SETEMBRO AMARELO

Santa Casa faz campanha "Setembro Amarelo" para prevenção ao suicídio

Por: Roberto Nogueira | Categoria: Saúde | 02-09-2020 10:00 | 322
Foto de Divulgação

A Santa Casa de Misericórdia de São Sebastião do Paraíso realiza desde ontem, 1º de setembro uma campanha de conscientização e prevenção sobre o suicídio, denominada "Setembro Amarelo". Em entrevista ao Jornal do Sudoeste a psicóloga, Bruna Pádua Silva e o enfermeiro e coordenador da equipe multidisciplinar do hospital, Tobias Divino dos Santos falam sobre o trabalho que é realizado e da importância de se ter acolhida e oferecer atendimento. Somente em 2018 foram registradas pelo menos 87 tentativas de suicídio e agora no ano de 2020, em tempos de pandemia, a situação se agravou é o que revelam as estatísticas locais.

O Setembro Amarelo é uma campanha de prevenção do suicídio que tem por objetivo conscientizar as pessoas sobre a importância de se falar sobre o assunto e entender as questões que geram sofrimento, sabendo que é possível, sim, prevenir o suicídio. No mundo, por ano, quase 800 mil pessoas cometem suicídio e a situação é apontada como a quarta causa mais comum de morte entre os jovens. Segundo especialistas, nove em cada dez casos poderiam ser evitados se a pessoa buscasse ajuda ou se os sinais do problema fossem melhor avaliados.

Conforme a psicóloga Bruna Pádua Silva, a campanha Setembro Amarelo é uma iniciativa que ganhou cunho internacional e nacional. Muito se trabalha seguindo as normas da Organização Mundial da Saúde (OMS) que aponta para o suicídio como uma questão muito grave de saúde coletiva. "É muito importante que a gente tenha espaço para poder conversar a respeito e principalmente buscar a prevenção", comenta.

Neste ano a Santa Casa de Misericórdia em Paraíso pretende realizar um trabalho bem intenso de envolvimento de toda a comunidade. "Aqui no hospital, neste ano, utilizamos como símbolo da nossa campanha o girassol que tem toda a simbologia de ser uma flor que está ao redor do sol e lembra o nosso paciente, que desde o momento em que ele entra aqui, nestes casos, devemos estar prontos a oferecer um espaço em que nós podemos encontrar formas dele ter um apoio e um acolhimento, buscar toda esta rede de apoio", explica a psicóloga.

O trabalho teve início com a inauguração de um jardim simbólico de girassóis na manhã de ontem na Santa Casa. O espaço também terá um importante marco relacionado ao número de casos relacionados a 2019. "Infelizmente temos números altos referentes a nossa região e conforme os dados do ano passado foram 87 casos, somente de situações que chegaram até nós aqui", observa. Bruna ressalta que a quantidade de casos pode ser ainda muito maior considerando que há várias outras situações subnotificadas. "Na verdade este é um número alarmante, mas que na realidade, ele pode ser um pouco maior do que isso", diz.

Para o coordenador da equipe multidisciplinar da Santa Casa, Tobias Santos, nos últimos anos tem havido oscilações crescentes na quantidade de casos de suicídios e de tentativas. "Percebemos com o passar do tempo que esta média acaba crescendo, e é uma situação que muito nos preocupa", alerta. Ele ressalta, no entanto, que o trabalho de educativo tem funcionado como forma de prevenção quanto ao aparecimento de novos casos. "Um dos pontos que a gente conseguiu para quebrar este número que vem aumentando é a educação, usada como principal meio para conseguirmos atingir estas vítimas", aponta.

