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Maria das Mercês Coelho Souza

Por: Reynaldo Formaggio | Categoria: Entretenimento | 01-02-2021 09:50 | 670
Maria das Mercês Coelho Souza
Maria das Mercês Coelho Souza Foto de Arquivo Pessoal

Natural da cidade mineira de Formiga, Maria das Mercês Coelho Souza, a caçula de doze irmãos, nasceu aos 24 de setembro de 1933. Cresceu cercada por arte, casou-se com o saudoso Alexandre de Souza (Sorveteria Sposito) e mudou-se há mais de 65 anos para São Sebastião do Paraíso. Aqui fincou raízes, teve os filhos Mário, Alexandre, Pascoalina, José Maria e João, construiu laços e marcou época como exímia quituteira. Junto aos filhos, administra a centenária Sorveteria Spósito. Maria das Mercês tem a força e a coragem da mulher guerreira e o olhar sensível para os pequenos detalhes com que a vida nos presenteia diariamente. Nesta entrevista, nos conta um pouco de sua longa e realizada trajetória de vida.

Conte-nos um pouco de suas primeiras memórias e alguma lembrança marcante.
Pelo fato de ser a caçula e ter perdido meu pai aos seis anos, fui paparicada por todos. Fui criada mais pela minha irmã mais velha, Cecília, que morava em Belo Horizonte e não tinha filhos. Um fato interessante dessa época foi por ocasião de uma visita de um compadre à minha irmã, em Belo Horizonte. Eu era muito pequena e esse compadre saiu para passear comigo e fomos ao centro. Lá, ele se sentiu perdido e eu disse a ele para não se preocupar porque eu o levaria de volta. Chegando em casa, deram gargalhadas pela observação que ele fez: “Essa pirralha me trouxe de volta”.  Meu pai foi um homem empreendedor, dono de confeitaria de produtos finos e importados, hotéis e o primeiro cinema mudo e falado da cidade de Formiga. Meus pais se conheceram e casaram em São João Del Rey. Minha mãe sempre o apoiou em todos os seus empreendimentos além de cuidar dos filhos, vizinhos e daqueles que a procuravam em necessidade, sendo caridosa com todos. Era virtuose em piano e bandolim.

A música sempre esteve presente em sua família de origem. Conte um pouco como eram estes encontros.  
Meus pais sempre gostaram de frequentar altas reuniões e saraus em São João Del Rey, em cujas festas, minha mãe tocava piano e bandolim. Meus irmãos mais velhos também a acompanhavam no canto e violino. Minha mãe certa feita acompanhou Zequinha de Abreu, Eurico Costa, professor de música da Universidade Federal do Rio de Janeiro e outras personalidades da música na época. Todos os meus irmãos aprenderam a tocar pelo menos um instrumento. Eu só me dediquei ao canto lírico e minha voz era muito apreciada na escola, igreja e saraus em casa de mamãe. Já casada e aqui em Paraíso, onde gostava muito de fazer tudo em casa cantando, certo dia, não cantei e o filho da minha lavadeira perguntou para a mãe: “A muié num vai cantá hoje?” (risos)

Quis o destino e o amor que a senhora viesse para São Sebastião do Paraíso. Como foi o encontro com o Sr. Alexandre e a adaptação à cidade?
Eu tive um cunhado cirurgião dentista, Dr. Tasso Vespúcio e ao lado do seu gabinete, na casa dele, minha irmã Zélia tinha um comércio de artigos dentá-rios e eu era funcionária dela. Alexandre, a trabalho pela antiga Secretaria da Agricultura, sendo o responsável pela perfuração de poços artesianos, estava na cidade a serviço e veio a ter uma dor de dente. Estava ele na sala de espera quando eu entrei correndo e tropecei nele… pronto, estava feita a mágica! Namoramos, noivamos e nos casamos em três anos. Alexandre deixou o serviço público para abrir um comércio de eletrodomésticos e ficar mais perto da família, aqui em Paraíso. Adaptei-me rapidamente à cidade, tendo vizinhos maravilhosos. Minha primeira visita de boas-vindas foi da Sra. Alcira Milograna e sua mãe, Dona Zezé e muitas outras. Eu, Wanira Ferreira e Dirce Brigagão, tínhamos filhos quase sempre na mesma época. Eu tive cinco filhos, sendo quatro homens e uma mulher que me renderam nove netos e três bisnetos até agora.

