ELA por ELA

Aurora Radaelli Soares

Por: Reynaldo Formaggio | Categoria: Entretenimento | 14-02-2021 21:02 | 1227
Aurora Radaelli Soares
Aurora Radaelli Soares Foto de Arquivo Pessoal

Na mitologia grega, Aurora era a deusa do alvorecer. Assim, todas as manhãs, ela anunciava a chegada do Sol, seu irmão, e o recolhimento da Lua, sua irmã. Por isso, o termo latim é comumente associado àquela “que rompe o dia”. Aurora Radaelli Soares, 95 anos muito bem vividos, é exatamente assim; luz que irradia, presença que marca, sabedoria aliada à doçura. Tem a energia do sol e a leveza da lua. Dona de uma disposição invejável, se mantém sempre jovem, pois assim é seu espírito. Décima quarta filha do casal Paulo Radaelli e Maria Zamperini Radaelli, seus treze irmãos já foram chamados por Deus. Restou Aurora, para relembrar a história de seus antepassados italianos e ser o esteio e inspiração para sua família e todos que têm o privilégio de sua amizade. Sempre presente, afirma que o ombro deve estar disponível para os bons e os nem tão bons momentos pelos quais todos atravessamos na jornada da vida. Parte desta longa e inspiradora trajetória, Aurora compartilha conosco nesta entrevista.

Aurora, qual a melhor memória de sua infância?
Lembro de ouvir as histórias dos meus antepassados italianos que emigraram para tentar uma vida melhor na América. Sofreram muito, foram injustiçados e humilhados, pois naquele tempo não havia leis que amparassem os trabalhadores. Eram os coronéis que ditavam tudo, e os jagunços executavam as mais absurdas ordens. Graças a Deus, meus pais sobreviveram e juntamente com outros italianos conseguiram se libertar do jugo dos malvados patrões. Papai se dedicou à horticultura. Depois, com meus dois irmãos Geraldo e Antônio, foram pioneiros no plantio de flores, porque naquele tempo não havia floricultura na cidade. Foi coisa que aumentou a renda, o que melhorou bastante a situação financeira da família. Valeu a pena, pois viveram muito bem, deixando-nos o legado da honestidade, amor ao próximo e, sobretudo, espiritualidade, pois eram cristãos autênticos. Minha infância não podia ter sido melhor, fui recebida com muito carinho e amor. Minha irmã Helena, a ex-caçula, abandonou as bonecas para cuidar de mim. Assim fui criada por duas mães. Era muito amada e amava demais minha família. Meus pais, para mim, eram e ainda são em meu coração, um tesouro imensurável.

E sobre a família que constituiu?
Casei-me com Sebastião Honório Soares e fomos agraciados com cinco filhos, onze netos e treze bisnetos, que são a paixão da minha vida!

Recentemente a senhora se fez presente na formatura de medicina de um bisneto. Sabendo da importância da família, qual o segredo de tamanha disposição? 
Em se tratando de família, a gente esquece a idade, pede ajuda a Deus, se enche de coragem e cai na dança! Foi muito prazeroso para mim poder participar dessa tão almejada vitória do meu amado bisneto Dr. Henry, que no momento encontra-se fazendo residência médica em neurologia na USP de Ribeirão Preto.

Nossa cidade muito em breve completará seu bicentenário. O que ela representa e qual sua melhor lembrança dos anos aqui vividos?
Desses duzentos anos, noventa e cinco eu faço parte. Agradeço a Deus por ter nascido aqui, amo esse torrão natal. São Sebastião, nosso fiel padroeiro, sempre nos livrou de catástrofes.  Quando nossa querida Paraíso completar 200 anos, se Deus assim o permitir, já terei completado 96 primaveras. Por isso digo, se alguém me perguntar: Quantos anos você tem? Eu responderei: faltam quatro para cem!

A senhora é uma mulher de fé? O que pensa sobre este momento pelo qual atravessamos onde não podemos ir e vir livremente e nem nos abraçar? Já havia vivenciado algo parecido?
Deus escreve certo por linhas tortas, penso que o mundo precisava de um alerta, uma vez que deixamos de olhar para as coisas do alto. Veio a pandemia, para que acordássemos, e nos tornássemos mais solidários e caridosos uns com os outros, valorizando mais a vida, que é um presente do nosso Criador. Tenho esperança que tudo isso passará, para podermos viver normalmente, sem esquecer a lição. Nunca vivenciei tamanha calamidade! Acredito que em muitos corações despertou a vocação de ajudar o próximo.

Sempre presente nas festas e eventos sociais, tem sentido falta do contato com os amigos?
Como não sentir falta dos encontros agradáveis com os amigos? Aquele papinho gostoso nas festinhas familiares, na praça aos domingos ouvindo a banda municipal, carinhosamente chamada “Furiosa”, regida pelo maestro Geraldo Borges Campos, nosso saudoso Lalado.  As letras das músicas tinham estórias, as mais variadas, algumas tão emocionantes que nos faziam sonhar.

