CRÔNICA HISTÓRICA

Participar do seu próprio enterro?

Por: Luiz Carlos Pais | Categoria: Cultura | 24-03-2021 00:55 | 306
Fonte: O Dia. Curitiba, 27 de Maio de 1959
Fonte: O Dia. Curitiba, 27 de Maio de 1959 Foto: Divulgação

Entre as histórias mais inusitadas de São Sebastião do Paraíso, Sudoeste Mineiro, está o caso de um honrado cidadão que, ao retornar de uma viagem semanal de trabalho, numa fria manhã de maio, encontrou quase tudo preparado, em sua casa, para o seu próprio enterro. Família e amigos estavam consternados à espera de um carro funerário que traria o seu corpo da cidade paulista de Campinas. Além de ficar na memória de seus conterrâneos, esse episódio foi amplamente noticiado na imprensa nacional.

Conhecido morador das imediações da praça Nossa Senhora Aparecida, o protagonista da história exercia o ofício de pintor de paredes. Após longos anos de trabalho, bem-sucedido no exercício da profissão, reacendeu nele antigo desejo de se tornar viajante vendedor de tintas e de outros materiais usados na pintura de casas. Com esse propósito, assinou contrato de representação com um abonado empresário estabelecido na referida cidade paulista. Assim, passou a viajar por várias cidades servidas pela Companhia Mogiana de Estrada de Ferro. Conhecedor do produto, depois de dois anos de trabalho, começou ele a conquistar uma importante carteira de clientes.

Tudo parecia ir muito bem no exercício da nova atividade e com suas aventurosas viagens por cidades do interior paulista e mineiro. Mas, como nem tudo são flores em nenhuma profissão, alguns desencontros com o empresário campineiro o levaram a romper o contrato de representação, passando ele a trabalhar para outro atacadista de tintas, estabelecido naquela mesma cidade.

Na véspera do retorno de uma viagem, sua família recebeu um assustador telegrama. Alguém que se dizia ser seu amigo comunicou o seu triste falecimento repentino. Como não poderia deixar de ser, a infausta notícia – que hoje seria chamada de fake news - provocou forte comoção em Paraíso. A família transtornada solicitou auxílio ao suposto amigo signatário do telegrama. Esse prometeu que tudo seria preparado para que o corpo do “falecido” chegasse à cidade, na madrugada do dia seguinte, levado por um carro funerário.

Ao raiar do dia seguinte, o viajante vendedor de tintas, repleto de saúde , desembarcou na estação e se apressou em ir direto para o aconchego do lar. Quase houve pânico quando chegou. Levou certo tempo para que as pessoas pudessem se recompor do grande susto.

Nos dias seguintes, ele tentou, em vão, descobrir quem teria sido o autor daquela trapaça. Solicitou auxílio ao generoso prefeito Manuel de Palma Vieira e chegou a conversar com o delegado. Foi então aconselhado a sepultar aquela história, pois, afinal ele estava forte e saudável.

Antes que outros fantasmas pudessem aparecer no cenário da vida, o honrado pintor retomou sua primeira profissão a qual sempre exerceu com maestria.