesse momento de pandemia que enfrentamos?
G.A: Sempre digo para aproveitarem esse tempo para se conhecerem melhor, a vida é muito boa para vivermos cultivando as velhas convicções. A mudança é necessária para nosso bem, veja o próximo como uma extensão de seu corpo e cultive o amor, só ele vai nos salvar! E como diz Chico: “Vai passar”!

Jornal do Sudoeste: Qual o balanço que você faz da sua trajetória até aqui?
G.A: Sou muito feliz por tudo que fiz até hoje, errei muito, mas todos os erros me fizeram crescer e com certeza estou caminhando sempre para uma evolução espiritual e moral! Muito obrigado e fiquei muito emocionado com o convite para esta entrevista!