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Nêila Carvalho: a psicologia como ferramenta para a promoção da saúde e bem-estar

“Como nos ensina Dostoiévski: para voar é preciso ter coragem de enfrentar o terror do vazio. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas”
Por: João Oliveira | Categoria: Entretenimento | 31-08-2020 10:25 | 426
A psicóloga Nêila Carvalho atuou na educação durante anos, até buscar formação na área de psicologia
A psicóloga Nêila Carvalho atuou na educação durante anos, até buscar formação na área de psicologia Foto de Arquivo Pessoal/Nêila Carvalho

Nesta semana celebrou-se o Dia do Psicólogo, em 27 de agosto, data em que a profissão foi regulamentada no País. Em homenagem a esses profissionais, conhecemos a história da psicóloga Nêila Aparecida de Carvalho. Antes de atuar como psicóloga, Nêila foi professora, mas entender a psiquê humana sempre foi algo que ela quis e, diante da primeira oportunidade, agarrou esse sonho e se formou, buscando sempre se especializar e se manter atualizada. De origem humilde, com muita luta e dedicação foi construindo seu caminho. Filha de Paulo Roberto de Carvalho (em memória) e Ilda Martins de Carvalho, casada com Gaspar Faustino Assunção, hoje ela abre espaço para contar um pouco da sua trajetória e revistar suas memórias mais preciosas.

Jornal do Sudoeste: Dizem que a primeira infância é uma fase fundamental da formação de um indivíduo. Como foi esse período para você?
N.A.C.: Minha infância foi marcada por uma vida simples na zona rural. Cercada pelo cuidado e carinho de meus pais e o convívio com minha irmã, Sônia, menos de um ano mais nova que eu. Sempre fui curiosa e sonhadora. Tenho lembranças muito afetivas do tempo dos encontros com os primos, brincadeiras e criatividade. As bonecas eram feitas de espigas de milho, sabugo e construíamos nossas casinhas usando barro, gravetos e objetos da natureza. Considero que foi essencial para despertar o desejo pelo conhecimento e compreensão do funcionamento do universo.

Jornal do Sudoeste: Conte-nos um pouco sobre sua família. Seus pais, suas raízes, os momentos marcantes que guarda dessa época em sua vida...
N.A.C.: Carvalho é um sobrenome forte para nós. Tanto que meu pai e minha mãe têm esse sobrenome. Remete-me à árvore que é milenar e de grande resistência. Penso que somos assim. Uma família pequena, eu sou a primogênita e tenho duas irmãs: Sônia e Danielle. Assim como eu, elas também são da área da educação e mulheres empoderadas, criativas e determinadas. Minhas irmãs me presentearam com cinco sobrinhos que são minhas pérolas. E agora estou na expectativa de conhecer a minha segunda sobrinha-neta que nasce no dia 31 de agosto. Sem contar que tenho um número grande de sobrinhos por parte de meu esposo, que são muito queridos.  Meus pais, de origem humilde, nunca mediram esforços para nos proporcionar a melhor educação. Aprendi com eles valores essenciais: preservar o nome, honestidade e valorização da vida. Meu pai era um apaixonado pela terra e me ensinou a apreciar a natureza e também a lutar pela sua preservação. Com minha mãe aprendi a ser solidária, colo que acolhe. Vivi na zona rural até sete anos, quando vim para a cidade para poder estudar. Uma época de muitos desafios, dificuldades e, também, de descobertas. São memórias recheadas de aprendizagem. As idas e vindas para Paraíso na boleia de caminhão de leite, outras vezes de carona e de ônibus. No período de férias os encontros com os primos na casa de minha avó materna, com tanta afetividade e peraltices. Desde muito pequena tinha o sonho de ser professora. Carreira que exerci durante 27 anos, a maior parte dela no Colégio Paula Frassinetti. Tenho uma formação cristã católica e fui catequista durante 30 anos, período em que me proporcionou um crescimento espiritual sólido. Sou profundamente grata a todos que contribuíram para minha formação pessoal e profissional. De modo muito especial aos meus pais que me ensinaram desde muito pequena que o maior patrimônio que temos na vida é a educação, a busca pelo conhecimento.

