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Hipólito Neto: A ciência como caminho para um futuro possível

A ciência é a única esperança que a humanidade tem de conseguir sobreviver por mais tempo na Terra
Por: João Oliveira | Categoria: Entretenimento | 09-11-2020 09:06 | 863
Hipólito é professor e coordenador do Curso de Ciências Biológicas na Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG/Campus Passos)
Hipólito é professor e coordenador do Curso de Ciências Biológicas na Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG/Campus Passos) Foto de Arquivo Pessoal

O professor, cientista e pesquisador Hipólito Ferreira Paulino Neto, é um profissional que entende o papel e a importância da Ciência para a construção de um futuro possível para todos. Filho de cientista e professora, desde muito cedo teve contato com este mundo das ciências e não teve dúvidas quanto ao caminho que queria seguir. Formado em Biologia pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU); com mestrado em Ecologia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), doutorado em Ecologia pela Universidade do Estado de São Paulo (USP), também fez estágio no Exterior, na Florida Internacional University (FIU), em Miami, Flórida e pós-doutorado pelo Departamento de Biologia da USP/Campus Ribeirão Preto. A educação sempre se fez permanente em sua vida e, atualmente, ele é docente efetivo do curso de Ciências Biológicas (e coordenador do curso) da Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG/ Unidade Passos. Filho mais velho de Hipólito Ferreira Paulino Filho (em memória) e Maria Sueli Duarte Paulino, e irmão da Sênya Duarte Paulino, Hipólito teve também um segundo pai, o qual se refere como “paidrasto”, o Luiz Carlos de Almeida Baldin (Forma). Hoje, aos 44 anos, é casado com Milene Souza Rodrigues Paulino e pai do pequeno Otávio Rodrigues Paulino, de seis anos.

Jornal do Sudoeste: Você deve ter muitas memórias boas da infância em Itamogi. Conte-nos um pouco sobre as mais marcantes...
H.F.P.N.: Realmente, tenho inúmeras lembranças especiais de minha infância em Itamogi. Morei lá entre meus 6 e 7 anos e aos 8 anos nos mudamos para São Sebastião do Paraíso. Mas morando ou não em Itamogi, estava sempre lá aos finais de semana, férias, feriados... Lembro com muito carinho da época de minha infância, quando passava férias de julho na Fazenda Barreiro, que era de meus avós paternos (Capitãozinho: Hipólito Ferreira Paulino e Leonor). Havia uma quermesse muito gostosa lá, com bingo, pescaria, baile, sinuca, etc., e eu me divertia muito! Na fazenda Barreiro, havia matas, cachoeiras, paredões e eu e dois primos queridos, que também passavam as férias e feriados comigo, fingíamos ser biólogos. Elaborávamos mapas, tínhamos binóculos, bússola, lanternas, e desbravávamos toda área.

Muito frequentemente, acordávamos de madrugada para chegarmos à mata antes de clarear o dia para vermos os animais (aves, macacos, jaguatirica, etc.) e caminhávamos por toda mata, íamos às cachoeiras e explorávamos uma caverna. Às vezes nossa expedição era noturna e lutávamos contra nosso medo e qualquer barulho ou olho de animal na escuridão da noite nos assustava, mas seguíamos firmes (risos). Era pura diversão e emoção das boas!

Hoje realizei meu sonho de infância, sou realmente biólogo, sou professor-pesquisador na UEMG/ Unidade Passos, estudando Ecologia, e as aventuras da infância são hoje meu dia-a-dia. Estudos de campos com os alunos que oriento é minha rotina. Mas agora fazemos CIÊNCIA de qualidade, visando compreender melhor a natureza para conservá-la e melhorar a qualidade de vida da gente (humanos). Em Itamogi, brinquei muito nas árvores da praça matriz, em especial numa árvore com tronco bem torto que, infelizmente hoje não existe mais, e também de dar voltas em torno da igreja sem tocar o pé no chão (uma brincadeira que passa de geração para geração). Tenho vários bons amigos desde essa época de infância. Amigos para toda a vida.

Também me lembro com muito carinho de muitos momentos na casa de meus avós maternos (Sebastião Cardeal e Maria Antônia), casa sempre foi cheia de crianças e na época eu e meus primos brincávamos muito, muito mesmo! Era muito bom!!

