HISTORIADOR

A Guerra dos Pratos

Por: Redação | Categoria: Cultura | 30-01-2021 16:22 | 47
Foto de Reprodução

Amarguei por antecipação o adeus às primeiras alegrias, os meus brinquedos, meu pônei, pois morava no bairro rural e ia para o São José, de Batatais, o grande colégio de internato na época. Como no romance autobiográfico “O Ateneu”, de Raul Pompéia, também senti as palavras de meu pai: “Vais encontrar o mundo, coragem para a luta”.

Assim que meu pai deixou-me na porta do São José, fui conduzido para o dormitório da divisão dos menores, pois contava com 12 anos. Havia ainda, a divisão dos médios, e maiores, com respectivos campos de futebol.

Meu número no colégio era oito, entre os trezentos internos, afora os externos. O colégio ainda pertence aos padres da Congregação Claretianos. Eram espanhóis, com regime de disciplina bastante severo. Devo, entretanto, aos padres, minha formação religiosa, sobretudo a prática de esportes.

Demais gratificante, foram as amizades que perduram até hoje, com encontro anual há cinquenta anos. Houve vários acontecimentos marcantes no período em que lá estive. Mas na primavera de 1958 tendo como cenário principal o refeitório, um enorme ambiente com cerca de sessenta mesas de mármore com seis cadeiras cada uma.

Para cada aluno havia dois pratos, um para refeição, outro para sobremesa. Apesar de toda tranquilidade aparente, o clima andava meio pesado, com os internos evolvidos em merecidos protestos contra a comida, que se apresentava sem qualidade.

Depois de um dia de jejum quase absoluto, os alunos simplesmente desprezando a comida disfarçavam a fome com guloseimas vindas de suas casas. No dia combinado, na hora do jantar, o sinal foi dado. Então, o som do quebra-quebra tomou conta do ambiente, e o chão do refeitório ficou coberto de cacos. Cerca de quatrocentos pratos foram quebrados no mesmo instante. Mas naquela noite nenhuma punição foi aplicada pela direção. Os alunos foram obrigados a permanecerem na sala de estudo. O silêncio era absoluto. Ninguém sabia o que ia acontecer.

Dia seguinte abriu-se inquérito para apurar os fatos. A greve terminou, os responsáveis e os líderes foram expulsos ou punidos. Salienta-se que o quebra-quebra foi um sucesso. A comida melhorou de forma considerável.

Essas aventuras e travessuras vividas por nós, ficaram para sempre nas nossas memórias.

Sebastião Pimenta Filho – Escritor, Historiador (Esta crônica consta em meu segundo livro O Retorno da Caneta Tinteiro)-