ENTRETANTO

Entretanto

Por: Renato Zupo | Categoria: Justiça | 14-10-2020 14:07 | 21
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O Novo Supremo
A tendência de Bolsonaro ao nomear para o STF, ou pré-nomear (Celso de Mello ainda não se aposentou), um juiz de carreira e não evangélico, Kássio Marques, despertou a ira da ala mais conservadora dos apoiadores do nosso presidente da República. Muito errado isso. O fato do presidente não ter levado em conta a tendência ideológica do substituto do decano dos supremos, ou sua religião, soa muito bem. E perder um pouquinho dos radicais ao seu lado, mais ainda. Todo radical é um chato. O abraço que Bolsonaro deu no Supremo Toffoli, então, nos mostra que estamos diante de um ser humano que não quer briga e só se interessa em governar bem a nação. Ele evoluiu. Hoje, é um homem, um político e um governante melhor que dois anos atrás.

O Corona e os novos números
Nenhum dos países paupérrimos da África, o continente esquecido, está entre as dez nações com maior número per capita de contagiados pela Covid ou mortos em virtude desse contágio. Os Estados Unidos, a Índia, o Brasil e nossos vizinhos sul-americanos são os recordistas nesse macabro ranking, mas números precisam ser bem lidos. Sejam países com pouco número de infectados, sejam os campeões deste triste indexador, em qualquer caso (atenção) o contágio é baixo. Fosse sarampo ou catapora e já teríamos imunidade de rebanho. Uma das descobertas recentes de nossos cientistas foi a de que os números de propagação da doença são tímidos diante de outras doenças também contagiosas. A ciência também irá descobrir porque há gente que não contrai a doença de jeito nenhum, porque há infectados que são assintomáticos e porque há gente sem comorbidades que morre, e rápido, esteja sendo tratado no Sírio Libanês ou no SUS. Essas respostas ainda virão.  Apesar da OMS, também se descobriu que quanto mais cedo se for medicado, menos devastadores serão os sintomas do contágio. Isso vai na contramão do que Thedros Adanom e Mandetta falavam no início da pandemia, lembram-se?

A corrida presidencial americana
Os candidatos de esquerda já mostraram para o mundo o que são: excelentes enquanto oposição, o mais do mesmo quando estão no poder. Não digo isso ideologicamente – a ideologia é sempre uma versão complacente e fantasiosa da ciência política. A experiência histórica recente nos demonstra isto. Os dois últimos queridinhos da esquerda mundial foram Obama e Lula. O ex-presidente americano fingiu que policiava o mundo, matou Bin Laden e se vangloriou disso, e criou um plano de saúde gratuito para os EUA, o “Obama Care”, que seria algo parecido com o nosso SUS. Só que não existe saúde pública gratuita. O que o indigente ou o paupérrimo não paga, nós pagamos por ele. Muito melhor pagar pouco do que não pagar nada – a Europa nos ensina isso. Portugal, com um governo socialista, é assim. Por lá, até atestado médico tem custo, ainda que de poucos euros. Já o nosso brasileiríssimo Lula foi enxovalhado por fazer, à frente do Brasil e do PT, o que outros líderes e partidos sempre fizeram. Ele só foi mais intenso, digamos desse modo. A virada à direita dos grandes países do mundo não significa que os candidatos conservadores são melhores. Ao menos, com eles não há surpresas. São lobos em pele de lobos, seus eleitores sabem direitinho o que esperar deles e seu público cativo não se decepciona nunca com seu discurso ou desempenho. Por isso, Trump deverá se reeleger, mesmo com Covid. Joe Biden é muito fraco.

Cotas eleitorais
Nosso governante, o STF, liberou cotas para afrodescendentes já para as próximas eleições. Não acredito que vai adiante e nossos supremos irão descobrir que não há negros querendo ser eleitos além daqueles que de um jeito ou de outro acabariam se candidatando, com ou sem dinheiro público para sustê-los nas urnas e nas pesquisas. Poucos ainda querem ser políticos no país, infelizmente. Um jovem, seja ele negro, índio, japonês ou pardo, prefere ir lavar pratos em Nova York do que ser vereador em Piaçabuçu da Serra.

O Legado de Gorbachev
Trinta anos depois da queda do muro de Berlim, a lembrança  do ex-premiê soviético Mikhail Gorbachev é inevitável. Ele percebeu que projetos ideológicos expansionistas somente acalentaram disputas nucleares e espionagem . Era, então, a Guerra Fria, um conflito não declarado entre americanos e comunistas, em que cada qual procurava dominar o globo através de seu viés político e lado geográfico. A Rússia o fazia a partir do leste e o mundo ocidental pendia para os americanos. Sucederam assim gerações de políticos e coube a Gorbachev perceber que sua economia estratificada poderia até suster armamento nuclear e corridas armamentistas e tecnológicas, mas permaneceria assim eternamente indigente em sua economia interna. O igualitarismo socialista só serviu para substituir no poder a classe aristocrática por uma elite burocrata formada por altos funcionários públicos. Só isso. Não há país, não há nação ou governo, sem líderes, e estes são poucos mesmo.  Gorbachev ao menos teve essa visão equilibrada da política mundial e optou por derrubar logo barreiras socioeconômicas que, de resto, iriam sucumbir natural, paulatina e inexoravelmente.

O Dito pelo não dito:
O mercado não é uma invenção do capitalismo... É uma invenção da civilização.” (Mikhail Gorbachev, político russo).
RENATO ZUPO, Magistrado, Escritor.