CRÔNICA HISTÓRICA

Paraíso na década de 1870

Por: Luiz Carlos Pais | Categoria: Cultura | 16-09-2020 03:58 | 210
Fonte: Almanaque Administrativo, Cível e Industrial da Província de Minas Gerais. Ouro Preto, 1983. Registos do município de São Sebastião do Paraíso, na mesma província, que havia sido instaurado dois anos antes.
Fonte: Almanaque Administrativo, Cível e Industrial da Província de Minas Gerais. Ouro Preto, 1983. Registos do município de São Sebastião do Paraíso, na mesma província, que havia sido instaurado dois anos antes. Foto de Reprodução

Um ano após a criação do município mineiro de São Sebastião do Paraíso, pela lei provincial no 1641, de 13 de setembro de 1870, tomou posse a primeira Câmara Municipal. Mais precisamente, o termo de instauração da vila foi assinado por volta das 14 horas do dia 28 de agosto de 1871, em cerimônia realizada no sobrado, localizado ao lado da Igreja Matriz, cedido pelo fazendeiro José Theodoro de Souza, chefe político local do Partido Conservador. Esse prédio ainda existente foi cedido pelo mencionado fazendeiro para sediar a câmara e a cadeia pública. Anos depois, já em meados do século XX, o mesmo prédio pertenceu ao fazendeiro Thomé Pimenta de Pádua.

Iniciava-se uma nova fase da história local, tendo entre os seus protagonistas o capitão José Aureliano de Paiva Coutinho, vice-presidente da Câmara Municipal de Jacuí. Cidadão conhecedor da legislação, não teve dúvidas em divergir da posição assumida pelo presidente da referida câmara, coronel João Baptista Carvalhaes, bem como por outras autoridades que se recusaram a efetivar a transferência da sede do município para São Sebastião do Paraíso. Razão pela qual, um ano após a assinatura da referida lei, o decidido capitão assumiu a tarefa de transferir a sede do município, juntamente com João Baptista Teixeira, secretário da Câmara de Jacuí, que, anos depois, assumiria o cargo de escrivão de órfãos da comarca.

O capitão José Aureliano trabalhou como advogado, por vários anos. Mesmo sem ter cursado uma faculdade, tinha cultura para exercer advocacia em nível limitado ao poder Judiciário regional. Estava autorizado a trabalhar como advogado prático ou rábula, por ter recebido carta de provisão concedida por autoridades provinciais. No contexto das instituições sociais, Paiva Coutinho foi um dos fundadores da primeira loja maçônica paraisense, denominada Estrella Sul de Minas, constituída por 46 membros, em tempos de fervorosas rivalidades com a Igreja Católica. Foi ainda o primeiro venerável da referida loja, tendo como secretário da mesma João Antônio de Almeida. Devido a sua atuante participação nesse momento da história do município, ele recebeu homenagem, em memória, com a atribuição do seu nome a uma via pública da cidade, a antiga “Rua Capitão José Aureliano”, distante alguns quarteirões da Pimenta de Pádua e contornando um dos lados do Largo de Santa Rita.

A população paraisense organizou uma calorosa recepção à chegada do capitão José Aureliano que estava acompanhado do secretário João Baptista Teixe-ira. Afinal eles estavam escrevendo um momento especial da história do município. Nas primeiras horas do referido dia 28 de agosto de 1871, um grupo de cavaleiros foi até à entrada da freguesia, nas imediações do atual Jardim Itama-rati, para  dar boas-vindas aos dois cidadãos, autoridades políticas do nascente município que, 50 anos depois, se tornaria no principal polo cafeicultura do Sudoeste Mineiro. Em animado cortejo os cavaleiros conduziram os dois até o centro da freguesia, no Largo da Matriz, onde foram recebidos na residência do senhor José Theodoro de Souza.

Para viabilizar a instauração da sede do município, o capitão José Theodoro cedeu o mencionado sobrado para servir de sede provisória do poder público municipal, incluindo a cadeia pública, como previa a legislação, até que fosse providenciada a construção do primeiro prédio público para essa finalidade, o histórico sobrado construído ao lado antiga Igreja do Rosário, demolida em 1952.

Extrato do Boletim do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brazil: Jornal Oficial da Maçonaria Brasileiro, do Rio de Janeiro, de 1874