A senhora também teve uma época marcante como grande quituteira. Como aprendeu a fazer bolos, doces e começou a atender encomendas desses quitutes que ganharam fama na cidade?
Sempre fiz festas de aniversário para os meus filhos e esmerava nos bolos e doces que aprendi com minha irmã Cecília Carreras, que acabou se mudando de Porto Alegre, para ficar mais perto de nós. Aqui, não tinha quem os fizesse. Os vizinhos começaram a fazer encomendas e de repente, estava fazendo bolos, lembrancinhas e bombons até para casamentos. A melhor propaganda é a de boca a boca. Até hoje tem gente que me procura por causa dos bombons.

Sua filha, a artista plástica Linah Biasi, diz que aprendeu com a senhora a ter um olhar diferente para os detalhes, a enxergar além. De onde veio essa sensibilidade?
Creio que seja uma herança de família. De mãe para mãe. Aprendi com a minha e os meus irmãos mais velhos a ver e sentir com os olhos e com a emoção, todas as belezas da vida, sejam elas micro ou macro.

Com receitas clássicas e exclusivas como o spumoni, o delicioso picolé de frutas, entre outras delícias, a sorveteria Spósito atravessou gerações e já faz parte da nossa história há mais de 100 anos. O que isso representa para a senhora?
Eu me sinto da família Spósito desde que me casei, há mais de 63 anos. Fui bem recebida e estimada por todos os familiares do Alexandre. Como ele, me sinto orgulhosa de fazer parte dessa história e poder estar à frente desse comércio que fará 110 anos agora no dia 25 de março de 2021.

Após muitos anos de uma grande parceria, na vida, no amor e no trabalho, seu companheiro de mais de 60 anos partiu para outras paragens. Como é esta separação e a senhora acredita em um reencontro?
O Alexandre se despediu de mim na manhã do dia 25 de dezembro de 2019 de uma forma delicada e profunda. Ele me beijou de forma diferente e fixou o olhar muito terno e demorado… só depois é que percebi que foi uma despedida. Faltavam treze dias para completarmos 63 anos de casados. Tudo aconteceu de forma muito rápida entre ele passar mal e ser enterrado… ficou um grande vazio que meus filhos tentam compensar. Eu creio que o verei novamente na glória de Deus, bem como todos os meus antepassados, na forma de anjos.

Nossa cidade que a acolheu há tantos anos, está prestes a completar seu bicentenário. Que presente a senhora gostaria de ofertar a nossa Paraíso?
No momento eu oferto nosso comércio centenário, mais velho da cidade e quiçá, nesse ramo, do Brasil. Gostaria de ver mais flores nas praças, mais respeito por elas e um ensino mais voltado para a ética, bairrismo e patriotismo. Essências que estão se perdendo e que a juventude não está sabendo o que é, pois seus pais não as possui… Tudo na vida segue um ciclo. Tempos difíceis criam homens fortes. Homens fortes criam dias fáceis. Dias fáceis criam homens fracos. Que essa pandemia venha fortalecer e voltar ao começo do ciclo, criando homens fortes. É isso que desejo para Paraíso.  Uma gestão humana e sensível, que só um homem forte pode fazer.

Estamos passando por essa pandemia que atinge o mundo todo e fez mudarem as relações entre as pessoas. Como a senhora enxerga este momento? Já havia passado por algo assim em sua vida?
Eu era criança quando surgiu a Segunda Grande Guerra. Formiga passou falta de muitos bens de consumo e minha mãe, teve de ser muito criativa, fazendo açúcar mascavo, mantendo uma horta com verduras e legumes. Tínhamos um grande pomar. Criávamos porcos e galinhas. Isso dava para nosso consumo e ainda ajudávamos o Asilo e Santa Casa que ficava ao lado de nossa casa. Ouvíamos as notícias pelo rádio e ficávamos bastante apreensivos, pois tínhamos um cunhado que foi para a guerra, mas este voltou com vida. Como criança, eu não tinha muita noção do que se passava. Hoje, com os meios de comunicação em tempo real, tudo se torna muito rápido bem como a proliferação desse vírus que veio para mudar os hábitos da humanidade. Ou crescemos pelo amor, ou morreremos pela dor.

Uma vida de muita luta, trabalho e realizações. Faria algo diferente? Valeu e tem valido a pena?
Fui e sou muito feliz por tudo que passei. Faria tudo de novo. Hoje, quero mais é curtir minha tranquilidade e saudade junto aos filhos, netos e bisnetos. Só tenho que agradecer a Deus por tudo o que Ele me concedeu até agora. Viver é curtir cada dia como único. Como um presente que não se repete. Valeu e tem valido cada segundo. Muita gratidão!