ELE por ELE

Riky Martins: Ensinando-nos que a vida se constrói no presente

Quando você começa a perceber que a vida é isso, repleta de altos e baixos, você passa a ama-la”
Por: João Oliveira | Categoria: Entretenimento | 13-10-2020 09:34 | 241
O instrutor de Yoga Riky Martins ministra aulas do Espaço Luz, da professora Cláudia Pimenta
O instrutor de Yoga Riky Martins ministra aulas do Espaço Luz, da professora Cláudia Pimenta Foto de Arquivo Pessoal

O ator e instrutor de Yoga, Riky Clauber Martins da Silva, ou simplesmente Riky, chegou a Sebastião do Paraíso com um único desejo: dar aulas de Yoga e ter tranquilidade. Aqui, os caminhos o guiaram e permitiram que ele conhecesse a professora Cláudia Pimenta, que estava às vias de abrir um espaço que viria a oferecer, entre muitas coisas, a prática de Yoga. Diante disto, aos poucos, sua vida foi se estabilizando e, como ele mesmo afirmou, acabou se tornando paraisense. Filho de Maria Aparecida Martins da Silva (em memória) e Itamar Cosme da Silva, Riky perdeu a mãe quando ainda tinha seis meses de vida e foi a avó, Beatriz Maria Martins, falecida em 2016, que o criou com todo o amor e respeito de que ele precisava. É com carinho que ainda se lembra quando sua avó, que sabia do amor do neto por rosas, sempre se deslocava por São João Del Rei, de onde é natural, para levar a ele as flores. Aos 26 anos, à reportagem do Jornal do Sudoeste Riky rememora seu passado até sua chegada a Paraíso, onde foi acolhido e onde ele vislumbra o que vinha buscando: tranquilidade.

Jornal do Sudoeste: Primeiramente: Riky?
R.C.M.S.: Não é um apelido, é realmente meu nome, coisa do meu pai. Sempre que digo meu nome, as pessoas perguntam: mas qual é o seu nome de verdade? É realmente Riky. Era para ser Henrique Clauber, mas meu pai colocou Riky Clauber. É uma ironia do destino, porque era muito zoado na época de escola.

Jornal do Sudoeste: Como foi crescer em uma cidade histórica como São João Del Rei?
R.C.M.S.: Foi crescer em uma cidade de interior, e também em um centro histórico, mas esta questão de ser um centro histórico não é bem assim como pensam. A cidade é linda nas fotos, e realmente é maravilhosa, mas e a periferia? A parte que não é histórica? Eu cresci na periferia, muito embora também tivesse muita convivência com a parte histórica da cidade. Foi uma infância muito boa, e eu morava em um bairro que se chama Pio XII, que era bem afastado; tinha amigos naquela época com idades bem próximas a minha e adorávamos brincar na rua e pular o lote dos outros para pegar frutas. Foi na adolescência que aconteceu a tomada de consciência do lugar em que eu vivia, sobre o centro histórico, qual a importância deste para a minha história, para a história da cidade e de todos que lá habitavam.

Jornal do Sudoeste: Sua formação envolve teatro, quando isso começou?
R.C.M.S.: Na escola em que estudava havia um projeto que consistia no seguinte: quando o aluno se destacava em meio aos outros, eram escolhidos os melhores da turma e oferecidos diversos cursos gratuitos. Foi aí que eu comecei a estudar Inglês e fiz um curso na Cultura Inglesa, fiz curso de Xadrez, de Espanhol, comecei Teatro, fiz canto também. Quando eu estava com 11 anos, surgiu o “Arte por toda parte”, e foi aí que eu me senti muito conectado com esta área. No projeto fiz os cursos básicos e fui evoluindo, até que entrei realmente no curso de preparação de atores da Companhia de Teatro da Pedra, anteriormente conhecido como ManiCômicos. Paralelo a isto, comecei a trabalhar no escritório da companhia e a fazer a faculdade de Teatro. Foi nesse momento que me deparei com a arte e vi o que realmente era um teatro.

 

Jornal do Sudoeste: Ser ator estava na sua essência?

