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BIJU: Buscando mudar os rumos de Paraíso por meio da política

“não escolhi entrar para a política, foi ela quem me escolheu”
Por: João Oliveira | Categoria: Entretenimento | 22-12-2020 09:29 | 630
Biju foi eleito vereador com 1.110 votos pelo Partido Progressista (PP)
Biju foi eleito vereador com 1.110 votos pelo Partido Progressista (PP) Foto de Arquivo Pessoal

O artista Juliano Carlos Reis, mais conhecido em Paraíso como Biju, foi eleito vereador para o pleito de 2021/2024 com expressivos 1.110 votos, e agora vai enfrentar novos desafios para exercer aquilo que acredita: a política como agente transformador na vida das pessoas. Trabalhador, ele já fez de tudo um pouco na vida antes de decidir entrar para a política, fato que se deu mediante a processos que sofreu por não abaixar a cabeça e expor, de forma cômica, as mazelas da política paraisense. Filho do lavrador Carlos Alberto dos Reis (em memória) e da senhora Cleuza Aparecida de Paula Reis, Biju tem outro irmão mais novo, o Leandro Carlos Reis. Com o trabalho humilde dos pais, aprendeu desde cedo a dar valor ao trabalho e a lutar para ter sua independência e se tornar uma pessoa do bem. Hoje, aos 35 anos, casado com Viviane Reis, é pai dos gêmeos Juliano e do pequeno Raul.

Jornal do Sudoeste: Quem é o Biju?
J.C.R.: A princípio, o Biju é um artista paraisense que, como muitos, não tem seu trabalho reconhecido. Eu comecei a fazer as minhas manifestações artísticas em jornal, através de charges que sintetizassem os acontecimentos da política. Infelizmente, Paraíso ainda é uma cidade onde muitas pessoas não têm nível cultural suficiente para poder entender o que significa essas manifestações. Então, o Biju sempre foi um artista, até que essas artes começaram a tocar na vaidade de políticos e, sem perceber, não escolhi entrar para a política, foi ela quem me escolheu.

Jornal do Sudoeste: E quando você começou com essas manifestações?
J.C.R.: Quando eu ainda tinha 15 anos. Aqui existia o jornal A Gazeta, e o diretor deste jornal viu que eu tinha a facilidade de desenhar, e a forma como eu me expressava era divertida. Tive essa primeira oportunidade, fiz meus desenhos, mas isto começou a gerar algum incômodo na cidade.

Jornal do Sudoeste: E como isto incomodava?
J.C.R.: Em uma dessas charges, recordo-me que um político da época entrou no jornal onde eu trabalhava e me ameaçou de agressão. Nessas manifestações artísticas, eu não xingava ninguém, mas tocava na vaidade delas, e não era nada pessoal. Outra charge que fiz, sobre o resgate do Carnaval paraisense pelo ex-prefeito Mauro Zanin, coloquei o Mauro como folião e Jesus atrás dele dizendo que seu maior milagre foi a multiplicação dos pães, isto tudo querendo dizer que foi um milagre acontecer o Carnaval na cidade, todavia, o padre da época não gostou, foi à redação e disse que iria reunir os fiéis dele para me apedrejar. Era comum essas retaliações, inclusive já passaram por cima da minha bicicleta de entregar jornal uma vez, então foi bem difícil. Eu tinha 15 anos, imagina o terrorismo psicológico que eu sofria. Logicamente, o diretor do jornal não dizia quem eu era, mas acabei ficando conhecido por esse trabalho.

Jornal do Sudoeste: Vo-cê sempre foi engaja-do em causas políticas?
J.C.R.: Eu sempre gostei da história paraisense. Eu amo minha cidade, e isso é incontestável. E eu queria escrever e tinha a minha forma de expressar que difere daquela norma padrão. Para escrever, por causas da minha forma de expressar e com um palavreado diferenciado ou até beirando o chulo, as pessoas achavam que era perigoso, e achavam que o quadrinho, a charge, seria melhor, o que foi pior, porque a maioria das pessoas não entendia o que eu queria passar, e como isto afetava a vaidade dos políticos, queriam me censurar, me agredir, e isto era comum. Eu fazia a manifestação em uma edição, e na outra eu já tinha algum problema. Recordo-me de colocar o Cristo da Matriz com uma roupa da Guarda Municipal, simbolizando que toda a guarda se encontrava ali, mas entenderam que eu estava falando de religião e foram na redação do jornal, queria me excomungar a todo custo. Acredito que isso chega a ser cultural em Paraíso.

