LÍNGUA SOLTA

A língua nossa de cada dia

Por: Michelle Aparecida Pereira Lopes | Categoria: Cultura | 31-10-2020 13:30 | 73
Michelle Aparecida Pereira Lopes
Michelle Aparecida Pereira Lopes Foto de Arquivo

Ah! Essa nossa língua portuguesa! Hoje, mais uma vez, ela será o tema principal de nosso texto. Dirão alguns que ele segue na contramão dos estudos linguísticos, ou mesmo que se trata de um texto bastante purista. Outros encontrarão nele um acalento, especialmente os defensores ferrenhos da norma padrão. Longe de causar polêmicas, a intenção aqui não é argumentar a favor da gramática, tampouco enaltecê-la como a única variante da língua que merece respeito. Este texto busca despertar reflexões sobre a língua escrita e sua relevância para os sujeitos inseridos numa sociedade letrada como a nossa.

A história da humanidade mescla-se às questões que envolvem a linguagem; de certo modo, a história dos homens é a de seres socialmente organizados e donos de um sistema de comunicação oral, ou seja, de uma língua. Vivemos em uma sociedade grafocêntrica, baseada numa cultura de letramento e isso significa que a leitura e a escrita fazem parte de nossas práticas diárias. Sendo assim, o uso adequado da língua escrita costuma ser fator decisivo para muitas situações cotidianas: é cobrada dos candidatos às vagas dos vestibulares, dos diversos concursos públicos e até mesmo em muitas entrevistas de emprego e processos seletivos da iniciativa privada. Todas essas ações refletem o fato de ser a norma padrão – também chamada norma culta – a variante de prestígio da língua.

Sabemos que além dessa variante de prestígio, a língua possui inúmeras variações que surgem como resultado da atuação de fatores que são exteriores à língua, como por exemplo, o tempo, a localização geográfica, a idade dos falantes e muitos outros. Tais fatores agem, sobretudo, na língua falada, de modo que a língua escrita estaria blindada a eles. Só que isso não acontece assim tão precisamente. Algumas variações da fala acabam sim promovendo alterações também na língua escrita. Desse modo, fica parecendo que, além de mais de um modo de se usar a língua falada, haveria também mais de um modo de se usar a língua escrita. Mas não é bem assim...

Na modalidade escrita, quem manda ainda é a norma padrão. Isso quer dizer que as questões ortográficas e gramaticais não devem ser desprezadas; tampouco esquecidas, especialmente por aqueles que precisam da variante padrão para integrarem-se à sociedade. Assim, é importante conhecer, pelo menos um pouco a tal da norma padrão, estudá-la, compreender suas regras de organização dos enunciados, memorizar a ortografia de suas palavras e entender que, para algumas situações, ela será a variante exigida. É muito mais uma questão de adequação, que de certo ou errado. A variante adequada ao uso da língua escrita atrelada à vida social e ao mercado de trabalho é sim a norma padrão.

Em sociedade, isso nem sempre parece estar bem compreendido. É nítido o uso da língua portuguesa escrita, especialmente no setor comercial e de prestação de serviços, sem reflexão sobre a norma padrão. É muito comum vermos enunciados com inadequações ortográficas, gramaticais, uso indevido da crase ou ausência dela, dentre tantas outras. Não se trata de fazer uma patrulha da língua, rechaçando ou mesmo caçoando daqueles que cometem tais inadequações. É muito mais uma questão de defender que, quanto mais lidamos com a norma padrão, mais ela se torna comum e fácil para nós. Ao mesmo tempo, quanto mais divulgamos o inadequado, mais ele é memorizado e isso não é assim tão legal.

Alguém poderia dizer que o inadequado também comunica e este texto não quer dizer o contrário. Entendemos que o inadequado também comunica e comunica tão bem quanto o adequado. Contudo, defendemos o uso da norma padrão na língua escrita como algo que é importante para todos os sujeitos e que por isso mesmo, precisa ser mais valorizada para que seja mais divulgada e mais facilmente compreendida. Arriscamos dizer que, se queremos que a norma padrão deixe de ser fator de exclusão, ela precisa chegar a todos os sujeitos e não há melhor modo para isso que o uso dela nessas pequenas situações escritas do nosso dia a dia.

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Michelle Aparecida Pereira Lopes: é uma professora apaixonada pelas Letras. É doutora em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Ministra as disciplinas relacionadas à Língua Portuguesa na Universidade do Estado de Minas Gerais, UEMG - Unidade Passos. Também ensina Gramática no Ensino Médio e Cursinho do Colégio Objetivo NHN, Passos.