CRÔNICA HISTÓRICA

Monsenhor José Felipe da Silveira

Por: Luiz Carlos Pais | Categoria: Cultura | 11-11-2020 02:46 | 533
Monsenhor José Felipe da Silveira (18884 - 1939)
Monsenhor José Felipe da Silveira (18884 - 1939) Foto de Reprodução

Natural de Pouso Alegre, Sul de Minas, José Felipe da Silveira nasceu a 23 de agosto de 1884. Fez o curso secundário em sua terra natal, onde recebeu o diploma de Bacharel em Ciências e Letras. Em seguida, realizou a formação teológica no Seminário de São José da mesma cidade, em uma das primeiras turmas desse centro de formação de sacerdotes, criado para formar padres para as paróquias do Sul de Minas. Após ter sido ordenado a 9 de julho de 1909, foi nomeado cônego catedrático na própria diocese de Pouso Alegre, devido a sua ampla cultura teológica e filosófica, bem como a sua facilidade de escrever, pois foi colaborador de diversos jornais.

Por certo tempo, atuou como auxiliar direto do bispo, Dom João Baptista Nery e foi professor de matérias teológicas no seminário em que estudara. Foi nomeado pároco de Guaranésia, Sudoeste Mineiro, onde permaneceu por três anos. Nessa cidade, lançou a ideia de fundar um colégio para meninas, cuja direção seria confiada às Irmãs Doroteias, que, na época, mantinham um renomado colégio em Pouso Alegre. Mas, esse projeto não chegou a concretizar-se naquela cidade.

Tomou posse como pároco de São Sebastião do Paraíso, em 26 de julho de 1914 e permaneceu no cargo até o seu falecimento repentino, ocorrido no dia 25 de maio de 1939, vítima de infarto cardíaco, portanto, antes de completar 55 anos de idade. Durante os 25 anos que exerceu o sacerdócio na cidade, suas ações destacaram-se, muito além das funções eclesiásticas, devido a realização de diversas obras sociais, entre as quais a fundação do Orfanato Jesus Crucificado, a abertura de escolas paroquias para ensinar o catecismo e as primeiras letras, da Escola Doméstica, para dar formação profissional às mulheres, participando da criação da Santa Casa, da Sociedade São Vicente de Paulo, da vila de casas para portadores de hanseníase, entre outras.

Logo no início de sua atuação como pároco, empenhou-se na tarefa de levantar fundos iniciais para a construção da Santa Casa de Misericórdia, com o apoio dos fazendeiros mais abastados e com a liderança do major Ângelo Calafiori. Por seu intermédio obteve das autoridades eclesiásticas autorização para transferir a posse do patrimônio da cidade para a Santa Casa, permitindo uma renda anual através do direito de laudêmio que antigamente se pagava quando o imóvel era registrado em cartório. Foi de fundamental importância sua atuação na vinda das Irmãs Doroteias para a cidade, em 1925, na obtenção das doações para a aquisição dos direitos do Curso Normal que já funcionava no Ginásio Paraisense, bem como para a própria construção do prédio do Colégio Paula Frassinetti. Por sua iniciativa, iniciou amplas reformas da Matriz, tanto na parte interna, como no frontispício, torre e nas laterais externas. Obras essas que foram finalizadas pelo Monsenhor Jerônimo Madureira Mancini.

Foi divulgado na imprensa nacional, no início dos anos 1930, que o pároco de São Sebastião do Paraíso tinha organizado um asilo para abrigar famílias acometidas de hanseníase, pessoas que foram segregadas pela sociedade de modo geral e pelo poder público, devido à ignorância social dos meios de contágio da doença. Esse asilo era constituído por uma fileira de pequenas casas, nos fundos do terreno da Santa Casa, aproximadamente, onde hoje está a entrada principal do hospital, na rua lateral.

No início da década de 1930, Monsenhor Felipe entendeu que era preciso criar uma instituição para abrigar meninas pobres, órfãs e desemparadas. Nasceu assim a ideia do “Orfanato Jesus Crucificado”, prevendo a construção de um amplo prédio com dois pavimentos para abrigar cerca de 100 meninas. Inicialmente essa obra orçada em 200 contos de reis deveria ser construída distante do centro da cidade, no alto de uma colina, na saída para Jacuí. Para isso recorreu aos seus contatos em Pouso Alegre, onde contratou a planta do prédio com o renomado arquiteto e construtor alemão Otto Piffer, autor de diversas obras na região de Campinas e no Sul de Minas, incluindo igrejas, capelas e escolas. Entretanto, anos depois, o prédio foi construído na Avenida Ângelo Calafiori, ao lado do Colégio Paula Frassinetti.

Em edição de 10 de maio de 1931, o Libello do Povo, jornal dirigido por João Borges Moura, publicou reportagem sobre o lançamento da pedra fundamental do referido orfanato. Foi uma cerimônia marcante com a presença do bispo de Guaxupé, Dom Ranulfo da Silva Farias, que veio acompanhado pelo bispo de Pouso Alegre, Dom Otávio Chagas de Miranda. Os dois viajaram pela Mogiana e foram calorosamente recepcionados na estação. Estavam acompanhados dos párocos de Monte Santo, Guaxupé e de Andradas. A presença desses visitantes resultou do convite feito pelo monsenhor Felipe, externando sua alegria em iniciar o necessário orfanato, pois havia dezenas de meninas pobres em condições de abandono e o rico polo cafeeiro tinha amplas condições de minimizar essa situação. Os visitantes foram recepcionados pela população, autoridades, associações religiosas, estudantes, duas bandas de música, uma delas formada por reservistas do Tiro de Guerra.

O projeto foi elaborado em estilo colonial e previa capacidade para abrigar 100 meninas. Nos anos seguintes, no início dos anos 1940, o novo pároco Man-cini assumiu a direção da instituição que recebeu nova denominação de “Instituto Monsenhor Felipe”. Como consta na memória local, o comendador João Alves de Figueiredo Junior doou 50 contos de réis para a construção do instituto e o coronel José Honório Vieira doou 20 contos de réis. Essas doações mais expressivas somaram-se a outras mais modestas que vieram da população de modo geral. A direção do orfanato, fechado há cerca de 50 anos, foi entregue às irmãs missionárias de Jesus Crucificado, de Campinas, SP, as quais assumiram outras obras de assistência social na cidade.

Para finalizar, em meados dos anos 1960, por inúmeras vezes fui ao antigo Orfanato buscar e levar sacos de sapatos das meninas para consertar na sapataria do meu pai. Costura, remendo, troca da sola, salto, fivela, pintura e engraxar, voltando ao aspecto de quase novo. Pequenas lembranças que tenho do grande projeto idealizado pelo Monsenhor José Felipe da Silveira, cujo carisma religioso e compromisso social foram reconhecidos muito além da comunidade católica.