Jornal do Sudoeste: Você era influenciado de alguma forma, como era esta questão dentro de casa?
J.C.R.: Em casa, meus pais ficavam até um pouco apavorados, muito embora meu pai me incentivasse e adorasse ter um filho que representava alguma coisa na cidade, que começou de baixo, do zero. Quando criança, recordo-me de ter sido colocado em uma creche para que meus pais pudessem trabalhar, e o prefeito da época, Waldir Marcolini, que amava a cidade, ia nesta creche em determinas ocasiões e nos ensinava a fazer bandeirinhas de Paraíso. Desde aquela época, eu sentia algo bacana por essa figura política que tem amor na cidade. Recordo-me também do Amorim, de uma charge que fiz dele, em que o desenhei de cueca fazendo alguma referência à licença maternidade, quando fui entregar o jornal para ele, fiz isto até tremendo. Foi quando ele me perguntou se eu era Biju, encarando a minha charge, e então me deu um tapinha na cabeça rindo, dizendo para eu continuar assim que eu iria muito longe, fazendo referência a minha coragem. O Waldir e o Amorim foram duas pessoas que me fizeram gostar ainda mais de política. Enveredei-me por este caminho sem pretensão nenhuma, eu só queria ser reconhecido como artista. A oportunidade que estou tendo agora, para ser vereador, sinto a necessidade de contribuir para que esses artistas não sofram as mesmas dificuldades que eu passei e ser livre para mostrar seu potencial artístico.

Jornal do Sudoeste: E quando você começa a pensar em exercer um cargo político como vereador?
J.C.R.: Foi surreal, tanto que minha campanha foi em cima das minhas manifestações artísticas. Em Paraíso, o jovem artista é vetado, e ele precisa de um representante, tanto que, além de poder contribuir com aqueles menos favorecidos, minha intenção é também abrir portas para os artistas que não são reconhecidos na cidade. Quando falo que sou um artista, é tocando em todas as esferas: sou músico, sou grafiteiro, sou desenhista, adoro escrever crônicas, enfim, eu tenho um pouquinho de cada coisa, mas não consigo demostrar nada porque nós, enquanto artistas, não temos espaço. Infelizmente, Paraíso não nos dá oportunidade e precisamos fazê-la evoluir. Aqui existe muita vaidade, o monopólio do comércio, cartório, enfim, determinadas famílias que querem tudo só para elas e a cidade fica estagnada. É muito triste isso tudo.

Jornal do Sudoeste: Faltam políticas públicas voltadas para o desenvolvimento da Cultura?
J.C.R.:  Isso nós vemos pela Guardinha, que dado a quantidade de políticos que se dizem de lá, era para ser uma potência dentro da arte, mas o que vemos é que o que está predominando é a criminalidade. Precisamos fazer a cidade crescer, e nos faltam muitas coisas. Precisamos fazer projetos voltados para o jovem, uma vez que vemos nossos espaços esportivos deteriorados e ninguém dando importância para isso. Uma coisa puxa outra, quando se tem um calendário voltado para as manifestações artísticas, você traz turismo para Paraíso e faz o comércio girar, a cidade crescer. Todavia, enquanto ainda tivermos uma base política calcada no egoísmo, pensando só nela, nada vai acontecer. A política paraisense hoje é apenas um consórcio para enriquecer determinada base, nada mais que isso.

Jornal do Sudoeste: Como você tem percebido nossa política nesses últimos quatro anos?
J.C.R.: Sempre estive atento à política, e nesses últimos quatro anos as coisas começaram a ficar um pouco mais intensa porque comecei a ser processado. Achei tudo muito louco, ter o meu direito de expressão cerceado e essa tentativa de coação da minha expressão por meio de processos. A partir daí que comecei a estar mais ligado à política. Vi que havia muitas brigas no âmbito político, mas eram brigas necessárias. O Marcelo de Morais, por exemplo, teve uma atuação bem incisiva enquanto vereador, e alguns caracterizam isto como briga, mas era necessário. Em uma das questões, se ele não tivesse batido em cima, talvez estivéssemos pagando 100 vezes mais o valor do IPTU. Analisando esses quatro anos, vejo que meus colegas vereadores que ficaram, encaro como uma aprovação do trabalho que eles fizeram. A próxima legislatura vejo que está convergente para o que pretende o governo do Marcelo, que assim como eu apanhou muito. Entendo que a população está com expectativas muito boas em relação a nossa atuação e vamos entrar não podendo decepcionar.

Jornal do Sudoeste: Vo-cê acredita que as tecno-logias aproximaram mais a população da atuação política?
J.C.R.: Sim. E acredito que quem não se adaptar a essa nova era digital, dificilmente vai conseguir chegar a uma cadeira pública. Os meios de comunicação digital para dar a informação são muito rápidos, assim como também para espalhar fake News, todavia, precisamos filtrar e buscar o que é positivo e é verdadeiro. É um meio de facilitar o acesso à informação, assim como as minhas charges, que passa de maneira mais leve o entendimento de algumas expressões difíceis da política. Acredito que a TV Câmara também tornou o acesso da população ao que acontece no Legislativo, o que pudemos observar nos resultados das eleições.

