ALEMANHA

Paraisense é escolhida como melhor estudante estrangeira em faculdade na Alemanha

Por: Nelson de Paula Duarte | Categoria: Educação | 11-12-2020 18:47 | 6571
A paraisense Rosana de Fátima Duarte, e o Professor Dr. Walter Schober, presidente da Universidade de Ingolstadt, na Alemanha
A paraisense Rosana de Fátima Duarte, e o Professor Dr. Walter Schober, presidente da Universidade de Ingolstadt, na Alemanha Foto: Divulgação

A paraisense Rosana de Fátima Duarte, recebeu quinta-feira (10/12) das mãos do Professor Dr. Walter Schober, presidente da Universidade de Ingolstadt, na Alemanha, o prêmio DAAD Preis 2020 como a melhor estudante estrangeira naquela instituição. Rosana está há três anos e meio na Alemanha onde concluirá em fevereiro de 2021 o curso de Engenharia Industrial.

Rosana, 29 anos, estudou em escolas públicas em São Sebastião do Paraíso, no Paraisense e na Benedito Ferreira Calafiori. Assim que concluiu o ensino médio tinha o sonho de cursar uma faculdade. “Meus pais diziam, que não tinham condições de custear, e não iria dar certo, mas não desisti.  Coloquei na minha cabeça que iria, prestei o ENEM, fiquei um ano parada reunindo dinheiro para custear o curso”, disse. Em 2010 foi aprovada em vestibular na Faculdade Claretianas, de Batatais para o Curso de Biologia e Licenciatura. No segundo semestre, diz que “foi abençoada com bolsa de estudo.  Meu sonho estava se realizando e foi uma alegria muito grande para minha família também, a primeira filha se graduando”.

No mesmo ano que concluiu a faculdade (2012) lecionou Biologia na Escola Ana Cândida de Figueiredo. Foi um trabalho de dois meses, substituindo um professor, segundo ela, uma experiência incrível.  “Nesse meio tempo eu trabalhei em um escritório de contabilidade. No ano seguinte consegui outra vaga como professora de Ciências, na Escola Municipal em Termópolis, onde lecionei de abril a dezembro, graças à bondade da proprietária do escritório de contabilidade que me possibilitou horário de forma conciliar os dois trabalhos, e conseguir renda extra”.

Em 2013 Rosana participou da Jornada Mundial da Juventude no Brasil, no Rio de Janeiro. No último dia do evento o Papa Francisco anunciou que a próxima jornada seria na Polônia, em 2017. Eu disse, meu Deus eu quero muito ir, e para isso precisava de dinheiro e saber inglês. Foi aí que me matriculei em um curso, e no decorrer dele,  disse aos meus pais que gostaria de morar nos Estados Unidos. Queria conhecer outros países, desbravar o mundo. “Rosana somos família humilde, não vai dar certo”, disseram. Mas eu queria aprender inglês mais rápido que na escola, e encontrei uma forma para intercâmbio que caberia no meu bolso. Procurei uma agência e fiz todo o processo que é bem trabalhoso.

Meu inglês era intermediário e eu pensava que conseguiria me comunicar bem nos Estados Unidos, mas ao chegar vi que a situação era bem diferente.

No programa de intercâmbio que fiz, a gente trabalha como babá na casa de uma família, com a qual é feita uma entrevista.  Fui contratada por uma família de Nova Jersey para morar com eles pelo período de um ano.  Era uma família judia, tive uma experiência maravilhosa, e pude aprender a língua inglesa.

Maio de 2015 foi a primeira vez que saí da cidade pequena e fui voar pelo mundo. Indo para os Estados Unidos iria aprender inglês mais rápido e conseguir juntar dinheiro para ir à Polônia, de vez que nesse intercâmbio recebe-se um salário de duzentos dólares por semana.

Assim que cheguei pensei, como a vida é, e não me via mais saindo dos Estados Unidos, porque amo aquele país, e minha intenção era ficar lá, e construir minha vida. Mas os planos mudaram novamente. Em uma viagem, cruzeiro para Bahamas, depois de cinco dias conheci meu atual namorado. Ele é alemão, era apenas uma amizade, mas após algum tempo a gente percebeu que poderia ser algo mais.

Em 2016 ele foi aos Estados Unidos e resolvemos tentar um relacionamento, mesmo que a distância, mas depois entendemos que o melhor seria eu ir para a Alemanha para tentar minha vida profissional,  e para que nosso relacionamento pudesse dar certo.

