CRÔNICA HISTÓRICA

Retorno à velha estrada boiadeira

Por: Cícero Barbosa | Categoria: Cultura | 10-03-2021 01:14 | 194
Foto: Reprodução

No coração do bairro da Mocoquinha está a avenida Wenceslau Braz, uma das mais antigas de São Sebastião do Paraíso, polo cafeeiro do Sudoeste Mineiro.

A atual denominação presta homenagem a um dos líderes mineiros da chamada política do café com leite, Wenceslau Brás Pereira Gomes, cuja carreira política começou na vizinha cidade de Monte Santo de Minas, onde foi promotor de justiça.

Depois, foi deputado federal, prefeito de Belo Horizonte, governador de Minas Gerais, entre 1909 e 1910, vice-presidente da República e presidente entre 1914 e 1918.

No início do século XX, conforme consta nas atas da Câmara Municipal, a atual avenida Wenceslau Braz é identificada como “Avenida do Baú”. Naquele tempo, a partir do local onde hoje está o prédio da Libertas Faculdades Integradas, antigo Seminário Nossa Senhora do Sion, iniciava-se um sinuoso caminho que levava ao Morro do Baú, ponto de referência para pegar a estrada para Itaú de Minas, antigo Córrego do Ferro.

Na memória de antigos moradores dessa parte da cidade, a mesma via pública era também conhecida como velha estrada boiadeira. A partir da antiga Capela Nossa Senhora Abadia, iniciava-se um caminho por onde passavam boiadeiros, tropeiros e carreiros que percorriam a rota entre as fazendas do município de Passos e a cidade paulista de Mococa.

Nessa última cidade, desde o ano de 1890, já estava inaugurada a Estação da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro.

Ao retornar no tempo, a magia da velha estrada boiadeira, regida por sonhos de uma vida bem mais rural que urbana, ficou enraizada nas histórias contadas pela minha avó Margarida de Jesus, com quem eu e meus irmãos mais velhos convivemos durante toda a infância. Em 1925, quando ela e meu avô Herculano mudaram-se de Jacuí para Paraíso, foram morar numa casa localizada nessa velha estrada.

Bem em frente à nossa casa, já no início dos anos 60, ficava a chácara do senhor Sebastião Esteves e sua esposa Dona Nayme. Todos os finais de semana, o generoso e culto chacareiro atravessava a rua para nos dar um presente especial: o encarte infantil do jornal o Estado de São Paulo. Porta de entrada para despertar o gosto pela leitura, com desenhos em quadrinhos, histórias, charadas, palavras-cruzadas, brincadeiras e outros encantos.

Nasci nesse lugar especial da velha avenida, coberta por uma espessa camada de areia e ornada por um cenário quase mítico. Naquele tempo, havia dois centros espíritas próximo à esquina com a rua La Salle. Num deles, praticava-se o culto das matrizes religiosas africanas, frequentado por muitos paraisenses, tanto das classes populares como das famílias mais abastadas.

Foi nesse local que passei minha infância, junto com minhas irmãs, irmãos e primos, quando éramos embalados pelas histórias contadas pela minha avó, pela leitura do jornal infantil e pelos valores transmitidos pelos meus pais, o sapateiro e poeta José Paes, e a costureira e leitora Terezinha Lizarelli. Minha mãe preservou no seio familiar o valor pela leitura e pela educação escolar, herança deixada por minha avó, Fernanda Lizarelli, que chegou ao Brasil como professora formada na Escola Normal de Lucca, berço da encantadora região italiana da Toscana.