Tem medo da morte? O que ela representa pra senhora?
Não tenho medo da morte, ela representa para mim, o início de uma nova vida, onde a criatura encontra com o Criador, nosso soberano juiz. Representa também a libertação para quem deixou de sonhar ou tem uma doença incurável.

Tem algum sonho que ainda não realizou? Faria algo diferente?
Sim, sonho ver meu querido, maravilhoso, esplêndido e gigante país estabilizado, livre da corrupção. Poderíamos e temos potencialidade para pertencermos ao primeiro mundo, não fossem os famigerados larápios que desviam verbas para seus próprios bolsos.

A senhora é saudosista? Sente falta em especial de alguém ou algo que já teve em nossa cidade?
Sinto falta dos meus entes queridos que me precederam na eternidade, das missas às seis e meia da manhã, celebradas pelo inesquecível Monsenhor Mancini. Como dona de casa que sempre fui, era confortável cumprir o compromisso dominical, sem comprometer a lida diária. Dos incansáveis e simples congadeiros, que durante os dias da festa natalina suavam as camisas conduzindo reis e rainhas para cumprirem suas promessas. Era uma verdadeira confraternização religiosa. Das quermesses onde celebravam e homenageavam algum santo, ou mesmo para fins filantrópicos. Tinha correio elegante para os namorados trocarem frases de amor, tudo muito divertido. Tínhamos dois cinemas, um era o Cine Recreio e o outro situado na Praça da Matriz, o Cine São Sebastião, que exibiam bons filmes, inclusive seriados. Papai e eu éramos assíduos expectadores. Tivemos a Escola de Farmácia, funcionava em um prédio antigo, onde hoje é o Banco Itaú. Havia também um orfanato mantido pelo povo com doações mensais e era dirigido por freiras oblatas. Eu era uma das fiéis colaboradoras. Tínhamos duas ferrovias para transportar passageiros e cargas. Para irmos a São Paulo, utilizávamos a Mogiana. A viagem durava um dia. A gente tinha que levar matula com merenda, pois não havia restaurante a bordo. A máquina era movida a lenha, uma só máquina carregava às vezes, quinze ou mais vagões. Era lindo de se ver, parecia uma centopeia gigante serpenteando os trilhos. Era desconfortável, mas o panorama da viagem, compensava. Igualmente, usávamos a São Paulo e Minas, para irmos a Ribeirão Preto. Mas a ganância do homem para vender petróleo e criar pedágios, desativou as benditas ferrovias. Tinha também a Escola Doméstica dirigida pelas irmãs da Irmandade Jesus Crucificado, que preparava as meninas para serem profissionais em arte culinária, costura, bordados, crochê e tricô. Saíam verdadeiras donas de casa. Lembro-me também da Frente Negra, uma associação de pessoas idôneas, tinha salão de festas com animados bailes. Lembro-me ainda da Sociedade Beneficente Recreativa Operária, a tão badalada Liga Operária, onde se comemorava o Dia do Trabalho, primeiro de maio, com alvorada às cinco da madrugada, com passeata, banda de música e fogos. Terminava com o café da manhã. O famoso café medroso, que era servido com deliciosos quitutes. O café corajoso, ao contrário, era servido puro e simples, sem acompanhamentos. Era para os sócios, porém, aberto para quem quisesse participar. No referido prédio, no andar de cima, funcionava uma escola para alfabetizar adultos. Havia na mesma rua a Sociedade Italiana, onde os italianos se reuniam não só para tratar de assuntos referentes à associação, mas também para o lazer. Promoviam bailes e outras festividades. Com extinção das atividades, devido as idades avançadas e muitas mortes, os italianos que ainda estavam na ativa, doaram o prédio para a Prefeitura Municipal. No local funciona hoje o camelódromo. Tenho tantas outras lembranças que se fosse citá-las, não caberiam nesse jornal.

A senhora é escolhida prefeita de nossa cidade. Qual sua primeira ação?
Reativaria a cultura com projetos socioculturais e valorizaria os artistas paraisenses, pois tenho pena dos nossos jovens que precisam migrar para outras cidades procurando oportunidades e entretenimento.

A vida é bela, Dona Aurora? O que faz valê-la a pena?
A vida é bela, o mundo é lindo! Ao nascermos estava pronto, recebemos tudo de graça. Deus criou e viu que tudo era bom, então, movidos pela gratidão Àquele que nos presenteou com tamanha dádiva, devemos vivê-la intensamente, com dignidade e galhardia, louvando a Deus que além de tudo nos deu Jesus para ser luz nos nossos caminhos.

Aurora com Cinara, a primeira neta – “Minha Avó! Nossa abençoada e amada vovó! Mais que uma avó, é parceira, conselheira, ouvinte, incentiva-dora, uma companheirona! Uma verdadeira AMIGA, sempre pronta para ajudar, proteger, defender e amar incondicionalm