O enfermeiro frisa que até certo tempo atrás existia um tabu muito grande na sociedade quando se falava em tentativas e em suicídios consumados. "Hoje este tabu vem sendo quebrado e um dos principais fatores para conseguirmos romper esta cadeia, além da educação, é sabermos orientar estas pessoas, tratá-las e assim conseguirmos ajudá-las para que elas não cheguem a cometer este ato", destaca. Tobias afirma que "muitas vezes estas pessoas são julgadas erroneamente por atentarem contra a própria vida, mas na verdade não sabem a verdadeira causa, porque a pessoa só chega a tentar o autoextermínio a partir de um sofrimento muito grande". Este é o principal objetivo de se trabalhar a educação da população e quebrar a cadeia do preconceito, dos julgamentos e de outras causas das tentativas e dos suicídios ocorridos, fazendo com que estes números diminuam todos os anos e não deixar isso aumentar.

Indicações
De acordo com a psicóloga Bruna o suicídio é um fenômeno muito complexo e muito atuarial, o que isso significa não é só um fator que é identificado para fazer a compreensão do quadro do paciente. "É preciso entender que existem alguns fatores de risco. Então, havendo uma conversa, um diálogo já é importante para que as pessoas se atentem a estes fatores. Hoje a Associação Brasileira de Psiquiatria traz como correlação a existência de algum transtorno mental, então, 96% dos casos têm algum desencadeante relacionado a transtornos mentais que não estão em tratamento. É uma situação que esbarra bastante na questão da saúde mental, e também possibilita que a gente identifique outros fatores", opina.

Ela cita ainda que nos momentos de crise, por exemplo, como o da pandemia que está sendo vivenciada, é um momento que deixa as pessoas muito inseguras, com medo e isso pode ser desencadeante. "Muitas pesquisas relatam e trazem esta correlação referente a momento de crise, de desastres, eles podem mobilizar bastante. Há outros fatores também como fazer uso abusivo de álcool e drogas. Algumas parcelas da população encontram em vulnerabilidade, isso tudo pode aumentar a incidência", esclarece. Também se já houve uma tentativa anterior este é um dos maiores fatores de risco e a repetência desta ação, como o apresentar um histórico anterior de tentativa é também um fator que os médicos precisam ficar sempre atentos.

Bruna revela que durante a pandemia houve sim um aumento de tentativas, de suicídio. "É algo que as pesquisas já vêm mostrando em avaliações anteriores, como eu disse, em momentos de desastres, de crise, é esperado um aumento nas tentativas e infelizmente na execução também, então o aumento do suicídio ele é visível também nestes momentos", observa. Conforme a psicóloga as estatísticas mostram que a quantidade de tentativas neste período de pandemia equipara-se quase ao total de casos registrados durante o ano passado inteiro. "A gente percebe o quanto influencia e mais uma vez na saúde mental, o quanto é importante a gente falar de suicídio, mas também falar da importância do cuidado com a saúde mental são situações que estão muito atreladas", completa.

 

Ajuda

 

Segundo Tobias ao perceber alguém precisando de ajuda e atendimento é importante buscar apoio não só na família. "Existem situações em que a pessoa está se isolando, ou apresente algum outro indício, com pensamentos negativos, é importante procurar a orientação dos especialistas para se ter um diagnóstico, o quanto mais precoce melhor de ser tratado", ressalta. São detalhes como estes que a campanha Setembro Amarelo vai buscar evidenciar. "Vamos trabalhar isso inclusive com nossos funcionários, através de uma roda de conversa que realizaremos e está sendo organizada, observando as normas de distan-ciamento e para isso estamos buscando um local arejado. Daremos abertura aos nossos colegas de trabalho e todos os nossos colaboradores", acrescenta.

Neste sentido já estão sendo mobilizadas as duas psicólogas institucionais do hospital, mais uma terceirizada especialista nesta área de atendimento. Elas desenvolverão um trabalho com os funcionários para orientá-los e percebê-los e ajudá-los de alguma forma ao detectar alguma mudança no comportamento, na sua conversa. "Isso tudo é muito importante", assegura o coordenador.