Jornal do Sudoeste: Como era sua relação familiar? Mãe professora.... Isso pesou muito na sua formação?
H.F.P.N.: Sou filho de dois professores (risos). Minha mãe é professora aposentada de matemática (excelente professora por sinal), e meu falecido pai era professor na UNESP, campus Araraquara-SP e fazia expedições quase anuais para a Amazônia na década de 80. Tive o prazer de conhecer o ex-orientador de meu pai, Otto Gottlieb (que foi indicado ao Prêmio Nobel de Química em 1998) quando participei de meu 1º Congresso Nacional de Botânica em Nova Friburgo em 1996. Nessa ocasião, ambos emocionados, o Professor Otto me disse que meu pai (falecido em janeiro de 1987) foi o cientista mais brilhante que conheceu na vida e me contou várias histórias sensacionais sobre ele. A ausência de meu pai, a infância na fazenda Barreiro, as histórias fascinantes sobre as expedições à Floresta Amazônica que sempre ouvia, especialmente contadas pelo meu segundo pai, o Forma (Luiz Carlos) com certeza absoluta me influenciou e muito a também ser cientista e estudar a natureza. Mas percebi que, ao contrário de meu pai que era Farmacêutico-Bioquímica com Mestrado (UFRJ) e Doutorado (USP/ São Paulo) em Química, eu me dediquei à Biologia, em especial à Ecologia de Interações Animal-Planta, Conservação e Arborização Urbana.

Jornal do Sudoeste: Desde muito cedo, teve contato com o estudo das ciências?
H.F.P.N.: Sim, sim. Inclusive me lembro como se fosse hoje um momento com meu pai. Era época de festa junina, estávamos na Fazendo Barreiro no terreirão de café e meu pai pegou uma flor de hibisco e começou a me explicar a morfologia floral. Atualmente, leciono disciplinas onde ensino morfologia floral aos nossos alunos e sempre me recordo desse momento com meu pai enquanto ensino. E como disse antes, cresci ouvindo histórias lindas e emocionantes sobre as pesquisas científicas dele na Amazônia. Ciência é algo que está no meu sangue, é até genético (risos). Não me imagino fazendo outra coisa que eu goste mais do que de dar aulas e pesquisar sobre Ecologia e Botânica. Meu filho, Otávio (seis aninhos atualmente) já está se tornando um minicientista (risos).

Jornal do Sudoeste: O que o motivou a seguir por essa área?
H.F.P.N.: Sinceramente, é algo inato. Desde que tinha seis anos e morava em Itamogi, eu dizia que seria biólogo. Pessoal não acreditava, mas era sério (risos). Tive a imensa felicidade de saber o que eu queria fazer desde criança. Amo o que faço, trabalhar no que faço é extremamente prazeroso (dar aulas e pesquisar Ecologia). Ecologia e ciência é minha paixão profissional. Estou muito feliz e realizado aqui na UEMG/Unidade Passos. Literalmente, estou realizando um sonho. E é claro que a vivência nas matas da Fazenda Barreiro e ser filho de um grande cientista, certamente me motivaram. Espero que um dia o governo passe a valorizar a ciência e dê a devida importância que merece. Atualmente, cientistas brasileiros estão vivendo um verdadeiro pesadelo. Mas acredito que logo as coisas melhorem. O bom de governos é que acabam e outros se iniciam.

Jornal do Sudoeste: Conte-nos um pouco da sua formação acadêmica e atuação profissional...
H.F.P.N.: Graduei-me em Ciências Biológicas (Bacharelado e Licenciatura) na Universidade Federal de Uberlândia – UFU (época literalmente maravilhosa, fiz grandes amigos, inclusive alguns ex-professores), onde iniciei meus estudos sobre Polinização por Besouros na família de planta chamada Annonaceae. Na sequência fiz mestrado na UNICAMP, em Campinas, onde estudei a Ecologia e Biologia de Besouros Serradores. Meu doutoramento foi na USP de São Paulo (capital), com as pesquisas de campo sendo realizadas na Estação Ecológica de Itirapina, Itirapina (SP), onde voltei a estudar Polinização por Besouros. Primos, amigos e estagiários me ajudaram e muito a realizar este grande e lindo estudo. Em seguida, fiz Pós-Doutorado na USP de Ribeirão Preto, onde foquei em estudar a qualidade proteica do pólen de inúmeras espécies de plantas utilizadas como recurso alimentar por abelhas. Realizamos vários estudos muito bacanas com várias parcerias e novos grandes amigos para a vida toda.