R.C.M.S.: Eu sempre quis ser ator, desde criança. Adorava novela mexicana, e aquilo era o que eu tinha vontade de fazer. Mas percebemos que não é tão fácil entrar para a TV, e assim fui me deparando com o Teatro, com aquele tête-a-tête e isso me instigava muito mais: o contato com o público, a emoção de se apresentar. O nosso ego fica lá em cima porque as pessoas começam a ver que você está realmente se dedicando e começam a elogiar. Lembro-me que no dia de Tiradentes haveria um espetáculo ao vivo transmitido pela televisão de São João Del Rei, nesse teatro fiz um personagem, que não me lembro mais o nome, e a cidade inteira me chamou por um bom tempo pelo nome da personagem.

Jornal do Sudoeste: E como foi entrar para o Teatro?
R.C.M.S.: Quando entrei para a faculdade de Teatro, era um outro tipo de teatro: o teatro das performances e não aquele que lidava com o real, isto me levou para outros lugares.

Jornal do Sudoeste: O que foi mais difícil nesta sua formação?
R.C.M.S.: Quando entramos para a faculdade, é nosso ego que fica em jogo. Eu tive muita dificuldade para me adaptar e fingia ser uma pessoa que eu não era, porque sou de uma família negra, eu sou um negro de pele clara, e na faculdade as pessoas são muito hipócritas, e lidar com questões sociorraciais na faculdade é muito difícil. O seu psicológico fica abalado, as pessoas fingem que são pobres, enquanto outras realmente necessitam de auxílio, e eu mesmo precisei muito de conseguir bolsas para poder me manter. Essa foi minha maior dificuldade, e não gostaria de passar por isso novamente. Mas não me arrependo de ter feito, porque me fez crescer muito, mas foram anos horríveis.

Jornal do Sudoeste: Horríveis em que sentido?
R.C.M.S.: Lidei com muitas questões que eram internas mesmo. Como é que eu lidava com uma pessoa que era racista ou com professor hipócrita que gostava mais de outro aluno e por isso o privilegiava? Poderia nem ser pela questão da cor da pele, mas existiam os privilégios que eram concedidos a alguns. Quando você começa a tomar consciência disto, o seu mundo desaba, e você percebe que a faculdade não era nada daquilo que imaginava. Fiquei muito desanimado, principalmente nos últimos anos. No começo, eu fingia ser alguém que eu não era, e cada dia era um look diferente, mas era pobre e fiz coisas erradas para manter essa imagem, porém quando tudo isso caiu por terra, eu deixei de fingir. Passei a olhar para essas questões raciais, sociais e questões internas minhas e bater de frente, modificando, assim, a minha vida.

Jornal do Sudoeste: E não se silenciar diante disto é algo que incomoda, não?
R.C.M.S.: Incomoda, mas o que mais incomoda é que quando as pessoas veem que você errou e está disposto a mudar, a assumir o seu erro, o incômodo é maior porque as pessoas querem, como dizem hoje, “te cancelar”, e eu não admitia isso. Eu errei, tudo bem, e aí? O que eu posso fazer para pagar esse meu erro e me redimir com as pessoas que de certa forma eu prejudiquei. Sinto que mesmo hoje ainda pago por esses erros, mas estou enfrentando e está sendo ótimo.

Jornal do Sudoeste: Você comentou que viveu uma infância pobre...
R.C.M.S.: Eu tive uma infância pobre, mas a exceção dos meus 15 anos, nunca passei fome. Porém, como não tive mãe, ela faleceu quando eu ainda tinha seis meses, minha família sempre me mimou. Meu pai me criou até o ponto que ele conseguiu (tinha suas questões, entre elas o alcoolismo), mas foram meus avós maternos, minha família materna em si, que cuidou de mim. Eu vivi uma vida simples, mas tinha tias que viviam fora do país e em uma outra realidade econômica, e quando elas vinham para o Brasil, tudo mudava. Elas me levavam para o Rio de Janeiro, e eu tinha tudo do bom e do melhor, mas uma criança não percebe isso e quando voltava a São João Del Rei, era uma realidade totalmente diferente. Eu estava só vivendo, e quando você cresce você percebe que isso tem importância.

