CRÔNICA HISTÓRICA

Feira de Gado em Paraíso

Por: Luiz Carlos Pais | Categoria: Cultura | 13-01-2021 17:01 | 237
O Jornal , Rio de Janeiro, 6 de março de 1920
O Jornal , Rio de Janeiro, 6 de março de 1920 Foto de Reprodução

No dia 1º de fevereiro de 1921, foi inaugurada em São Sebastião do Paraíso, Sudoeste Mineiro, uma Feira de Gado. Expressão essa usada para denominar uma unidade administrativa estadual, com a finalidade de orientar e fiscalizar a atividade pecuária em algumas regiões do estado. A economia cafeeira no município estava passando por uma excelente fase, gerando capitais que motivaram a tentativa de diversificação da principal base da economia da região. Trabalhava nessa direção o prefeito coronel José Oliveira Rezende, grande cafeicultor e proprietário do Banco J. O. Rezende, inaugurado no início daquele mesmo ano. O evento tinha também um colorido político e até mesmo predominante. Arthur Bernardes estava terminando seu mandato de governador e sua exitosa candidatura à Presidência da República estava em curso.

Por volta das 14 horas do referido dia, o prefeito providenciou alguns automóveis para levar os convidados até às proximidades do Matadouro Municipal, onde ficava a residência do senhor José do Souto, nomeado para administrar a Feira. O promotor de justiça Francisco Herculano Duarte presidiu a mesa de autoridades, convidando o pároco José Felipe da Silveira para proceder a benção do local. Duas bandas de música executaram o hino nacional, fogos de artifício subiram aos céus e foi oferecido um copo de cerveja aos presentes. O jornalista Antônio Celestino, redator do Nova Era, discursou em nome da imprensa e saudou a presença do coronel José Honório Vieira, proprietário do referido jornal.

Como toda história local tem suas conexões com o cenário mais amplo da época, a conhecida dobradinha do café com leite vinha mantendo, desde o início do século, a hegemonia na Presidência da República, mantida por duas legendas entrelaçadas, o Partido Republicano Paulista e o Partido Republicano Mineiro. Em Paraíso, essa última legenda contava com o apoio das lideranças dos velhos coroneis, que disputavam entre si para expressar maior fidelidade política ao governador.

Em edição de 6 de março de 1921, O Jornal, do Rio de Janeiro, noticiou o evento e descreveu o cenário político da cidade. José de Souza Soares havia anunciado sua possível candidatura “extra chapa” a uma vaga na Assembleia Legislativa. O prefeito tinha prometido reparar os estragos causados pelas chuvas nas ruas da cidade, assim como providenciar a capina do matagal que estava invadindo as praças e ruas. Situação nada elogiosa para o município que acabava de completar o cinquentenário de sua criação. Passado aquele momento, apagaram-se as luzes da Feira do Gado e ficou a centenária história da cafeicultura que tanta riqueza trouxe ao município. Mas, como canta Almir Sater, “Segue seu destino boiadeiro. Que a boiada foi no caminhão”!