Posteriormente, vim para a UEMG/ Unidade Passos como docente designado. Dei aulas em muitas disciplinas fora da minha área de formação, mas por sempre ter compromisso com a qualidade do ensino, pois sei a importância e a diferença que pode fazer na vida das pessoas, sempre me dedicava e estudava muito para dar a melhor aula possível. Felizmente, no final de 2019 consegui ser aprovado em 1º lugar no concurso de Ecologia aqui na UEMG e hoje sou professor efetivo (um dos grandes sonhos de vida). Estou como coordenador do curso de Ciências Biológicas Bacharelado e quero me dedicar a ajudar a alavancar cada vez mais a qualidade do ensino, pesquisa e extensão da minha querida UEMG. Ainda quero ver a UEMG sendo reconhecida como uma das melhores instituições públicas de ensino do Brasil e, nosso curso de Biologia, entre os melhores e mais respeitados. Não podemos nunca parar de sonhar, não é verdade? Afinal, somos movidos por sonhos!

Jornal do Sudoeste: Hoje parece que a Ciência tem sido colocada em xeque: terra plana; pais antiva-cina; pandemia “intencional”. Como você lida com esses ditos no dia a dia?
H.F.P.N.: Confesso que não é fácil para um cientista ver pessoas próximas acreditando em tantas mentiras, Fake News e muitas bobagens. Na década de 80, acreditávamos que, em 2020, teríamos carros voadores, cidades espaciais, uma sociedade evoluída, etc., mas o que vemos de fato é uma sociedade que “emburreceu”, temos cada vez mais pessoas analfabetas funcionais em matemática e português. As pessoas não conseguem ler ou mesmo ouvir um texto e interpretar, não conseguem juntar fatos e tirar conclusões. Fatos podem estar escancarados na sua frente que não conseguem percebê-los e distingui-los de Fake News. Temos milhares de satélites na órbita terrestre filmando e fotografando a Terra há dezenas de anos. Como pode alguém acreditar em Terra plana? Cúmulo do absurdo. Um dos grandes motivos de morrer relativamente muito menos bebês e crianças atualmente do que morria antigamente é o advento da vacina e a vacinação em massa. Tínhamos erradicado inúmeras doenças em decorrência da vacinação em massa da população. Este ano tivemos campanhas de vacinação que só conseguiram atingir 45% da meta! Cúmulo do absurdo! De verdade, dá desespero ver tantas pessoas ignorantes. Pior é que você tenta advertir algumas pessoas para que diminuam as chances de se infectar com uma doença séria que pode até matá-la ou deixar sequelas para o resto da vida e elas ficam bravas, discutem de forma agressiva e fazem questão de não te ouvir! Como pode isso? Qual é a lógica? Ignorância (ausência completa de informação)? Não deve ser, pois nunca foi tão fácil se obter informação. Sinto que boa parte da sociedade adoeceu. Espero que este cenário melhore logo! Nós, professores e pesquisadores, não descansaremos, e estaremos sempre informando ao máximo a população e com informação de qualidade! Podem ter certeza disso! É nossa missão!

Jornal do Sudoeste: Não custa reforçar, mas qual a importância da Ciência para o desenvolvimento da sociedade?
H.F.P.N.: Ciência está em tudo e as pessoas não percebem. Ciência está presente na produção de alimentos, transporte, nos negócios, nos produtos que compramos, na roupa que vestimos, na construção da casa que moramos, em tudo! E algumas pessoas, por total falta de informação, “acham” que ciência não é importante. A ciência é a única esperança que a humanidade tem de conseguir sobreviver por mais tempo na Terra. Sem a ciência iremos destruí-lo por completo, pois estamos degradando e destruindo nossas vegetações nativas, poluindo ar, solo e água em ritmo cada vez mais acelerado. Só investimento pesado na Ciência, em pesquisas e em ensino de qualidade poderá proporcionar à humanidade chances de vivermos com qualidade, em especial se pensarmos em futuras gerações. A qualidade de vida, o bem-estar da humanidade depende diretamente da ciência, lembrando que a ciência está presente em inúmeras frentes e contextos. Mas por incrível que pareça, temos políticos e cidadãos negacionistas e, estranhamente lutam para não enxergar o óbvio: ciência é fundamental e é impossível vivermos sem ela. Não valorizar a Ciência nos custará muito caro como sociedade.

