ENTRETANTO

Entretanto

Por: Renato Zupo | Categoria: Justiça | 02-12-2020 21:34 | 81
Entretanto Renato Zupo
Entretanto Renato Zupo Foto de Reprodução

Racismo
Há racismo no Brasil, sim. Que me desculpe o bom General Mourão. Não é superlativo como nos Estados Unidos por um único motivo histórico: o cunhadismo. Sabe o que é isso? Darcy Ribeiro explica: o colono europeu expatriado por aqui se amancebava e usava seus parentes como escravos familiares, tanto índios quanto negros. Ou seja, noventa por cento da nossa população é miscigenada em algum grau – na expressão  politicamente incorreta: todos temos um pezinho na África. Como nossa população negra não se urbanizou em guetos e, ao contrário, se mesclou naturalmente desde o Brasil Colônia com o branco europeu, não há muita lógica em separatismos raciais por aqui. Não é possível excluir socialmente quem faz parte do seu DNA. A mescla racial também atingiu a cultura, e hoje cidadãos de toda raça adotam o visual, a música e os costumes que por aqui chegaram provenientes de terras africanas.

Herança histórica?
Sem essa de “racismo estrutural”, mais uma conversinha de intelectual de zona sul e deformador de opinião. E, como tudo que vem da New Left, vai pegar, porque a burrice é a pior praga do mundo, a burrice fomenta guerras, arrasa famílias e instituições. Estão querendo dizer que todo incidente, acidente, crime, envolvendo negros como vítimas, tem conteúdo racista por conta de nossa famigerada herança histórica. Como negros vieram para cá escravizados e se emanciparam tardiamente, restaram-lhes os cortiços e favelas e subempregos, guetos econômicos de onde ainda não se libertaram. Porque pobres em sua maioria, seguem marginalizados. A teoria do racismo estrutural é essa, e é uma grande besteira justamente porque (atenção) distorce a verdade. A maioria inexorável de nossa população é miscigenada. Todos, ou quase todos, temos antepassados africanos ou indígenas. Portanto, não há uma “minoria” que seja maioria! E as maiorias não podem ser discriminadas, não é mesmo? Ainda assim, o racismo no Brasil, que não é estrutural, é insípido, é bem inferior ao dos EUA, mas... existe! Ele tem a ver com a desigualdade econômica. Pessoas de quaisquer raças podem ser discriminadas pela falta de recursos socioeconômicos, mas os pretos e pardos são mais injustamente vítimas disso porque, em geral, mais pobres e atingidos mais intensamente pelo desemprego, subemprego, criminalidade, famílias desajustadas e drogas. O racismo que sofrem, no entanto, não decorre de sua raça, mas de sua condição econômica. O detalhe é importante, mas os filósofos de botequim tendem a ignorá-lo.

Entenda o caso

O cidadão negro João Alberto era uma pessoa violenta, marido agressor, brigão, com passagens pela polícia sempre devido ao seu caráter valentão. Não era uma pessoa fácil, mas nem por isso merecia ser morto como foi. Aliás, ninguém merece. O que vimos  das imagens que correram o mundo foi isso, uma morte estúpida e brutal. A reação dos seguranças do supermercado foi exagerada e desproporcional, e a proporcionalidade é o cerne da legítima defesa. Não posso arvorar minha reação violenta a uma agressão bem menos grave e que já se encontrava cessada no momento em que revidei. Os seguranças deveriam ter imobilizado João Alberto, o que tentaram (e não conseguiram) fazer de maneira desastrosa. Ali a coisa toda terminaria em pratos limpos e com a justiça feita com João Alberto contido até a chegada da polícia. A vítima do espancamento, no entanto, ofereceu resistência até o último instante e foi estrangulada até o ponto em que, desfalecida, não suportou aguardar a chegada do socorro dos bombeiros. Essa história toda você sabe, mas vamos aos seus meandros jurídicos? Não acredito em dolo eventual ali – os seguranças não assumiram o risco de matar, foram na verdade imprudentes. Houve preterdolo:  queriam agredir, não queriam matar. Em bom português, devem ser condenados por lesão corporal seguida de morte, e não por homicídio, isto se vigentes as regras do processo penal e não aquelas outras, cada vez mais em voga, do “politicamente correto”.

Nada a ver com racismo
Só não me digam que João Alberto morreu porque era negro, por favor. Não há indício algum de que a cor da pele, a etnia ou preconceitos sociais guiaram a ação destram-belhada dos seguranças. Um louro escandinavo ou um japonês, ali, apanhariam até a morte do mesmo jeito, porque a incompetência criminosa dos agressores seria em qualquer caso uma só. Estão querendo politizar mais um fato, e periga até chegarem ao Bolsonaro. Não seria novidade impossível, porque fizeram isto com Trump nos EUA.

O Dito pelo não dito.
A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto.” (Darcy Ribeiro, antropólogo indianista brasileiro).
RENATO ZUPO – Magistrado, Escritor