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Marina Silenciato: Usando a moda como ferramenta de aceitação e amor próprio

“Mesmo nas coisas ruins eu consegui enxergar o crescimento”
Por: João Oliveira | Categoria: Entretenimento | 09-08-2020 18:35 | 629
Formada em Moda e Design pela Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG), Marina atua como consultora de imagem e personal organizer
Formada em Moda e Design pela Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG), Marina atua como consultora de imagem e personal organizer Foto de Iuri Müller

A estilista Marina Lenise de Oliveira Silenciato é uma jovem que carrega na vida, marcas que a mudaram completamente e que, não fosse sua paixão pela moda, teriam feito com que desistisse dos seus sonhos. Ao longo dos seus 29 anos, ela conseguiu fazer de suas dores, combustível para tornar a moda uma ferramenta que pudesse ajudar outros a se sentirem bem e felizes com a sua própria imagem. Filha de Moracy Silenciato e Maria Helena de Oliveira Silenciato (em memória), e irmã de Marília Silenciato, hoje Marina está às vias de tornar realidade um de seus maiores sonho: finalizar um espaço onde possa trabalhar com moda sustentável e convergir todas as suas atividades, entre elas consultoria de moda e estilo e organização.

Jornal do Sudoeste: Conte-nos como foram os primeiros anos de sua vida...
M.L.O.S: Até os seis anos morei em um sítio que era do meu pai, ele é agricultor. Nesta idade, vim para Paraíso estudar. Minha mãe era professora, e tanto a minha educação quanto a da minha irmã eram prioridade. Morei praticamente a vida toda na casa onde estou atualmente, no bairro Lagoinha. Mudei apenas quando minha mãe ficou doente, e fomos para uma casa onde não tivesses escada, para que ela não se machucasse.

Jornal do Sudoeste: Como era sua relação familiar?
M.L.O.S: Foi incrível. A minha mãe era professora e meu pai agricultor, e tenho uma irmã dois anos e meio mais nova, e sempre fomos muito unidas, temos uma conexão muito forte. Eu perdi minha mãe há quatro anos, mas ela construiu uma base familiar muito forte para que déssemos continuidade a isso.

Jornal do Sudoeste: Como foi a perda dessa mãe para você?
M.L.O.S: Hoje em dia entendo mais como a vida acontecendo, os ciclos que cada um tem que cumprir. Foi muito dolorido porque minha mãe era a base, foi quem nos deu essa base sólida. Falo que já passei pela maior dor de amor que existe em todo o universo, e a partir daí passei a resignificar o que é o amor. Foi um processo interessante, e cresci muito com essa perda. Minha mãe deixou a gente pronta.

Jornal do Sudoeste: Na infância, era uma menina moleca ou gostava mais de ficar em casa brincando com bonecas?
M.L.O.S: Nunca fui muito das bonecas, apesar de ter bastante. Eu me envolvia mais com as roupas das bonecas, gostava de criar roupas para elas. Quando criança, meus pais não deixavam a gente sair muito na rua para brincar. Eu sempre estudei muito e esperava chegar o fim de semana para ir para a roça brincar com meus primos. Lembro-me também que minhas tias tinham uma loja no lado de cima da minha casa, onde eu ficava muito. Sempre tive muito contato com roupa, é uma das influências que eu também tinha, porque já gostava muito desta questão visual, da composição de roupas e desde muito pequena eu escolho o que vestir. Acredito que já esteja no meu sangue. Minha avó paterna, por exemplo, costurava, a minha madrinha materna costura até hoje e pagou a faculdade com este ofício, apesar de ter ido para a área da educação. Sempre tive muito contato com esse mundo da moda.

Jornal do Sudoeste: Mas nem tudo foram flores. Como foi crescer observando o mundo da moda?
M.L.O.S: À medida que eu ia crescendo, começaram a surgir os primeiros distúrbios de imagem. Foi quando eu comecei a engordar, a ter problemas com meu próprio corpo. A partir daí resolvi fazer da moda uma ferramenta de aceitação. Decidi estudar Moda porque sempre quis que as pessoas se sentissem felizes e aceitas com seu próprio visual, independente do seu biotipo. Foi também uma ferramenta de libertação, para que eu pudesse ajudar as pessoas a gostarem da imagem que elas refletem no espelho.

Jornal do Sudoeste: Somos bombardeados desde sempre que imagem do corpo sarado é o corpo perfeito. Isso foi um problema para você?
M.L.O.S: Muito. Vivi os anos 90, quando a Britney Spears estava usando calça baixa e barriga para fora. Eu não entendia que meu corpo era curvilíneo, que minhas formas eram arredondadas, eu queria ter as formas lineares da Britney. O corpo sempre foi uma questão, essa pressão para emagrecer, além do movimento estético que havia naquela época, em que as pessoas eram magras e tinham que ser magras. Isso acarretou muito transtornos.

Jornal do Sudoeste: A moda mudou muito, não?
M.L.O.S.: Sim, hoje nós falamos muito mais de estilo que de tendência. E a moda, acho que está partindo para uma vida útil cíclica, as pessoas estão entendendo mais esse conceito, e de que todo mundo pode usar tudo e o tempo todo. Entra nisto uma consciência mais sustentável, é a pontinha do iceberg. Quando falamos desta nova roupagem da moda, nós falamos também de sustentabilidade. Isso muda em relação ao passado, quando as roupas eram feitas para ter seis meses de vida útil: era a concepção, a tendência, a massificação e ponta de estoque. Mudou bastante.