Jornal do Sudoeste: Você também é professor. Como é ser um educador no Brasil de 2020?
H.F.P.N.: 2019 e 2020 têm sido os piores anos da história para quem é professor “raiz” e por amor. Professores que têm prazer em ensinar, em fazer a diferença na vida do outro, estão sofrendo absurdamente com as políticas atuais, em especial a nível de governo federal e estadual, pois ambos não se importam com a qualidade do ensino oferecido à população. Ambos, sempre que podem, cortam investimentos na Educação e só não reduziram muito mais porque a lei obriga um investimento mínimo. Educação de qualidade é libertadora, pois faz com que cada cidadão pense por si mesmo. Pessoas com bom nível educacional são mais difíceis de serem enganadas e manipuladas. Pessoas esclarecidas dificilmente acreditam em Fake News. Educação de qualidade resulta em uma escolha de melhores políticos e até credencia cidadãos comuns a se tornarem políticos, e a chance de serem melhores dos que temos atualmente é enorme! Por essas e outras razões, políticos corruptos têm aversão de professores, pesquisadores e de investimentos em educação! Em suma, 2020 tem sido para nós professores, um enorme pesadelo e não estou exagerando.

Jornal do Sudoeste: Qual momento mais difícil e de maior satisfação que já enfrentou ao longo da vida?
H.F.P.N.:  Momento mais difícil foi a perda precoce de meu pai, quando eu ainda tinha só 10 anos de idade, e por infelicidade, foi no dia do aniversário de minha irmã que completava oito anos na ocasião. A morte dele, da forma como foi, infarto dentro d’água na praia de Ipanema, Rio de Janeiro, com a gente presenciando e por sermos ainda muito novos, certamente foi o momento mais triste e difícil de nossas vidas.

São inúmeros os momentos de satisfação ao longo da vida e tentarei elencar alguns em ordem cronológica, mas muitos serão omitidos ou o texto ficará imenso (risos): ter conseguido estudar em universidades excelentes no Brasil como UFU, UNICAMP e USP (São Paulo e Ribeirão Preto), ter estudado e morado no exterior, que foi uma experiência indescritível (Florida Internacional University – FIU, Miami-EUA); ter constituído uma família linda com uma esposa companheira e que sempre me apoia e me dá o suporte necessário para seguir em frente; ser pai do Otávio, um filho e pessoa sensacional (amo ser pai dele); ter sido aprovado no concurso aqui na UEMG; coordenar o LEPEC (Laboratório de Ecologia da Polinização, Evolução e Conservação) e orientar alunos excelentes e realizar em conjunto com eles pesquisas muito interessantes e de qualidade, mesmo praticamente sem recurso financeiro algum, e muitos outras satisfações... Não dá pra eleger a maior, felizmente!!

Jornal do Sudoeste: Qual a mensagem que deixa para nossos leitores?
H.F.P.N.: O segredo do sucesso é a determinação, a força de vontade! Não realizaremos todos os sonhos, mas podemos nos esforçar para realizar o maior número possível.

Jornal do Sudoeste: Qual o balanço que você da sua caminhada até aqui?
H.F.P.N.:  Sou um realista otimista. Entendo que a vida de ninguém é perfeita. Todos nós temos sucessos e fracassos. Considerando minhas imperfeições e minhas limitações, acredito que realizei muito. Não comparo minha vida com a de outras pessoas, pois cada pessoa é única. Cada um de nós tem sua própria história. Temos é que tentar ser o melhor que podemos ser, dar nosso melhor e sempre tentar ser feliz! Neste contexto, considero-me realizado e muito feliz! E continuarei trabalhando duro e batalhando com a vida para realizar mais sonhos, continuar a ser feliz e ajudar o máximo de pessoas e também ser felizes! Espero que tenha ainda uma longa e prazerosa caminhada pela frente, mas estou feliz com minha caminhada até aqui. Sou feliz!