Jornal do Sudoeste: E quando São Sebastião do Paraíso surge nesta história?
R.C.M.S.: Eu apresentei meu TCC em São Sebastião do Paraíso no final de 2019, conheci a cidade em novembro daquele ano. A família do meu namorado, o Rodrigo, era daqui, e junto com uma outra amiga decidimos nos estabelecer na cidade. Até então, estamos sem perspectivas. Nesse espetáculo, que se chamava Corpo de Dor, nós uníamos um pouco da minha biografia com a do Rodrigo. Era uma peça que abordava questões relacionados ao amor, as questões sociais e como lidávamos com isso. À época apresentamos o espetáculo na Praça da Matriz, com apoio da prefeitura. Também apresentamos em Ribeirão Preto.

Jornal do Sudoeste: O que te motivou a ficar em Paraíso?
R.C.M.S.: Foi uma cidade que me acolheu. Naquela época eu estava cansado de onde eu vivia, da faculdade, de tudo. Eu queria paz e vim para cá para realmente dar aula de Yoga, nem era realmente trabalhar com teatro, muito embora acreditasse que daria certo também. Descobri que Paraíso é uma cidade tranquila, e eu queria muito isso. Quando comecei a conhecer a cidade ouvia que as pessoas não eram muito acolhedoras, mas acredito que tenha conhecido as pessoas certas, já que fui muito bem recebido, tanto por você (João Oliveira), quanto pela Cláudia Pimenta, os professores de História Fabrício Borges e João Pedro Menezes. Mas percebi um detalhe: as pessoas aqui dão muito valor às coisas materiais. Apesar disto, gostei daqui. É uma cidade tranquila, em que consigo me acolher e a todas as minhas questões. Eu posso continuar morando aqui e continuar viajando para outros lugares, mas aqui está meu refúgio. Foi difícil no começo, mas nisto o Yoga me ajudou muito porque na verdade pertencemos onde quer que estejamos, o mundo é nosso e estando feliz comigo mesmo, posso estar em qualquer lugar. Eu não acredito em felicidade, acredito, como diz Maria Bethânia, que há momentos de alegria e coragem. Isto estou tendo aqui.

Jornal do Sudoeste: Como surgiu o Yoga na sua vida?
R.C.M.S.: Em 2014 comecei a praticar esporadicamente. As pessoas costumam dizer, principalmente o meu mestre, que chegamos ao Yoga pela dor. Eu estava em uma fase péssima e enfrentando questões que, se eu não me movimentasse, acreditava que pudessem me matar. Eu estava enfrentando um processo muito forte de depressão e não tinha a mínima condição de sair daquele estado. Foi aí que comecei a prática, mas não tinha condições de fazer um curso de instrutor de Yoga. Nesse momento pesquisei e descobri que o lugar mais próximo que ministrava o curso era em Ouro Preto. Liguei, disse que não tinha condições de pagar, mas queria muito fazer o curso. Logo depois, entraram em contato comigo e disseram que eu poderia fazê-lo em troca de organizar o espaço antes das aulas, e assim me formei.

Jornal do Sudoeste: E como você conheceu a Cláudia Pimenta, do Espaço Luz?
R.C.M.S.: Foi através do professor Fabrício Borges. Na época, eu paguei para fazer uma publicidade no Instagram sobre algumas aulas experimentais, e isso chegou a várias pessoas. Às pessoas que começavam a seguir meu perfil, eu começava a mandar mensagem, e uma dessas pessoas foi o Fabrício, mas até então eu não tinha onde dar essas aulas, ou era na casa da pessoa ou em algum lugar que ela decidisse. Quando marquei com o Fabrício, recordo-me que ele me deu um presente, era um incenso, e me senti acolhido de alguma forma. Então veio a pandemia, e com isso paramos com as aulas. Foi quando ele me mandou mensagem contando que uma amiga dele, a Cláudia, estava montando um espaço e precisava de um professor de Yoga. Quando ela acabou de montá-lo comecei a dar as aulas e aos poucos foram surgindo os alunos. A Cláudia me acolheu muito bem, e sua família é muito iluminada.