Jornal do Sudoeste: Moda sempre foi sua vocação?
M.L.O.S: Sim. Hoje estou em busca de maneiras que possam fazer com que a moda contribua para mudar a vida das pessoas. Quando falo de moda, não é para ganhar dinheiro, apesar de ser onde eu quero tirar meu sustento. Porém, é sobre ajudar outras pessoas. Quando falo de moda, falo em aceitação, amor próprio, sobre tentar amenizar nas outras pessoas as dores que eu senti, e não quero que outras pessoas sofram com distúrbios de imagem, tais como os que eu sofri. E para isto temos uma ferramenta gigante, que é a moda. O meu trabalho vai além de tudo isso, é sobre amenizar um sentimento e fazer com que o outro se enxergue de uma maneira que ele goste. Eu quero poder captar a essência destas pessoas e transformá-las em imagem.

Jornal do Sudoeste: Como foi esse processo de formação...
M.L.O.S: Inicialmente eu fiz Arquitetura, mas não era o que eu queria. Abandonei essa faculdade, mas não queria ficar sem estudar, então comecei a fazer Contabilidade aqui, mas fiz só seis meses, não era minha vocação. A partir daí comecei a pesquisar faculdades de Moda, e tinha em Franca e na Fesp em Passos, hoje UEMG. Quando estava para me formar, a faculdade foi estadualizada, e sempre foi meu sonho estudar em uma universidade federal/estadual, muito embora eu soubesse que tinha capacidade para isso. Nos três primeiros meses de curso, fui contratada pela Duzani para trabalhar no setor de criação, e a partir daí tudo mudou para mim. Depois de três meses como estagiária, fui contratada como Auxiliar de Estilista, e fiquei na empresa cerca de dois anos, mas aconteceram algumas coisas tristes no meio desse caminho.

Jornal do Sudoeste: O que mudou?
M.L.O.S: Quando eu estava no final no primeiro ano, minha mãe começou a perder a visão. E o tratamento dela era muito caro. Durante esse processo eu precisei fazer a rematrícula da faculdade, mas faltou R$ 50, que paguei quatro dias depois, no entanto cancelaram a minha matrícula. Fiquei um ano afastada da faculdade, cumprindo apenas as matérias que eu estava de dependência, então o curso que eu teria concluído em três anos, eu fiz em quatro. Faltando três meses para concluir, a faculdade estadualizou e, assim, realizei um sonho que era me formar em uma universidade pública. Meu diploma é da UEMG. Acredito que tudo na vida tem um propósito. Minha mãe me viu apresentar o TCC, e embora preocupada com esse meu futuro, entendeu que tinha nascido para aquilo. Foi um processo muito interessante de desconstrução e construção, e como diria Caetano Veloso, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.

Jornal do Sudoeste: E depois de formada?
M.L.O.S: Quando me formei, já prestava serviço para a Jugley em Paraíso, até ela fechar. A partir daí continuei trabalhando, sempre fazendo muita produção de moda para as empresas em Paraíso. Durante um tempo, trabalhei também como gerente de festa, no Buffet Itália, até 2018. Já em 2019 eu estava muito saturada, porque Paraíso ainda é uma cidade muito fechada para a moda e então decidi fazer licenciatura em História, que é uma área do conhecimento que eu realmente gosto e, se nada desse certo, eu prestaria um concurso. Até então eu não tinha uma autonomia para criar uma oportunidade.

Jornal do Sudoeste: A pandemia não foi tão ruim para você, foi?
M.L.O.S: Foi uma boa oportunidade para mim, porque resgatou essa minha vocação. Eu sempre quis fazer um curso de consultoria de imagem e estilo da Belas Artes, mas eu não tinha condição financeira e nem psicológica para ir a São Paulo e ficar vários dias fazendo esse curso que só tinha presencialmente. Com a pandemia, eles disponibilizaram o curso online, e consegui fazer. Peguei um dinheiro, investi e revivi a moda. Então voltei mais ativa do que nunca. A partir daí, comecei a mudar a imagem do meu Instagram, tornando-o mais profissional. Eu profissionalizei o meu trabalho, criei uma empresa e agora sou autônoma e estou trabalhando com moda, com organização e imagem e estilo pessoal. Todos os valores que eu citei sobre a moda, comecei a tirar do papel e a trabalhar na prática: que é fazer as pessoas se aceitarem e amar o que veem no espelho.

Jornal do Sudoeste: Quais são os planos agora?
M.L.O.S: Quero montar minha loja de moda sustentável, e estou em processo de reforma do meu espaço, que já está tudo definido. Faltava apenas o espaço, porque todos os meus trabalhos vão se complementar. Por um futuro próximo, tem surpresas chegando.

Jornal do Sudoeste: Qual a mensagem que você deixa para nossos leitores?
M.L.O.S: Tem uma frase da Cris Guerra que me acompanha desde a época da faculdade que é uma verdadeira reflexão: a moda, assim como a arte, torna a vida mais suportável. Então, a reflexão que eu gostaria de deixar, é que passemos a enxergar a moda, ou ato de vestir, não como algo fútil, mas sim uma ferramenta para transforma a vida em algo mais suportável, principalmente tendo em vista o momento que estamos passando.

Jornal do Sudoeste: Qual é o balanço que você faz desses 29 anos?
M.L.O.S: Foram 29 anos muito bem vividos, hoje em dia eu me conheço. Foram 29 anos bem intensos e, para resumir essa intensidade toda, falo de autoconhecimento, introspecção, empatia. Com tudo o que vivi, tanto coisas boas, como coisas ruins, aprendi a enxergar o meu lugar para conseguir enxergar o lugar do outro. Mesmo nas coisas ruins eu consegui enxergar o crescimento. Até agora, minha vida foi muito intensa e de muito aprendizado. Resumindo: aprendizado todos os dias, mesmo nas coisas ruins e saber enxergar nestas algo positivo.