Bruna Silva enfatiza que o trabalho preventivo deve ocorrer também durante outras épocas do ano. "Este é um trabalho complexo e precisa estar sempre em várias esferas. Muito importante que tenhamos estas discussões não só em um mês do ano, que sejam campanhas, ações que possam ser praticadas durante o ano todo e isso em todas as esferas desde a parte educativa, de saúde, de proteção", enumera. Ela destaca a importância de haver uma rede de atendimento disponível a todo momento para oferecer suporte não só na parte de prevenção, como nos demais cuidados. "Este paciente que chega aqui para nós, identificamos muito nele a questão da saúde mental que infelizmente é uma questão muito cara para a saúde, há falta de investimentos".

As barreiras enfrentadas para o cuidado com a saúde mental são entraves que atrapalham bastante. "É preciso pensarmos de maneira mais ampla também, cuidar da população através da saúde mental, fazer ações em conjunto com a população e conscien-tização". Outro ponto mencionado é trabalhar com os familiares na observação se está tendo alguma alteração de humor, de comportamento e compreender que falar de suicídio é algo que é preciso cada vez mais. "Há quem pense que falar sobre vá incentivar, mas, não é, na verdade é uma forma da gente poder acolher".

O mundo competitivo e impositivo também influencia neste quadro. "Estamos numa sociedade que preza muito pelo positivo, ter sucesso, tem que estar tudo bem e acaba não de-ixando espaço para o não estar bem. Neste momento, passamos por um momento difícil, então é preciso falar sobre o que não está bem, sobre o que incomoda", salienta. Importante criar uma cultura de acolhimento para estas questões também porque só assim é possível conseguir atingir esta camada para que não precise chegar ao ponto extremo, da internação. "Então com relação aos pacientes daqui temos uma preocupação muito grande com o depois. Aqui ele vai receber todo o cuidado necessário, mas nós pensamos no encaminhamento, no sobre o depois, sempre entramos em contato com a rede de saúde mental para que ela possa acompanhar este paciente, sempre pensamos neste trabalho pós"

Tobias reforça que não adianta apenas ter o lado curativo e é preciso entender que todo indivíduo que tenta uma vez ele pode ter uma recaída e tentar uma segunda ou terceira vez. "Por isso a importância deste trabalho que é realizado em conjunto com a rede que abrange o CAPS, o Hospital Gedor Silveira, e outras redes de atenção que nos dão este apoio para dar continuidade no trabalho". Além disso, o trabalho da psicologia é apontado como muito importante no hospital, porque às vezes pode-se até identificar possíveis vítimas de tentativas de suicídio numa abordagem que é feita com os pacientes internados aqui que foram ao hospital por outros motivos. "É no acolhimento, ou mesmo numa conversa elas acabam levantando isso e o encaminhamento já é iniciado a partir do hospital mesmo".

Outro indicativo apurado através dos casos atendidos refere-se a faixa etária. "Estudos da OMS revelam que nos últimos anos todas as faixas têm sido atingidas, mas há um maior risco entre pessoas com idade entre 15 e 29 anos. "São pessoas que estão em mudança. Percebe-se que o adolescente é invadido por muitas questões de vida como a escola. São variáveis que são geradas principalmente em momento de crise, então muitos estão passando por dificuldade em relação a trabalho, desemprego, relacionamentos e isso tudo pode gerar tanto um transtorno mental, como a depressão, a bipolaridade, que são os maiores transtornos identificados que acarretam o suicídio", descreve Bruna.

Tobias alerta a população a sempre procurar acolher da melhor forma possível a pessoa que tem potencial risco para a tentativa de suicídio. "Não devemos julgar. A dica é sempre oferecer apoio e, procurar profissionais qualificados", indica. A psicóloga Bruna reitera a importância de se falar a respeito do tema suicídio, e principalmente criar espaço de diálogo e de acolhimento. "Que possamos criar espaços para que seja dito, porque muitas vezes acaba acontecendo, porque não foi dito, não houve espaço para acolhimento daquilo que dói é difícil", completa.

Ela finaliza pedindo que haja empatia. "Isso se dá a partir da conscientização de falar a respeito da temática o Setembro Amarelo é um momento para que a gente possa refletir e que esta reflexão possa ser levada a outras instâncias também", finaliza.