Jornal do Sudoeste: Qual a importância da prática e os benefícios, principalmente agora com a pandemia?
R.C.M.S.: As pessoas acreditam que vão começar a praticar o Yoga e vão tornar-se zen. Realmente, ela pode ajudar, mas às vezes te desperta outras coisas, entre elas te fazer olhar para si e observar as pessoas e suas vivências com muito mais cuidado e perceber que toda ação tem uma reação: se eu bato em você, você irá reagir de alguma forma, e assim é o universo. E é diante disto que as pessoas começam a perceber que elas têm controle sobre essa reação, mas não sobre a ação. Fica muito mais fácil viver quando você aprende a controlar suas reações. Você adquire um olhar interno mais aguçado, e passa a olhar com mais carinho para esse corpo e para a mente. A mente não pode nos controlar, somos nós que a controlamos. E isto é trabalhado através dos asanas, que não as posturas; através da respiração, para te acalmar; e da meditação, onde você começa a se perceber no momento presente, porque temos mania de olhar para o passado (o que nos torna depressivo) ou para o futuro (o que nos deixam ansiosos). Pode demorar um tempo, mas as pessoas começam a olhar mais para o presente e se sentirem mais felizes. O que importa é o presente, nós não temos controle sobre o que vai vir e nem o que foi. As pessoas que praticam Yoga na pandemia são muito privilegiadas, não somente essas, mas aquelas que também conseguem sentar e se observar com mais cuidado. Estas conseguem reagir melhor a tudo o que está acontecendo. Ao passo que aqueles que não conseguem ou não têm esse privilégio de praticar o Yoga, estão muito desestabilizados, violentos, não sabem lidar com o isolamento e, somado a isto, há toda esta conjuntura política. Nessa pandemia, quem está fazendo Yoga comigo, sinto uma diferença muito grande no comportamento.

Jornal do Sudoeste: E você tem o desejo de levar isso à mais pessoas?
R.C.M.S.: Sim. Meu grande sonho é poder colocar em prática o “Yoga para todos”. Se eu pudesse, eu gostaria de poder não cobrar para oferecer a prática a todo mundo, e democratizar uma prática que é elitizada (quem faz aula comigo, por exemplo, são pessoas que podem pagar, uma pessoa que trabalha para colocar comida na mesa, não tem essa prioridade, e geralmente são estas que mais precisam do Yoga). E como não posso fazer isso, a ideia, que estou pensando junto com o professor João Pedro, é poder oferecer uma vez por semana, em um espaço público, a prática. É um projeto que sei que já existiu, por intermédio da Eloíse Yara, e gostaria de retomar. Todavia, para este momento, tendo em vista as altas temperaturas, é um projeto que deve ficar para novembro ou dezembro, mas é um desejo muito grande que tenho. Para além disto, em São João Del Rei, que tinha um projeto parecido, havia uma arrecadação de alimentos que era repassada a alguma entidade assistencial, muito embora o participante não fosse obrigado a doar. A ideia é poder fazer isso aqui também, não apenas para as instituições, mas para àqueles que precisam desta ajuda. Eu quero muito que as pessoas façam Yoga porque mudou muito a minha vida, e talvez possa mudar a delas também.

Jornal do Sudoeste: Qual é o balanço que faz dessa caminha até aqui?
R.C.M.S.: Quando você começa a perceber que a vida é isso, repleta de altos e baixos, você passa a ama-la, e eu amo a minha história porque de tudo o que fiz, tudo o que passei, me trouxe até aqui, até a este momento. Levou-me a te conhecer, a conhecer o Fabrício, a Cláudia, o João Pedro, e eu sou muito grato por estar aqui neste momento. É algo que não consigo explicar, só sentir. É muito bom viver. No filme As Horas há uma frase: “Alguém tem que morrer para que outros valorizem a vida”, e talvez isso aconteça, mas precisa ser tão trágico assim? Acredito que é melhor viver para valorizar a vida.