Jornal do Sudoeste: Ser processado por político por fazer uma crítica à atuação deste. Como foi receber uma intimação dessa natureza?
J.C.R.: Não foi muito diferente de quanto eu tinha 15 anos, quando fui ameaçado, quebraram minha bicicleta, enfim, já tentaram de tudo. Talvez imaginaram que tocando no meu bolso, me coagindo com esses processos, fosse surtir efeito. Foi algo ditador, anacrônico para o atual cenário em que vivemos, em que tentaram cercear o direito de um cidadão a livre expressão do pensamento. Todos processos motivados por vaidade, e para esses políticos que são assim, ter suas trapalhadas publicadas de forma jocosa é a morte. Fui a pedra no sapato de muita gente. A princípio, achei muito estranho, fiquei pensando se voltamos no tempo a ponto de não poder me expressar, e nunca xinguei ninguém, o que eu fazia era um resumo do que estava acontecendo na política, mas de forma divertida e acessível para todos entenderem o que estava acontecendo. Volto a dizer, é anacrônico: passamos por tantas coisas até chegar o momento de podermos nos expressar livremente, mas Paraíso parece ter regredido. Nossa cidade precisava dessa alternância de poder, um certo grupo ficou mais de 20 anos, era preciso renovar.

Jornal do Sudoeste: Você também foi processado pelo prefeito Walker, como foi isso?
J.C.R.: Foi o start que eu precisava para entrar na política de fato, porque se a figura mais importante da cidade estava me processando, que é o prefeito, eu precisava fazer alguma coisa pela cidade e seria como candidato a vereador. Quando ele me processou, mesmo diante de tantas coisas por fazer na cidade, não foi um processo no âmbito pessoal, mas sim motivado pelas minhas críticas à sua figura pública, como político. Tanta coisa para se fazer na cidade e o prefeito estava preocupado com sua vaidade...

Jornal do Sudoeste: Você foi eleito. Como foi isso?
J.C.R.: Muito complicado para mim. Há um ano, antes mesmo que eu me candidatas-se, meu pai sofreu um AVC, e ele era a pessoa que mais me incentivava a entrar para a política, dizia que eu não poderia deixar com que eles me processarem, que eu tinha que lutar pelos meus sonhos. Essa situação do meu pai me deixou muito para baixo, e ele ficou assim, em uma cadeira, sofrendo por ano. Um mês antes de iniciar a campanha, eu mostrei para ele o santinho digital que seria impresso, e pedi para ele aguentar firme. Três dias depois ele faleceu, aquele era o início da campanha e fiquei sem forças. Isto foi num momento em que eu mais me dei bem com ele, e para complicar ainda mais, ele sofreu um agravo, e acabou desenvolvendo uma pneumonia, foi realizado o protocolo da Covid-19, e ele foi sepultado e ninguém pode nem o ver. Não fiz campanha. Tive 1110 votos fazendo apenas algumas intervenções na internet. Só eu sei o que passei nesse período, fiquei muito destruído pela fatalidade de ter perdido meu pai.

Jornal do Sudoeste: E como você saiu dessa?
J.C.R.: Tive muito apoio da minha esposa, da minha mãe, de muitos amigos preocupados com o fato de eu não estar fazendo campanha, foi nesse momento que me senti muito abraço pela população que também me apoiou. Agora é corresponder a esses votos. Tenho certeza que de onde meu pai estiver, ele está olhando por mim e me dando força. Era o que ele queria, o que àqueles que votaram em mim queriam, agora é dar o retorno que precisa ser dado.

Jornal do Sudoeste: Como estão as expectativas para essa nova Legislatura?
J.C.R.: Estou muito tranquilo em relação ao futuro. Ganhei a eleição num dia e no outro já estava me envolvendo em todas as questões do município, fui em todas as reuniões importantes que discutiram orçamento, volta as aulas na pandemia, enfim, fui a locais, como o Parque da Serrinha, que está abandonado; fui em reunião com a Santa Casa, onde falou-se sobre a importância de ampliar os atendimentos do hospital, estou participando de tudo e muito tranquilo com o que tenho que fazer. Conheço muito bem a cidade e o que preciso fazer para a engrenagem rodar em Paraíso.

Jornal do Sudoeste: Qual é o balanço que você faz desse percurso?
J.C.R.: Como eu disse, não fui eu que escolhi a política, a política me escolheu. E acredito que desta vez se faz necessária a minha presença e acredito que serei uma peça fundamental para essa evolução da cidade. Se eu sentir que minhas atividades estão sendo cerceadas, é porque algo está faltando, está faltando alguém que não seja egoísta e possa contribuir para o desenvolvimento da nossa cidade. Apesar de ter sofrido muito, por tudo o que passei aprendi muito. Chego com uma tranquilidade muito grande, com maturidade, e sabendo o que posso fazer e o que não posso. E não repetir ações que estagnam a nossa cidade, como foram repetidas no passado, e tentar nortear a cidade para um novo rumo. Se as pessoas elegeram um prefeito com 18 mil votos, além de votação expressiva para esses vereadores, é porque elas estão cansadas da velha política que repete as mesmas ações: deixam todos sofrerem para só no final resolver fazer alguma coisa. Nossa cidade tem essa cultura do “curral eleitoral”, e precisamos extirpar isso do nosso município e causar essa evolução, principalmente na cabeça das pessoas. É preciso que a população também participe da política.