Em 2017 me mudei para a Alemanha, me inscrevi e fui aceita para o Curso de Engenharia Industrial,  na Faculdade Technische Hochschule, em Ingolstadt, cidade onde fica a matriz da indústria automobilística Audi. 

Resolvi começar tudo de novo, deixa a profissão de bióloga, de ser professora. Nova carreira, um novo país, nova cultura, novos costumes e desafios.

A partir do momento em que iniciei  na Faculdade de Engenharia Industrial, em outubro de 2017, descobri como é difícil ter que “matar um tigre por dia”.  Fazer uma faculdade já não é fácil, e em língua estrangeira, é mais difícil ainda. O curso é totalmente em inglês, algumas matérias em alemão, e quando vim, não sabia nada de alemão. Para a faculdade se quisermos conseguir bons resultados, a gente tem que estudar praticamente noite e dia, e “ralei bastante” para entrar no ritmo do ensino alemão, que é muito puxado, e requerem um padrão muito alto.  Mas meu diploma de Biologia foi fundamental para que eu ingressasse no meu curso de agora, porque foi com a essa nota que me aceitaram, explica Rosana.

“Cheguei pensar que não iria concluir o curso, e só Deus sabe quantas lágrimas derramei, quantas noites passei em claro, e quantos fios de cabelos brancos ganhei, de tanta preocupação. Foi um período muito difícil, mas nunca desisti”.

Em 2019 Rosana se candidatou na faculdade para fazer parte do grupo estudantil . Os demais candidatos, todos alemães, e ela a única estrangeira. “Fui a escolhida, a que teve mais votos o que me tornou representante do conselho estudantil. Com isso tive que participar de reuniões mensais com os professores, para discutir problemas e tomar decisões, e também levar pleitos dos estudantes em busca de soluções. Fiz parte do comitê que escolhia professores para ingressarem na faculdade, e fazia parte de um “convento”, um grupo superior que se reúne com grupos de outras faculdades para tratar de assuntos gerais da universidade. Trata-se de trabalho voluntário em que a gente ganha experiência, contatos”, elucida.

“Temos que fazer estágios, e outro sonho seria fazê-lo na indústria automobilística Audi, e tive mais uma bênção divina de conseguir. Foi experiência mais que incrível. Trabalhei seis meses no Departamento de Controle para Desenvolvimento e Pesquisas, com projetos que serão aplicados no futuro. Fico emocionada quando relembro o que já passei, e como foi para chegar até aqui”.

Há poucos dias Rosana recebeu e-mail da faculdade a informando que ela foi selecionada por professores como a melhor estudante estrangeira na instituição, perguntando se aceitava a premiação. “Nem sei explicar, tamanha foi minha emoção. Claro que aceitei”, disse.

Foi uma honra muito grande. Não foi algo para o qual me candidatei, veio deles, dos professores. O DAAD Preis é uma instituição da Alemanha  que apoia anualmente alunos internacionais junto à faculdades conveniadas”, afirma.

Sobre a solenidade nesta quinta-feira (10/12), a parai-sense salienta: “Hoje tive a honra de receber das mãos do THI, Prof. Dr. Walter Schober,  presidente de nossa Universidade este prêmio. , Tenho certeza que meus pais ficaram orgulhosos de mim”. 

Rosana está preparando seu TCC sobre Automação de Processos Robóticos, e em fevereiro de 2021 será graduada no curso de Engenharia Industrial. Seu plano é conseguir emprego, e gostaria que fosse definitivamente na Audi, ou então na BMV, em Munique.

Em março ela inicia o Mestrado em Engenharia Automotiva. “Muitas das vezes a gente pensa que não é capaz, que não vai ser possível, e nossas condições não nos permitem. Meu conselho é, seja aquele sapinho surdo que continuou pulando, e chegou até o topo da montanha. Eu fui, e até hoje sou semelhante ao sapo surdo. Quando pensar que você não é capaz, esquece. Todos nós somos capazes de tudo. Quando temos sonhos, a gente tem que lutar, e não importa quão difícil ele seja. Se lutarmos até o fim, conseguimos. Espero que sirva de motivação para pessoas que estão sonhando”, aconselha.

Agradeço minha família porque se não tivesse me dado apoio, rezado, nada disso seria possível. Foi a base de tudo, diz agradecida, a filha da senhora Maria Aparecida Duarte e senhor Vicente Duarte (Vicentinho Lucas).

Paraisense Rosana de Fátima Duarte