Jornal do Sudoeste: Sobre sua formação escolar. Onde estudou? O que mais gostava na escola, quais lembranças boas tem desse período? Quem te inspirou...
N.A.C.: Minha formação escolar se deu em três ambientes muito especiais: os primeiros anos escolares foram na Escola Estadual Coronel José Cândido, onde tive professores de suma importância na minha formação. Consigo lembrar do primeiro dia que fui à escola, o cheiro do lugar, o olhar acolhedor de minha professora... quantas lembranças! Uma inesquecível: quando escrevi uma produção de texto falando sobre minhas férias e ganhei um prêmio pela clareza com que descrevi minhas férias na roça. Os anos finais do Ensino Fundamental foram na Escola Estadual Paraisense, onde fui fortemente influenciada na minha escolha profissional – cursando Matemática – pelas minhas professoras que ensinavam com clareza, amor e dedicação. E fiz o curso de Magistério na Escola Estadual Benedito Ferreira Calafiori, período em que tive maior contato com as questões da subjetividade humana e que foram me despertando maior curiosidade pelos mistérios da mente humana.

Jornal do Sudoeste: Por que decidiu estudar psicologia? O que a motivou? Enfrentou muitos desafios?
N.A.C.: A Psicologia era um sonho de adolescência e precisou ser adiado devido às condições financeiras que me levaram a seguir outros caminhos, os quais considero terem sido essenciais para minha formação como Psicóloga. O que me motivou a fazer o curso de Psicologia foi que desde muito jovem tive interesse pela convivência e organização em grupo, os diversos questionamentos e inquietações sobre o ser humano. Também minha caminhada pela educação no contato com crianças e adolescentes me levaram a querer buscar conhecimentos mais específicos sobre o inconsciente e funcionamento psíquico do indivíduo. Em 2006, através de uma amiga fiquei sabendo da possibilidade de fazer o curso de Psicologia Noturno na UNIFRAN – Universidade de Franca. Senti que era o meu momento! Com o apoio do meu marido resolvi então abraçar mais uma vez o curso universitário. E me encantei pelo conhecimento da mente humana. Foram cinco anos de intenso estudo, viagens diárias para Franca, período em que continuava trabalhando como professora e fazendo o curso de Psicologia. Momentos incríveis, de muitos desafios. Mas, tão entusiasmada que estava, os enfrentava com determinação e alegria.

Jornal do Sudoeste: Conte-nos um pouco da sua trajetória profissional...
N.A.C.: Sou psicóloga há 10 anos. Trabalhei um ano na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE). Hoje tenho consultório particular, onde atendo adolescentes, adultos e idosos. Fiz um curso de três anos em Ribeirão Preto de Psicoterapia de Orientação Psicanalítica. Sempre que possível participo de eventos relacionados à Psicologia e Psicanálise. Atualmente, faço cursos em plataformas on-line e também ministro algumas palestras em escolas e instituições, levando um pouco do meu conhecimento; pois creio que devemos semear o conhecimento para que outras pessoas também possam ter acesso.

Jornal do Sudoeste: Nesta semana celebrou-se o Dia do Psicólogo. Qual a importância da data e, para além disto, da profissão de psicólogo?
N.A.C.: O Dia do Psicólogo é comemorado no dia 27 de agosto, data em que a profissão foi regulamentada no Brasil, em 1964. Mais que uma data, a Psicologia é uma Ciência nova em nosso País e está buscando sua consolidação. Completou 56 anos. A Psicologia é fundamental para o conhecimento do funcionamento do psiquismo humano e auxilia o indivíduo na busca de seu melhor bem-estar emocional e com isso contribui para a saúde mental de qualidade.

Jornal do Sudoeste: A valorização do profissional é importante. A profissão tem sido mais valorizada no nosso município?
N.A.C.: A valorização do profissional da Psicologia está se consolidando no País e tem se percebido a necessidade cada vez maior que ele esteja em todas as frentes: educacional, institucional, saúde e organizacional. Cada dia mais este profissional vem assumindo seu lugar de importância nos atendimentos multidisciplinares em nosso município. E, no dia do psicólogo, foi aprovada a lei que insere a Psicologia na Educação.

Jornal do Sudoeste: Você sente que as pessoas, hoje, estão mais dispostas a procurar um profissional pensando na saúde mental?
N.A.C.: Hoje há uma abertura maior para a busca de um tratamento psicológico, visando o autoconhecimento. No processo terapêutico, o indivíduo vai aprender a lidar melhor com seus sentimentos e emoções, o que o levará a lidar melhor com sua vida pessoal, seus relacionamentos e sua vida profissional. Faz-se necessário haver uma mudança de paradigma em que, muitas vezes, as pessoas imaginam que devam buscar auxílio somente em momentos extremos, como: depressão, ansiedade, luto. A terapia deve ser vista como prevenção. Lembre-se de procurar sempre um profissional habilitado para um acompanhamento sólido.

