POLEPOSITION

Prazer, piloto do Medical Car!

Por: Sérgio Magalhães | Categoria: Esporte | 31-01-2021 10:11 | 307
Dois dos anjos da guarda dos pilotos: Alan van der Mewe (D), piloto do Medical Car, e Dr. Ian Roberts (E), médico-chefe da F1
Dois dos anjos da guarda dos pilotos: Alan van der Mewe (D), piloto do Medical Car, e Dr. Ian Roberts (E), médico-chefe da F1 Foto de DPPI / FIA

Esse recesso da F1 é um bom período para desovar pautas que no desenrolar da temporada acabam ficando em segundo plano. Uma delas é esta aqui, sobre o piloto anônimo, tão importante numa corrida como as estrelas do espetáculo, mas que passa despercebido do grande público, exceto quando sua intervenção se faz necessário, como recentemente no GP do Bahrein, do ano passado.

Falo do piloto do Medical Car, que ‘larga’ sempre atrás do grid, para uma única volta, mas de extrema importância para a segurança de todos durante a primeira volta.

O Medical Car é uma idealização do Dr Sid Watkins, já falecido, um dos grandes homens responsáveis pelo aperfeiçoamento e evolução da segurança na F1. O carro médico apareceu pela primeira vez no GP de Portugal, de 1984. Atrás do volante há sempre um piloto profissional e bem preparado físico/técnico/mentalmente, afinal, ele tem a missão de chegar o mais rápido possível ao local de um acidente, levando de carona o médico oficial da F1.

Nem todo mundo que acompanha a F1 sabe que todas as quintas-feiras que antecede o final de semana de corrida, há um treino de 1h de duração para o reconhecimento de pista e acerto dos carros para os pilotos do Medical Car e do Safety Car, simultaneamente.

Lembro-me de uma entrevista em que o ex-piloto brasileiro, Alex Dias Ribeiro, que também já foi piloto do Medical Car, revelar que seu maior medo era “tomar uma volta’ do líder da corrida antes de retornar para os boxes”. O carro médico completa apenas a primeira volta e fica de prontidão, com motor ligado, na saída dos boxes para qualquer emergência. Há inclusive uma equipe de mecânicos da Mercedes-AMG à disposição para qualquer necessidade, sem contar que há um segundo Medical Car e Safety Car, respectivamente, de reserva.

Desde 2009 o sul-africano Alan van der Merwe é quem conduz o Medical Car, um Mercedes AMG C63 S, de 550 cavalos, empurrado por um motor V8 turbo de 4 cilindros, preparado pela própria Mercedes, assim como o Safety Car, com todos os mecanismos de um verdadeiro carro de corrida.

Pelo tamanho e peso que carrega - cerca de duas toneladas -, entre equipamentos de primeiros socorros, resgate, salvamento e dois médicos, é um carro mais difícil de pilotar do que o Safety Car, muito mais balanceado.

Van der Merwe e o atual médico-chefe da F1, Dr. Ian Roberts, foram os primeiros a chegar ao local do acidente de Romain Grosjean, em novembro passado. A F1 não presenciava cenas de fogo em acidentes há mais de 30 anos, e eles disseram levar alguns segundos para processar o que estava acontecendo; onde Grosjean estava em meio às chamas. E enquanto um bombeiro abria espaço no fogo, Grosjean se livrou do cockpit auxiliado por Dr. Roberts, no momento em que Van der Merwe já auxiliava os bombeiros com um extintor que tomou à bordo do Medical Car. 

Ao todo foram 28 longos segundos de terror entre a explosão da Haas ao se chocar contra o guard-rail, até a saída de Grosjean, e que teve final feliz, graças ao trabalho de resgate e também da eficiência de Alan van der Merwe.

Van der Merwe, de 40 anos, foi campeão britânico de F-Ford, F3 e piloto de testes da extinta BAR-Honda. Não teve a chance de correr na principal categoria do automobilismo, mas é dele alguns dos recordes de maior velocidade com carros de F1. Em 2006 Van der Merwe atingiu 400,459 km/h de velocidade final com o carro da BAR-Honda na pista de sal do deserto de Utah, nos Estados Unidos, recorde oficial reconhecido pela Federação Internacional de Automobilismo. Um ano antes ele havia atingido 415 km/h no Aeroporto de Mojane, na Califórnia, mas a marca não foi reconhecida por ter sido obtida com o mesmo carro, porém modificado fora de regulamento para estabelecer a velocidade.

Como se vê, um piloto de currículo modesto se comparado às principais estrelas da F1, mas com papel tão importante quanto, apesar de passar despercebido aos olhos do grande público.