Jornal do Sudoeste:  Percebo que você gosta de escrever, publicar pensamentos e textos reflexivos. De onde vêm essas inspirações?
N.A.C.: A escrita é uma semente que está germinando. Penso que ela está sendo gestada desde sempre...(risos). Mas não se sabe de onde vem e nem como vem. Segundo minha querida amiga e inspiradora Dalila Cruvinel: “A escrita brota de um lugar desconhecido, com uma força incontida... não sabemos onde chegaremos, porém, a necessidade de dar voz aos sentimentos, inquietações é sempre maior”.  Desde criança sou uma leitora voraz. Na minha adolescência eu ficava horas a fio na Biblioteca Comunitária – ao lado da Escola Municipal Campos do Amaral, onde li toda a coleção de Érico Veríssimo, Guimarães Rosa, Monteiro Lobato, toda a Coleção Vagalume. Emociono-me ao revisitar essas recordações. Aos 15 anos descobri os encantos dos poemas de Fernando Pessoa e seus Heterônimos. Tenho paixão por Adélia Prado, Cecília Meireles, Clarice Lispector, Rubem Alves, Roseana Murray, Manoel de Barros, Carlos Drummond de Andrade, Mario Andrade, Dalila Cruvinel, Mia Couto...E não posso me esquecer das horas sentada no tapete da sala de Dona Ana Ofélia lendo Sidney Sheldon, Raquel de Queiroz, Machado de Assis, Aluísio Azevedo e tantos outros.

Jornal do Sudoeste: Em meio esta pandemia, o que pode dizer aos nossos leitores?
N.A.C.: Tempos de muita estranheza. Estamos enfrentando uma luta gigantesca tanto no universo externo quanto em nosso universo interno. Quando poderíamos imaginar que um vírus (ser simples e pequeno) pudesse se impor de tal modo sobre nossas vidas? Ele está aí em todo seu potencial, nos deixando em um lugar de estranhamento, que, ao longo dos meses vamos percebendo uma avalanche de incertezas (e quando foi que acreditamos que haviam certezas?). Se não estamos amedrontados com a possibilidade de sermos contaminados ou termos alguém amado atingido, há o medo de perder o emprego, não ter condições financeiras de se manter, da desordem política, econômica e social. Sem contar em nossos medos e angústia internas. Daí surgem os impulsos mais diversos: comer excessivamente, abuso de álcool e drogas. Muitas vezes, ações sem pensamento, um pequeno prazer para apaziguar a dor.  No entanto, podemos lidar com todas essas emoções sem censurá-las. “Convide” esses sentimentos que são reais para conversar com eles.  A proposta é “pensar o pensamento “ para abrir espaço de transformação.  O momento pede-nos um olhar de compaixão, de respeito ao que se sente e o que o outro experimenta. Muitas das vezes, tentar exercitar a capacidade de pensamento nos coloca diante de um vazio necessário para que surja criatividade e se possa estabelecer novas conexões.  Olhar para si e se deixar surpreender pelo novo, esse é um dos desejos que move a esperança.  Como nos ensina Dostoiévski: “Para voar é preciso ter coragem de enfrentar o terror do vazio. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas”. A essência da vida é a incerteza. Se o tédio fizer parte dessa experiência que estamos vivendo, convide-o para lhe fazer companhia!

Jornal do Sudoeste: Você tem planos, metas, sonhos a serem realizados?
N.A.C.: Acredito que são os sonhos que nos movem na vida! Penso que uma existência não basta para realizar tudo que sonho. Ler todos os livros que desejo, escrever todos os pensamentos que estão em minha mente (quem sabe um livro autoral), fazer formação em Psicanálise, construir novos conhecimentos que é sempre inesgotável.

Jornal do Sudoeste: Qual o balanço que você faz da sua trajetória até aqui?
N.A.C.: Uma palavra define minha trajetória: Gratidão! Primeiramente a Deus pelo dom precioso da vida, aos meus pais e familiares que me ajudam a não me esquecer quem sou, meu marido Gaspar que me incentiva sempre e me fez descobrir a beleza da música com sua voz encantadora e seu jeito suave de tocar violão, a cada pessoa que fez e faz parte de minha trajetória. Cada uma com seu universo particular, quando em contato comigo me ensinam, me desafiam e me transformam. Sempre confiante de que podemos ser melhores. Penso que Manoel de Barros me define: “Quem anda no trilho é trem de ferro, sou água que corre entre pedras: liberdade caça jeito”. Agradeço à equipe do Jornal Sudoeste na pessoa de João Oliveira pela oportunidade de revisitar minhas memórias!